Uma história oral do anarcopunk em São Paulo – parte 3

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Depois que nomearam as suas bandeiras, os anarcopunks se sentiram incomodados com a falta de uma prática da ação direta nos meios tradicionais anarquistas e sindicais. Foi aí que expandiram as ações e o discurso para a defesa de causas específicas. Feminismo, ambientalismo, diversidade de gênero, direitos indígenas... Eram muitas as frentes.

As primeiras reuniões do MAP (Movimento Anarco-Punk) rolavam na Estação da Luz. Por volta das 19h começavam a chegar os punks, agrupando-se nos bancos ou nas escadas com acesso fechado. Nas reuniões rolava troca e distribuição de materiais libertários — fanzines, livros, revistas, panfletos, jornais — e apresentação das correspondências que chegavam na caixa postal do movimento. Os encontros aconteciam ali porque os punks não tinham sede e moravam próximos às estações ferroviárias. Os punks se juntavam, falavam de política, de som, faziam brincadeiras, bebiam goró e compartilhavam alimentos.

Essas reuniões deram início às manifestações e aos ciclos de ações onde foram criados os coletivos e as comunas. Essa atividades incluíam panfletagens no centro da cidade, visitas a órgãos da imprensa para entregar "cartas-abertas" ou protestar, invasão de eventos "do sistema" ou burgueses. Acima de tudo, acreditava-se que isso era a verdadeira identidade do punk.

Na terceira parte desta história oral do anarcopunk em São Paulo, os depoimentos revelam as primeiras preocupações dos coletivos. Nessa época, o convívio anárquico é buscado pela primeira vez em experiências de comunas: as bandas começam a amadurecer, a galera consegue prensar os primeiros vinis na forma de coletâneas e split EPs, descola lugares pra tocar, e ainda se proliferam os zines e publicações anarcopunks, grupos de punkapoeira, teatro, poesia, artesanato e tudo mais. Com a palavra, aqueles que estiveram lá:

Fontes: Antônio Carlos (Centro de Cultura Social, punk das antigas), Diego Divino Duenhas (Movimento Anarco-Punk), Ivan Ribeiro (Anarquistas Contra o Racismo), Johnny Revolta (CCS Vila Dalva), Josimas Ramos (Execradores), Katy Fon (MAP), Keli de Fátima (KRAP - Koletivo de Resistência Anarco-Punk, zine Libertação Feminina), Marcolino Jeremias (ULBS - União Libertária da Baixada Santista), Maria Helena (Coletivo Anarco-Feminista, banda Ira dos Corvos, MAP), Marina Knup (Imprensa Marginal), Nenê Altro (Juventude Libertária), Paulo Poeta (Amor, Protesto y Ódio), Ruivo Lopes (ULBS), Sergio Valdez “Loquinho” (Coletivo Altruísta), Silvio Shina (Coletivo Altruísta, zine Punto de Vista Positivo).

Leia os capítulos anteriores da História Oral do Anarcopunk nos links abaixo:

As frentes de militância

Marcolino Jeremias: Eu acredito que certas questões, como a liberação animal, a diversidade de gêneros, a ecologia e a luta antimanicomial, talvez não tenham sido abordadas pelos punks mais velhos porque eles tinham outras perspectivas e prioridades. Possivelmente, eles ainda não tinham feito um exercício reflexivo acerca destes temas. Oriundos das periferias e com muitas dificuldades para obter informações, os punks da primeira geração não tinham desconstruído certos preconceitos.

Já os anarcopunks viram essas questões primeiro e foram cobrar uma postura mais coerente dos punks mais velhos, o que não foi visto com bons olhos por eles e gerou muitas discórdias nos primeiros anos. Acredito que, com o tempo, os punks das antigas se viram obrigados a abrir os olhos para discussões com essas.

Ivan Ribeiro: Existiam diversas bancas que se proclamavam anarquistas e punks. Um exemplo é o Coletivo Ação e Anarquia, dentro da cena Punk SP. Porém, a questão do regionalismo era complicada, e dentro da cena SP existiam outras cenas que eram a antítese do anarquismo, tipo a SP-Oi. Os punks da primeira geração tinham e têm a verve anarquista, o discurso, porém não a sistematização do anarquismo, como método e forma de ação e atuação. Eles cantavam e cantam o cotidiano da sociedade através de letras críticas, ácidas e radicais. Muitos tinham a anarquia cantada pelo Sex Pistols como a expressão do anarquismo, e nós queríamos mais, queríamos a práxis do anarquismo fundido à cultura punk.

Buscávamos a nossa politização enquanto punks e a revitalização do anarquismo através de sua fusão com o punk. Nessa época eu já tinha uma bagagem de leitura, organização e prática, da minha vivência dentro do Centro de Cultura Social (CCS) e da COB, e procurei colocar isso à serviço do anarcopunk. Trouxemos pra cena temáticas espinhentas pro punk, como o anarco-feminimo, negritude, LGBT e o veganismo, dentre outros temas que, durante muito tempo, foram tabu dentro do punk.

