Como articular um grupo de homens, um guia básico

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"Esse encontro não é apenas dois dias de teorias, dados de pesquisa, práticas emocionais, meditação e roda de conversa, isso aqui é um chamado para vocês plantarem uma semente e levar adiante o movimento de transformação dos homens.

E então, como vão fazer isso acontecer?"

Com essas palavras abri e encerrei o curso de equilíbrio emocional para homens em BH, minha terra natal, final de semana passado. Batemos essa foto ao final, havia por lá pessoas de 20 a 71 anos:

Tenho oferecido essa semente por onde passo. Nas dezenas de empresas nas quais conduzi palestras e workshops nos últimos dois anos, nas escolas, ONGs, casas e instituições por onde passei.

Assim como nas entrevistas e conversas das quais tenho participado, vide o Como os homens se transformam ", minha palestra no TEDx

  • "Como cultivar equilíbrio emocional ", com Alan Wallace (ative as legendas em português no quadrado branco no canto inferior esquerdo)
  • "O que aprendi observando a mente ", com Henrique Lemes
  • Livros:

    Práticas e qualidades favoráveis a cultivar:

    Formações:

    Sem pressa aqui.

    Você mesmo se capacitar como professor/praticante certificado pode potencializar seus movimentos. Eu sou formado no programa "Cultivating Emotional Balance" e conduzo cursos tomando essa metodologia como base, por exemplo.

    Também fiz uma imersão em auto-compaixão com Carol Bertolino (professora certificada do método proposto pela Kristin Neff), sou praticante budista e vou a retiros de prática e silêncio regularmente nos últimos anos.

    Isso abre portas, expande sua rede, te permite conduzir encontros com mais facilidade e pode também te transformar internamente.

    Mas não tenha pressa. Tome seu tempo antes de decidir investir em uma formação e avalie com extremo cuidado o(a) professor(a) e as linhagens a que se associa. Uma boa dica é ver como estão os alunos de longa data do método: progrediram, estagnaram, se perderam?

    Há charlatões pra lá de carismáticos e com um baita sorriso estampado no rosto.

    Sugiro a leitura do texto "Precisamos falar com os homens? " — produzido por nós, em parceria com a ONU Mulheres e um grupo fantástico de parceiros

    Se quiser ir realmente fundo, pega também a trilogia "A história da virilidade".

    3. Montando um calendário de atividades para o grupo

    Vejo grupos morrerem lentamente, pela energia dos caseiros ir caindo, em meio a dúvidas sobre quais atividades fazer e como tornar o grupo interessante, vivo.

    Outra das turmas de nosso curso de equilíbrio emocional pra homens

    Montar um calendário coletivamente, com participação e benção de todos, gera maior comprometimento de todos. De novo, resista à tentação de já chegar com algo feito.

    Um grupo que caminha junto vai mais longe. Deixe seu ego na gaveta.

    Abaixo listo algumas sugestões para auxiliar na estruturação de um calendário.

    Atividades regulares de relaxamento e acolhimento inicial, que recomendo abrirem todos os encontros, pra ajudar as pessoas "a chegar":

    • meditação
    • alongamentos e/ou posturas de Yoga, sempre com orientação pra evitar acidentes

    Demais atividades:

    1. Cine-debates com documentários

    • Precisamos falar com os homens?
    • em português e em inglês (comédia espanhola espetacular, com Ricardo Darín! excelente sugestão para abrir um grupo em tom mais leve)
    • A número um
    • Moonlight
    • Hoje eu quero voltar sozinho

    2. Debates de livros (bom dar um mês para leitura do livro)

    Aqui uma bela lista de livros sobre masculinidades, curada pelo Fabio, que conheci em Brasília, no encontro "Homens em conexão".

    3. Trilhas e demais atividades na natureza

    Contato direto com os elementos cura, abre caminhos. Não subestime a força de mato, cachoeira e roda de papo na fogueira.

    4. Práticas de dança, cirandas, música

    5. Práticas espirituais específicas, conduzidas por professores de confiança

    6. Exposição de tema seguida de diálogo em roda, tendo participante do grupo como anfitrião

    7. Exposição de tema seguida de diálogo em toda, trazendo convidado especial que seja referência no assunto (inclusive, mulheres)

    8. Realizar trabalhos voluntários conjuntamente

    • Construir uma casa pra quem precisa, como a ONG Teto faz
    • Oferecer comida a quem precisa
    • Serem professores para pessoas carentes
    • Procurar uma ONG que precisa de ajuda e oferecer o apoio do grupo para colocara a mão na massa (o aspecto físico da ação é chave aqui, não estamos falando de só fazer uma transferência bancária)

    4. Sustentando a energia do grupo: logística, entusiasmo e colaboração

    Grupos chatos e sem energia morrem, cedo ou tarde. Grupos impositivos ou rígidos demais, também. Fique atento a isso.

