Há um limite do choro para líderes?

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Com o apito final do juiz após o palestrou no TEDx sobre choro , defendendo sua importância evolutiva para nossa sociedade.

Quem sabe essa relevância evolutiva esteja conectada a vermos cada vez mais líderes em lágrimas na mídia. Esportistas, empresários e políticos. Em 2016, quando Obama chorou ao falar sobre mortes por armas de fogo em escolas, ao final de seu segundo mandato, foi largamente elogiado pela expressão de autenticidade.

Sua fala se tornou mais lenta e os olhos ficaram vermelhos. Ele fez silêncio, a voz embargada. Abaixou a cabeça brevemente, enquanto respirava. A primeira lágrima escorreu enquanto a fala era retomada. Ele limpou com o dedo mais quatro lágrimas, rapidamente levantando a cabeça e postando o queixo firme.

Em total, estimo uns dez segundos de choro, bastante contido.

"Quanto tempo as pessoas choram por vez?" — homens em azul, mulheres em vermelho. Fonte: pesquisa de Ad Vingerhoets, da Tilburg University

Um excelente debate da Harvard Business Review questiona se os líderes estão emocionais demais.

Parte do consenso entre os especialistas foi que expressar mais de nossas emoções no ambiente de trabalho tende a ser saudável e necessário para se criar um espaço mais humano.

Indo além, o choro dos líderes pode enviar uma mensagem poderosa e afetar a motivação e confiança da equipe.

Mas desde que não seja frequente demais ou desesperado. É justamente a raridade da ocasião que a torna forte, afirmam. Segundo eles, emoções transbordando não parece algo apropriado, exceto em momentos de gigantesca pressão e descarga.

A perspectiva histórica do choro dos homens

O belo livro "Crying: a natural and cultural history of tears", comentado pelo "Art of Manliness", nos mostra como o choro masculino atravessou inúmeras mudanças de acordo com a época e sociedade.

No épico poema "Ilíada", do grego Homero, vemos o heróico rei de Ítaca, Odisseu, chorar várias vezes. Ele derrama lágrimas por seu lar, pelas pessoas amadas e pelos aliados mortos em combate. Entretanto, nunca chora por solidão ou frustração, algo que se acreditava ser desaprovado pelos deuses. Na maioria das vezes, tenta chorar distante dos olhares de seus súditos.

No Velho Testamento, em épicos medievais japoneses e europeus, nos clássicos da era romântica, vemos incontáveis exemplos de choro masculino na literatura e nas artes. Em especial quando se trata de assuntos espirituais, guerra, morte das pessoas amadas e luta por ideais.

Com o Iluminismo, surge um ideal mais racional de masculinidade. A era Vitoriana celebra o choro e as emoções excessivas como virtudes naturalmente femininas e frágeis.

E o começo do século 20 carrega tudo isso ao nos oferecer a noção do homem-sem-lágrimas.

Pouco mais de cem anos depois, em pleno século 21, basta olhar para o lado e fica óbvio o quanto isso já mudou. Em certas ocasiões chega até a ser esperado que homens chorem mais do que mulheres.

O quão duro é nosso julgamento com o choro dos atletas?

Encontrei um interessante estudo sobre a percepção do choro em atletas, conduzido pela Indiana University, publicado no "Psychology of Men & Masculinity" e comentado pela "Psychology Today".

A pesquisa foi feita com 150 homens universitários, jogadores de futebol americano.

Foi entregue um breve texto ficcional a cada um deles, sobre uma situação vivida por um jogador chamado Jack. Esse relato variava de acordo com dois aspectos: vitória ou derrota; e a reação de Jack ser chorar ou chorar soluçando.

De modo geral, os jogadores consideraram o choro ok, independente da vitória ou derrota. Mas boa parte deles considerou "chorar soluçando" além do apropriado.

Os pesquisadores cruzaram as respostas com duas outras variáveis: a percepção de auto-estima dos próprias participantes; e a concordância deles com normas de masculinidade à respeito da necessidade de controle emocional dos homens.

Os jogadores que julgaram de modo mais duro e crítico o choro do atleta ficcional tinham maior tendência a apresentar auto-estima mais baixa e maior concordância com normas tradicionais de masculinidade. Apesar de eles mesmos admitirem que provavelmente chorariam na mesma situação.

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No Twitter, temos campo fértil de pesquisa, observamos as reações mais diversas:

ver Papo de Homem
#homens possíveis
#masculinidades