Punkaiada reunida em Florianópolis para protestar no 7 de Setembro, 1993. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Marina Knup: Hoje em dia a cena anarcopunk não está tão coesa como em outras épocas, mas tem uma galera anarco Brasil afora envolvida em atividades com indígenas nas aldeias, movidas periféricas e saraus nas quebradas, movimento negro e contra o extermínio da população negra e periférica, permacultura, movidas feministas e LGBT, movimentos de moradia, okupas [ocupações], experiências autônomas e coletivas, além de projetos ligados a anarquismo, punk, cinema anarquista, editoras, distros, zines, bandas e outras iniciativas culturais e políticas.

Josimas Ramos: A questão da liberação animal vem desde o começo. A primeira discussão que tivemos a respeito de vegetarianismo no anarcopunk foi bem no comecinho. Eu mesmo cheguei a falar que não tinha nada a ver a primeira vez que ouvi o pessoal conversando sobre isso, achando que existiam lutas mais importantes. Entre os velhinhos do CCS havia o Gimenez, que lutou na Guerra Civil Espanhola. Numa de suas falas sobre a luta, ele disse: "Vocês não levam a sério algumas discussões. Já pensaram sobre a questão do vegetarianismo?'. Fiquei prensando atenção, e ele: "Pra vocês é muito fácil abrir a geladeira e escolher o que comer. Na época da guerra civil eu estava na trincheira, e quando passava o sopão eu não aceitava comer porque não como carne." O cara mantinha o vegetarianismo dele mesmo quando passava fome. Ele ERA vegetariano, e não alguém que parou de comer carne eventualmente. Isso foi muito inspirador. Aí comecei a questionar com os punks o porquê de não levarmos a sério aquela discussão. Se você pensar bem a questão do consumo de carne é um absurdo, se você está questionando tantas coisas.

Esse foi um debate duro, pois nós acreditamos num mundo novo, mas quando temos que mudar hábitos enraizados não conseguimos lidar com isso de boa. Concluímos que precisávamos mudar algumas coisas pra agora, e tinha que começar pela gente. Tivemos que rever muitas coisas. Desde os nossos hábitos até a relação com as pessoas. Gerar empatia, tratar de forma horizontal... Abandonar os vícios que tanto criticávamos nas letras das nossas músicas. Tem galera do começo do anarcopunk que está enraizado na luta indígena de maneira incrível. Gente que descobriu dentro da sua ancestralidade o parentesco indígena e hoje se identifica assim, tem nome indígena, mora em aldeia. E carrega consigo o anarcopunk. O Alan (Metropolixo) mesmo, ele se adentrou muito mais no movimento negro, na luta periférica, mas ele tem dentro dele: "Sou anarcopunk e estou nessa luta."

O anarcopunk pra mim hoje é uma luta que independe de coletivos. Ele pode estar em qualquer lugar. Numa aldeia indígena, no movimento negro, feminista, em todos os lugares. A gente falava muito isso nos anos 90 e eu acho que nunca esteve tão forte. Nós aprendemos muito com tudo isso e é algo que acaba fazendo com que a luta anarcopunk seja por outras coisas que não o próprio anarcopunk, e com objetivos alcançados. A necessidade de sair do gueto foi urgente. Tivemos que ir pra outros lugares, porque senão ficaríamos falando de anarquia para anarquistas. Não podemos pensar que estamos no punk, mas que somos punks. E ser punk significa ter uma vida punk em todas as esferas. Na relação com as pessoas, na forma como cuida da sua alimentação e saúde, buscar a autonomia de que tanto se fala. Aplicá-la no nosso cotidiano. Da mínima à máxima expressão.

Anarcos na manifestação do A20, em 2004. Foto: Diego Divino Duenhas/Arquivo pessoal

Nenê Altro: Não me dei bem com a filosofia anarcopunk porque eu sempre quis ser roqueiro ídolo [risos]. E eu não tenho vergonha de falar isso. Eu nasci pra estar com o microfone na frente de cinco mil pessoas. Eu queria ser o que esses caras eram. Queria ser o Jello Biafra, o cara lá do Ratos de Porão, o Redson ali em cima. Eu, com esse negócio do anti-herói, nunca me dei bem. Eu tinha letra contra tudo isso, multinacional, vocalista de banda punk famoso, mas no fundo queria beber Coca-Cola e ser os caras [risos]. Eu não sou nem vegetariano mais, entendeu?