    PAI 2017 | Foto: @ismaeldosanjos

    Não tenha medo dos conflitos, eles são inevitáveis. E também uma oportunidade para que o grupo solucione o obstáculo coletivamente e cresça.

    Diante de dificuldades logísticas, peça ajuda. Vá, gradualmente, formando outros caseiros e distribuindo as responsabilidades. Você não está gerenciando uma empresa, o grupo é nutrido por processos colaborativos.

    Abra espaços e permita a outras pessoas experimentar e errar, sem se sentirem julgadas ou humilhadas por isso.

    O entusiasmo (ou falta dele) dos caseiros e anfitriões contagia.

    Leia o artigo "Sustentando um espaço seguro" — original em inglês e aqui uma tradução livre em português. Pregue na parede do quarto, na sua testa, no armário, onde for melhor. Compartilhe com os demais.

    Não sobrecarregue o grupo com diretrizes, informações, regras, proibições e boas práticas. Isso pode sufocar, tornar tudo pesado, lento, burocrático.

    Sinta o fluxo e tenha jogo de cintura, como um bom jardineiro.

    Celebrem! Joguem bola (ou baralho, ou o que o grupo preferir), façam churrascos (com carne ou vegetarianos, ambos valem), vão a festas, façam as suas próprias festas, façam trilhas, cantem, dancem, se permitam também falar besteiras e serem espontâneos.

    Evite um clima de patrulha ou caça às bruxas. O espaço é pra ser se confiança, sigilo e naturalidade.

    É um perigo constante vocês se tornarem um grupinho de homens virtuosos fakes que se acharem superiores e melhores do que os outros! Já fiz e vivi isso, é um buraco do qual se custa a sair.

    Realizem trabalhos voluntários. Usem a energia do grupo pra ajudar a quem precisa.

    Aprenda a acolher quem pensa radicalmente diferente de você. Faça amizade com essa pessoa. E prepare-se para aprender muito sobre empatia, compaixão, troca e o poder de caminharmos lado a lado, respeitando as diferenças.

    A transformação real é um trabalho sujo, longo, árduo. Ela vem de mansinho, quando menos esperamos. A continuidade é chave, bem mais do que finais de semana catárticos. Podemos viver um dia inesquecível e, se deixarmos de praticar, tudo aquilo some, vai embora.

    Siga mantendo o grupo firme em torno das práticas. Treino, treino e mais treino. Não basta aspirar sermos mais lúcidos, generosos, altruístas, é necessário praticar isso.

    Se estiver confuso sobre a que me refiro quando falo de "treino e práticas de transformação", sugiro mergulhar n'olugar, é um espaço de transformação coletiva, do qual sou um dos fundadores. Lá há um repositório imenso das mais valiosas práticas, estruturadas por professores de diferentes abordagens e tradições.

    Grupos morrem, se transformam, se dividem. Ressuscitam depois ou nunca mais. E tudo bem, isso não significa falha. Respeite, honre e aprenda com esses ciclos.

    Confie, tenha paciência e fé. Abrace a jornada, ela é pra toda uma vida.

    Última dúvida: achei tudo incrível. Mas me sinto sobrecarregado com tanta informação e não tenho ideia de como dar o primeiro passo...

    Convide uns cinco amigos pra assistirem "The mask we live in" na sua casa, é o documentário sobre como os meninos estão sendo criados, tem no Netflix.

    Ofereça um lanche, bebidas geladas e conversem sobre o que acharam do filme e como ele se conecta às experiências de cada um.

    Depois disso volte nesse artigo e toque o barco adiante.

    * * *

    Celebração ao final do Homens Possíveis 2017 | Foto: @ismaeldosanjos

    Seguimos juntos!

    Que esse artigo sirva como semente e chama para o movimento de transformação dos homens ganhar ainda mais vida.

    Vou adorar escutar os comentários e sugestões de vocês para tornarmos esse guia ainda melhor. Escrevi em uma sentada e, de antemão, peço desculpas por eventuais deslizes.

    Por fim, se deseja conversar comigo para levar uma palestra, workshop ou curso para sua instituição; ou plantar uma semente desse movimento em sua cidade, envie um email em guilherme@papodehomem.com.br .

    Um forte abraço a todos e todas.

    ver Papo de Homem
    #homens possíveis
    #masculinidades