Não tenho consciência pesada por usar coisa de marca. A minha visão política é uma só: a ideia de viver em liberdade, sem autoridade, em anarquia, livre do Estado, isso nunca vai sair de mim. Mas neste momento do Brasil, se eu não for pela democracia, não sei o que vai ser. Agora, acima das ideologias, é preciso buscar uma democracia que ao menos funcione. É a mesma coisa que penso em relação a multinacionais, essas coisas todas. Mano, você tem que ter uma coisa autossustentável primeiro aqui, pra depois sair com pequenas bandeiras. Se tem um monte de prédio vazio e gente na rua, existe uma porção de outras coisas pra você se preocupar ao invés de ficar vendo se o cara come Doritos ou não.

Sou muito mais o anarcopunk antes do Crimethinc. Adoro o anarcopunk antes do Catharsis [risos]. Depois daquilo eu acho uma coisa redundante, chata, que sai de cobrança, de dedo na cara dos outros. Antes era uma coisa inocente, utópica, romântica, mas era verdadeira, cara. Não era paga pau de gringo. Quando o cara fala que vai fazer Yo Mango! [afanar produtos em lojas como prática anticorporativa] eu tenho vontade de dar um tapa na orelha dele, mano. Falar assim: "Você vai é roubar! Que mané fazer Yo Mango!" [risos].

Gente de classe média alta querendo comer lixo do MC Donald's?! Vai se fuder! Tive a paciência de ler aquele Days of War, Nights of Love. Que bagulho chato! Como um jovem pode ser tão velho? Se eu quisesse ser hippie, teria virado hippie, não precisava de pretexto, de explicação política, de uma coisa glamourosa. Era só parar de tomar banho e tocar na rua. Acabou! Muito mais simples, tá ligado? E o Raul Seixas tinha ideias muito mais inovadoras do que aquele livro inteiro. Eu parei de falar que eu era anarco-individualista por causa do Crimethinc. Fui condenado por anos, apareceu o Crimethinc, todo mundo virou anarco-individualista. Parei. Não quero ser associado ao coletivo dos individualistas [risos].

"Adoro o anarcopunk antes do Catharsis [risos]. Depois daquilo eu acho uma coisa redundante, chata, que sai de cobrança, de dedo na cara dos outros. Antes era uma coisa inocente, utópica, romântica, mas era verdadeira, cara. Não era paga pau de gringo. Quando o cara fala que vai fazer Yo Mango! eu tenho vontade de dar um tapa na orelha dele, mano. Falar assim: 'Você vai é roubar!'" [Nenê Altro]

Ruivo Lopes: Inspirados pelas ideias anarquistas, muitos anarcopunks começaram iniciativas artesanais, cooperativistas, solidárias e comunitárias. De repente, começamos a ver nos fanzines anúncios de produção de camisetas, k7s e discos, vendidos quase que a preço de custo ou trocados, na maioria das vezes. Em São Paulo, alguns estúdios começaram a ser improvisados dentro de casa e as bandas compartilhavam não só o mesmo espaço, mas também os instrumentos. Em Santos, a ULBS mantinha uma biblioteca comunitária e um acervo anarquista pequeno, mas muito importante, constituído basicamente por doações. Essa biblioteca comunitária e acervo contribuíram para a formação libertária de muita gente. Mas o que todo mundo no movimento punk e anarquista sempre quis também sempre foi o mais difícil de fazer, e quando se fazia, o desafio era mantê-los: os espaços autogeridos. Era difícil de construir, mas muito fácil de acabar.

Em São Paulo, a exemplo do Centro de Cultura Social, um espaço importante para gerações de anarquistas e punks, e que também contribuiu na formação do movimento anarcopunk, existiram iniciativas um pouco mais duráveis, sempre nas periferias. Hoje, o Centro de Cultura Social da Vila Dalva, na divisa da zona oeste de São Paulo com Osasco, é mantido por um grupo de anarcopunks – chama-se Comuna Aurora Negra e tem apoio da comunidade local.

Vivendo em harmonia, 1997. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

As comunas e coletivos

Marcolino Jeremias: Das experiências de convívio anarcopunk que eu testemunhei e sobre as quais posso falar, foram: a Comuna Goulai Polé (no bairro do Rio Pequeno, em São Paulo), que além de ser um espaço de convívio, organizou um pequeno acervo de documentos anarquistas e o espaço serviu como local para várias reuniões e encontros de coletivos anarquistas ligados ao movimento, como o Anarquistas Contra o Racismo (ACR), Projeto de Conscientização Anti-Militarista (PCAM — iniciativa que começou na Baixada Santista), Rede Anarco-Feminista, entre outras.

Quando alguns anarcopunks alugavam uma casa e moravam juntos, imediatamente virava uma espécie de arquivo, local para reunião de grupos políticos, ponto de encontro de militantes antes e depois de manifestações e protestos públicos, pousada para outros militantes que estavam de passagem pela cidade e etc... Passavam tantas pessoas por locais como o PCA, casa de amigos que alugaram um apartamento na Rua Augusta, que na parede de entrada o pessoal colava cartazes de eventos para divulgar atividades. Isso era bem comum nos anos 90, teve vários casos.

Ivan Ribeiro: Pessoalmente, além da Comuna Goulai Polé, me recordo da Toka, que havia em São Leopoldo (RS). As comunas foram uma baita expressão do espectro coletivo, sejam alugadas ou ocupadas. Uma das primeiras foi a Comuna da Bresser, no início dos anos 90. Na época eu fazia parte da comissão de imprensa do MAP, e conseguimos emplacar uma capa no caderno ZAP!, do jornal O Estado de S. Paulo, com o nosso finado amigo Fabio Racco.

Ali, colocávamos o comunitarismo anarcopunk em ação. Era o convívio cotidiano, erros e acertos, eram eventos, rangos, sons, convívio, utopias e sonhos. Tínhamos comunas em diversos locais no Brasil e transitávamos entre elas, levando e trazendo zines, ideias, livros, correspondências, numa época sem redes sociais. Em Curitiba tínhamos a Kaaza, uma ocupação no início gerida por anarcopunks, na mesma cidade o Paiol, em Blumenau o Corcel Preto, em Campinas, na Bahia, em Minas Gerais...

Maria Helena: Eu morei na comunidade lá da Bresser, que foi bem conhecida, durou uns dois anos. Saiu até uma matéria no caderno ZAP! do Estadão. Alguns moravam lá, mas o local era ponto de encontro para muitos outros. Contava com uma biblioteca, abrigava gente vinda do interior, litoral, outros estados. Gente que colava lá e ia ficando, ficando, por tempo indeterminado [risos], às vezes chegava tantas pessoas que nem cabia lá. A galera dormia até no banheiro por falta de espaço. A casa era até grande, mas às vezes juntava 50 pessoas. Morei também na casa da rua da Várzea, que era do pessoal de Jundiaí. Acabava por coisa de aluguel, vencia, a gente meio sem eira nem beira... Aí chamaram a gente pra ir morar lá em Curitiba. Foi montada outra comunidade lá. Teve o pessoal da ocupação K(A)aza e nós. Chamávamos de Casa do Centenário, que era o nome do bairro.

Existem aspectos positivos e negativos nessas experiências. De negativo, a questão de gênero é uma das coisas que mais pega. Porque era sempre uma maioria de homens, aí tinha umas coisas tipo, a limpeza de casa fica pra quem, né? E por preguiça mesmo. Porque todo mundo é assim: vai deixando pra ver quem faz. E acaba que geralmente eram as mulheres que se incomodavam com a sujeira. Rolava isso com comida também. As mulheres ficavam incomodadas e queriam manter o bem-estar da comunidade. A gente tenta romper com isso pra que inclua todo mundo, mas aí no geral, quando eu convivia eram os homens que não queriam colaborar. Só um ou outro rompia com isso e tomava uma iniciativa pra faxinar, fazer um rango legal... E tinha aquela coisa, às vezes você está trabalhando e um pega e se encosta... Mas é claro que rolavam várias brigas sobre essa questão, de quem se encostava.

Encontro anarcopunk em Montevideo, Uruguai, 1998. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Antônio Carlos: Uma vez eu vi dentro de uma dessas comunidades uns caras olhando pela fechadura do banheiro uma menina tomando banho, e eles, zoando, diziam assim: "A mina tem rabo!". Tem algumas coisas que eu presenciei e que hoje tento fazer alguns deles se recordarem, por conta de suas memórias seletivas, as cagadas do passado. A gente assume o erro, reavalia, e toca a vida. No convívio comunitário algumas pessoas tentam criar uma visão de mundo única. E por ser tão única ela se torna excludente, nunca consegue considerar os demais.

Certa vez no CCS um casal estava se beijando e tal... e de repente começa a trepar ali, porra! Aí alguém foi e jogou um lençol em cima dos caras. Você vai trepar ali por que, se tem tanto quarto vazio? Até que ponto aquilo não passa de puro exibicionismo? Não é possível dosar isso. Não que isso me incomode. Diz a lenda que certa vez na Bahia, durante uma atividade, um maluco disse: "Sou anarquista, vou defecar aqui." E defecou! Pô, pérai, mano. A pessoa quer provar que é libertária quando faz esse tipo de coisa? Isso não é prova de ser libertário. Você faz porque acha que é natural? Tá bom... Você tem que zelar pelo bem estar coletivo. Tem coisa que não é assim.

"Uma vez eu vi dentro de uma dessas comunidades uns caras olhando pela fechadura do banheiro uma menina tomando banho, e eles, zoando, diziam assim: 'A mina tem rabo!'. Tem algumas coisas que eu presenciei e que hoje tento fazer alguns deles se recordarem, por conta de suas memórias seletivas, as cagadas do passado." [Antônio Carlos]

Josimas Ramos: As brigas internas foram prejudiciais demais pro anarcopunk no final dos anos 90. Foram fatais ao ponto de existirem realidades diferentes em São Paulo, não opostas, mas com propostas de luta bem diversas. Por transitar em ambas, vi que muito do que se queria era parecido. Existiam diferenças em formas. E pra mim o principal problema era quando as pessoas não queriam ouvir as outras formas. Mas acho que, com o decorrer do tempo, a gente aprendeu muito mais sobre empatia e comunicação não violenta pra entender a necessidade de cada coletivo, cada indivíduo. No fundo sempre quisemos um mundo onde coubessem vários mundos, mas na época não conseguimos fazer isso. Pecamos por tentar falar mais do que ouvir. Claro, quem não consegue ser ouvido, se afasta realmente. E vai se afastar do jeito que se sentir melhor, às vezes com violência. Certa vez estávamos na Casa da Esquina — eram duas casas que serviam de morada para os anarcos na mesma rua, uma ficava na esquina e a outra era a Goulai Polé —, e de repente eu vi pessoas que cresceram juntas no anarcopunk numa briga gigantesca e não entendi aquilo.

Keli de Fátima: Na Goulai Polé eu abracei a causa mesmo, sabe? Convivi muito tempo com o pessoal ali. Chegava quinta-feira, às vezes, eu já ia pra lá, passava o final de semana. Nós organizamos encontros ali. Com o pessoal da Casa da Esquina também. Como eu namorei o Estilou, ficava muito tempo com o pessoal convivendo. Convivi também com pessoal de outros lugares, Campinas, onde fiquei uns dois meses. E a gente que morava com a família sempre se sentia na necessidade de levar alguma coisa. Comida, ajuda pra pagar as contas, dava uma força de outra forma.

Manter o aluguel, da Casa da Esquina mesmo, era muito foda. Chegava de fim de semana, colava muita gente. Imagina conta de água, luz, um absurdo. Sempre tinha um cofrinho lá pra receber doação, mas nunca tinha nenhuma moeda. Ninguém doava nada [risos]. Teve gente que conseguiu comprar barraco em favela, e os punks moravam junto.

Eu também embarquei nessas de niilismo. Começou a ter alguns problemas entre a Comuna e a Casa da Esquina, umas divergências de ação, de ideais. A galera da Casa da Esquina tinha um lado muito musical, tinha banda, organizava os gigs lá... O que se deu é que pixaram certa vez "Punk is Dead" no muro da Casa da Esquina. E o pessoal era total crust, né meu, vida fodida, levando daquele jeito mesmo, encarando a realidade... aí começou a ter muito conflito, gerou várias brigas...

Foi uma época sombria mesmo, triste, um vácuo, tanto que tem um disco do Provocazione (Max – bateria, Naira – baixo e Estilou – voz) chamado Culminando no Vácuo das Impossibilidades (Absurd Records, 2001). Fizemos várias manifestações, metemos a cara, fomos no Consulado dos Estados Unidos, atiramos bolha de tinta, demos a cara pra Polícia Federal, fomos filmados, invadimos o Consulado do México, fizemos um monte de ações fodidas... só que começou a gerar um desgosto, a gente começou a ler uma literatura mais pesada, de existencialismo, a ficar muito cético diante das coisas, ler Nietzsche, uns negócios que eram muito pesados e acabavam com aquela esperança patética. Isso abalou.

Fui muito militante, mas a coisa foi se degradando, e você não pode negar também que o uso de droga começa a interferir muito no potencial das pessoas. Chegou uma época que a Comuna, cara, era foda de estar lá. Porque colava um pessoal do bairro, um pessoal do hip hop, os malandrões do bairro. Então, às vezes você acordava, e os caras: "Quem é essa punk, aí? Tá liberada?" Pô, isso injuriava, né, você é anarco-feminista, não quer saber de cara babando em cima de você. Isso não era uma conduta libertária, né, meu. Aí o pessoal já tocando um pagode, um samba... Na Casa da Esquina já, não, lá era total crust, total Äs Fuck mesmo, Intestinal Disease, Detestation, dread, tudo de preto, muito rebite, aí falei: "Mano, essa ideia de comuna não está mais dando certo."

Ali na Casa da Esquina o pessoal era mais denso, mais metal. E ali o pessoal também era vegan, e isso era bastante confrontado. Porque tentar resistir sendo vegetariano/vegan dentro dessa cena de não ter grana é foda... A gente reciclava alimentos da feira... Tinha uma feira lá de fim de semana que a gente ia nas bancas pegando tudo que já estava meio batidinho pra poder ter comida. A realidade era bem foda, e também porque a gente usava droga e queria beber, fazer outras coisas, mas não tinha dinheiro.

Johnny Revolta: A Goulai Polé surgiu próxima da favela da Vila Dalva, então desde aquela época existe uma relação com o bairro que resultou no atual Centro de Cultura Social Vila Dalva, onde mantemos um arquivo que já tem mais de 24 anos. Temos desde os primeiros panfletos. Foram anos e anos de vivência. O pessoal começou a conhecer, a ver os punks e tal, achar legal, engraçado ou esquisito. Com isso começa a ter uma intimidade com as pessoas, os tiozinhos e tiazinhas, a conversar, explicar... Antigamente você passava com o cabelo espetado, toda a rua parava, hoje em dia ninguém nem liga, acha que é o cabelo do Neymar [risos]. Antes a gente tinha que fazer coisas estratégicas, se esconder, esconder o cabelo com uma bombeta porque corria o risco de ser agredido por aí. Mas hoje em dia temos uma coletividade enorme com o bairro, todo mundo conhece, gosta da gente enquanto punk. A gente não se esconde. O pessoal sabe o que a gente é e nos valoriza por isso, por tudo o que a gente fez e pensa. Antigamente galera ia na Goulai Polé e pedia pra botar um rock pra ouvir.

A convivência em comunidade fez a gente aprender a se respeitar mutuamente, a dividir as coisas. Isso a sociedade não ensina, fica um individualismo total. O lance de algumas pessoas terem caído pro niilismo, individualismo, tem a ver com essa ideia. No final dos anos 90 a sociedade começa a mudar, muita gente apática, com aquela ideia do American Way of Life, e assim alguns reagiram abraçando uma leitura errada do niilismo. Porque os niilistas de verdade iam lá jogar bomba no parlamento, e não encher o saco do outro, falar merda no ouvido de quem está fazendo as coisas. O que surgiu na verdade foi um pessoal que não estava a fim de fazer a militância e começou a querer se dizer niilista, “Ah, eu não acredito em mais nada, quero destruir tudo”. Falavam isso, só que mantinham seus pequenos privilégios, seus privilégios brancos, héteros...

Era fácil pra pessoa não querer dividir nada com ninguém porque já tinha o dela. Muitos com essa postura já tinham a sua vida garantida. Passou uns anos, as pessoas foram fazer suas faculdades, já tinham emprego garantido, outros já iam viajar pra fora, e nós, que éramos os pobres, pretos, da periferia... a gente se fodeu, cara. Tinha que ficar reciclando, reaproveitando as coisas. Isso que hoje é bonito, antes não era assim, não. Faltar coisa na sua casa não é bonito. Você optar por comer ou não alguma coisa pela consciência política é diferente de não ter o que comer. O pessoal vinha pro espaço, depois voltava pra casa da mamãe e lá tinha de tudo. Isso é o sistema nos separando. Algumas pessoas se destruíram com esse tipo de ideia, outras se suicidaram, teve gente que morreu...

Na Comuna Goulai Polé. Foto: Ivan Ribeiro/Arquivo pessoal

Zines & publicações

Ruivo Lopes: Em meados dos anos 90, fazer um fanzine era quase que uma licença para se iniciar na cena punk. Era uma chave de pertencimento a uma cena, movimento, a chance de ter contatos, trocar cartas e informações e conhecer novas pessoas Brasil afora. Muitas vezes, as entradas nas apresentações das bandas custavam um fanzine. Haviam muitos fanzines, mas o produzido pelo Koletivo de Resistência Anarco-Punk ( Iconoclasta) tinha não só muita influência como também era bem feito e escrito, traduzia textos, era impresso em gráfica e contava com muita circulação. Este, por sua vez, era muito influenciado pelo Profane Existence, de Mineapolis, Estados Unidos, do qual alguém sempre tinha um número na mochila.

Loquinho: Naquela época as publicações eram poucas, não tínhamos internet. As que se destacavam eram o informativo do MAP, O Altruísta, Favo de Fel, Ato Punk (que ajudei a editar com o Josimas e o Frander), Sobre-Vivência, Punto de Vista Positivo e Putrid. Por meio desses veículos, conhecemos pessoas de outros estados.

Marcolino Jeremias: No litoral, além do Resistência & Luta, outros informativos importantes foram o da Agência de Notícias Anarquistas (ANA), que teve várias fases entre 1992 e 98 e que, apesar de sua irregularidade, chegou a lançar vários números; o Marret@!, do núcleo de Cubatão da Juventude Libertária, que entre 93 e 94 publicou três números; o Mumia Livre Já!, do Comitê de Apoio e Solidariedade a Mumia Abu-Jamal da Baixada Santista, que entre 96 a 99 editou seis exemplares; e o boletim anarcofeminista Libertárias, que entre 97 e 98 soltou três impressos. Essa publicação era feita pelas militantes da ULBS.

Silvio Shina: O Bigorna, da JuLi, não tinha uma estética muito punk, era mais voltado para o anarquismo, pra política e a crítica social. Porém, circulava mais nos movimentos contraculturas da juventude. Na cena hardcore, houve zines importantes como o Punto de Vista Positivo (não sou modesto mesmo, porém não minto), o Paper Sheets, do Zé Rodolfo e da Ana Curcelli, o Paz Armada, do Ruy Fernando... Eu gostava muito do Libera, do CELIP (Centro de Estudos Libertários Ideal Peres), da revista Ekintza Zuzena e dos Jornais da CNT. O Ato Punk, feito pelo Josimas, também era muito bom. Mas poucas dessas informações circulavam fora da cena. O Punto ainda teve uma repercussão por ter sido usado numas escolas, como no caso do irmão do Alex Pantoja, que levou o zine para dar uma aula sobre zapatismo com base numa matéria sobre o assunto numa das edições.

Maria Helena: O Pandora, do CAF, iniciou essa coisa da discussão de gênero. Ele tinha uma tiragem grande, tanto que chegou a possuir até uma federação. Quem nos ajudou muito com teorias e nos incentivou bastante foi a Ulla Nilsen. Ela é uma americana lá de Minneapolis, fazia cinema na USP. Nós a encontramos no evento do Outros 500, e ela contou que era anarcopunk na cidade dela. Por meio dela é que começamos a ter contato com o pessoal do Profane Existence . Pegamos os vinis que tínhamos de punk nacional, passamos pra ela, aí eles mandara um monte de coisa pra gente. Nisso começamos a conhecer muita novidade, os anarcopunks clássicos mesmo, Rudimentary Peni...

Maria Helena compartilha suas memórias com o repórter. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Bandas e discos clássicos

Diego Divino Duenhas: Cada lugar tem sua realidade e as bandas que mais as representam. Dentro desse recorte vejo a Metropolixo, Execradores, Amor, Protesto y Ódio, Discarga Violenta como as bandas mais impactantes para mim.

Ruivo Lopes: Abuso Sonoro era verdadeiramente impactante.

Loquinho: Algumas bandas atuantes eram Necrorrosion, Vala Negra, Pós-Guerra, Próletas, Karne Krua, NRÜ, Bosta Rala e Besthöven.

Marcolino Jeremias: Na minha opinião algumas das bandas anarcopunks mais impactantes do Brasil foram: Guerrilha Suburbana (Rio de Janeiro), Disunidos (Paraíba), Cuspe (Paraíba), Lixo Urbano (Santa Catarina), Atack Epiléptico (Minas Gerais), Neurastenia (Bahia), Castitate Socyale (São Paulo) e Combate Social (Baixada Santista).

Silvio Shina: O Repulsive também é uma banda que considero muito importante, apesar das figuras mais do que controversas do Nenê Altro e do China.

Josimas Ramos: A primeira banda na qual toquei foi a Execradores, depois veio a Metropolixo, Amor, Protesto y Ódio, Clangor, Descontrol, e finalmente a Tuna, da qual faço parte hoje. A Execradores durou 17 anos. Foi a mais longeva.

Maria Helena: Eu fui vocalista no Ira dos Corvos por mais ou menos uns três anos. Entre outras bandas com uma história no meio anarcopunk nacional estão o Extrema Agonia, de Curitiba, e daqui de São Paulo, das primeiras bandas, o Insurreição.

Loquinho: Algumas gravações essenciais do anarcopunk nacional são as coletâneas Cenas Anarco-Punks e Muito Além do Barulho (Coletivo Altruísta), e os splits entre Metropolixo e Execradores na demo Ideologicamente Perigosos e no 7' EP lançado pela Darbouka Recs.

Marcolino Jeremias: Eu acredito que apesar da coletânea em LP Cenas Anarco-Punks – Volume 1 (95) não ser o primeiro registro da cena no Brasil, e de que nem todas as bandas desse disco são 100% compostas por integrantes anarcopunks, ele pode, sim, ser comparado com o Grito Suburbano, pois deu uma grande visibilidade e fortaleceu o movimento em nível nacional. O Cenas incentivou o lançamento de outras coletâneas em LP, como: Não Somos Tão Violentos Quanto Temem, Nem Tão Pacíficos Quanto Desejam! (96), Sem Estilos para Definir o Nosso Ódio (97), Resistência Anarco-Punk (97), Edge of Painfull Sensation (97), A Opressão Capitalista Não Reconhece Fronteiras, A Solidariedade Internacionalista Tão Pouco! (98) – esta era beneficente para o ACR e para a Campanha pela Libertação de Mumia Abu-Jamal, e Emergência – Enquanto Vidas Secam de Fome e Sede... Chove Dinheiro Nos Bolsos Dos Governantes! (99), coletânea em LP com bandas da região nordeste.

Maria Helena: Em São Paulo rolavam shows no Jardim Donária, numa associação de amigos do bairro. Não tinha um pico específico, era onde se conseguia o espaço. Associações, espaços culturais. Uma coisa muito interessante foram os festivais Dias de Criar, que contou com três edições lá no Tendal da Lapa. Teve um bem legal que tocou o Sin Dios (2003).

Nenê Altro: Os shows na época rolavam no Zona de Refúgio, atrás da FATEC, no Bom Retiro, num lugar ocupado, a Casa do Politécnico. Inclusive o pessoal do Excomungados trabalhava lá. Nessa época, minhas bandas eram o Penitenciária, e depois o DHI, que já flertava com o anarcopunk, no Jardim Cumbica, em Guarulhos. Depois foi o Repulsive, quando eu já estava virando straight edge. Eu tocava de bruxo, o baixista de cozinheiro punk, o baterista com máscara na cara.

Diego Divino Duenhas: O anarcopunk não é feito só de música, mas também de teatro, dança, capoeira, arte circense...

Grupo de teatro Gambiarra & Improviso no Espaço Libertário Dona Tina, 1997, Campinas, São Paulo. Foto: Maria Helena/Arquivo pessoal

Arte, teatro, punkapoeira, poesia

Ruivo Lopes: Como todo mundo que participava do movimento anarcopunk era das periferias, acabava também integrando a cena cultural das periferias, a exemplo das rodas de samba, a capoeira e o hip hop. Isso fazia da cena anarcopunk brasileira única no mundo.

Marcolino Jeremias: Aqui na Baixada Santista, a ULBS organizou, em 96, um grupo de teatro amador chamado Arte Viva & Subversiva, que chegou a apresentar três pequenas performances teatrais, em espaços públicos. Mas além disso, todo coletivo anarcopunk tinha uma comissão de serigrafia que produzia camisetas com desenhos e frases anarquistas, para fazer propaganda do anarquismo e para angariar fundos para as ações do grupo. Essa comissão de serigrafia geralmente também se encarregava de fazer faixas para manifestações e eventos. A comissão de publicações, além de fazer os boletins informativos e zines, se encarregava dos cartazes (para colar nos postes) com vários tipos de propagandas anarquistas. As poesias anarcopunks eram bastante comuns. Recitadas nas gigs, entre um som e outro, ou publicadas nos zines.

Ivan Ribeiro: inventamos, a partir da capoeira, a punkapoeira. Nos anos 90, nas manifestações na Praça Ramos, fazíamos roda de capoeira, punkapoeira nas quebradas, nas periferias, som junto com o pessoal do hip hop, movimentos afro-rap. Hoje na nossa cena tem o pessoal Afropunk, que, valorizando a pertença étnica, fundem a cultura negra com a cultura punk.

Nenê Altro: Quando um cara do Living Theatre, um teatro anarquista de rua gringo, veio pra cá, no começo dos anos 90, mudou completamente a nossa cultura. O MAP começou a fazer peças. Eu escrevi uma peça chamada O Governado [risos]. Aí foi eu, o Batata, o Ivan, interpretar nas ruas. E isso foi totalmente inspirado pelo Living Theatre. Ele que mudou o nosso conceito de arte de rua.

Maria Helena: Morei um bom tempo em Curitiba. Quando voltei, um pessoal e eu montamos um grupo de teatro, o Gambiarra & Improviso. O grupo tinha um zine e nós realizávamos apresentações nas ruas, em espaços... Isso foi em 97-98. A Aline Daca desenhava e começou a fazer quadros, ampliando as formas de expressão dentro da cena. Pelo que eu sei, hoje ela tem uma carreira artística mesmo. O grafite é bem posterior. Quem começou a fazer grafite mesmo foi o pessoal lá da comuna [Goulai Polé], quando foram mexer com letreiro. A partir daí começaram a fazer grafite, pixo político. Lambe-lambe de protesto nós sempre fizemos. Depois da aproximação com a capoeira naturalmente surgiu um diálogo do anarcopunk com o movimento hip hop.

Tanto que alguns anarcopunks agora são rappers. Mas esse é um diálogo que existe não só em São Paulo, mas nos outros estados, já há mais de 20 anos. Lá em Curitiba mesmo nós tínhamos contato com a galera do rap nas ações antifascistas. Nós convidávamos e eles apareciam. Não era por tudo que eles tinham interesse, mas pelas coisas antinazistas, antifascistas, contra os skins, aí eles estavam. Mas questões de gênero, por exemplo, só recentemente que começou a ser mais discutido no rap. Tá tendo um monte de MC mulher agora falando de feminismo. Faz uns meses, fui com umas amigas na Ação Educativa, e teve um evento de rap só com mina. A maioria delas apresentou um discurso bem legal. E tá tendo umas minas de peso, tipo a Luana Hansen. Ela tem amizade com o pessoal lá do [CCS] Vila Dalva.

Continua...

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