Socialistas adoraram este jogo de tabuleiro antissocialista

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O objetivo de Socialismo: O Jogo é convencer as pessoas de que o socialismo nunca poderia funcionar. Ele foi concebido em março de 2016 por um trio de amigos conservadores e libertários que queriam responder à ascensão de Bernie Sanders abordando a ideia de redistribuição de renda. O que começou como uma brincadeira num grupo de WhatsApp se tornou uma piada incrivelmente elaborada, já que os entusiastas de jogos de tabuleiros queriam fazer seu jogo, um pacote de expansão para o Monopoly, robusto e divertido de jogar, não só uma zoeira monocórdica.

“Um dos primeiros a testar foi meu filho. Ele e eu adoramos Monopoly”, me disse John Elliot, um dos criadores do jogo, por telefone. “O potencial de não falir, mas também o potencial diminuído de lucro mudou dramaticamente a atitude dele sobre investimentos... Ele parava e dizia: 'Não vou investir porque podem estatizar isso, e vou perder minha propriedade, e vou ter que pagar mais impostos', e ele pensou nisso sozinho. Então foi realmente fascinante ver alguém que geralmente é um jogador muito agressivo de Monopoly mudar seu estilo de jogo porque não tinha motivação para investir.”

O produto final veio em maio de 2016 e incluía novas peças de Monopoly como uma canoa, um ônibus e um smartphone; cartas de Fat Chance e de Baú Comunista substituindo as cartas do tipo capitalista; e, mais importante, um livro de regras revisado cheio de golpes humorísticos contra os defensores de um governo socialista.

O esquerdista em mim quer apontar que muitas das referências do jogo a gulags e maioísmo tecnicamente são exemplos de comunismo, não socialismo. Mas tenho que admitir que com piadas sobre o Monopoly original ter “dinheiro impresso suficiente para fazer o governo federal corar”, esses caras realmente elevaram a comédia de direita. E para verificar a afirmação deles de que todo mundo pode se divertir e rir com o jogo, decidi testar convidando socialistas de verdade para jogar.

Com as cartas e peças socialistas posicionadas sobre meu tabuleiro baunilha de Monopoly, vesti minha melhor camiseta do Obama como Mao e recebi Max Belasco, Arielle Sallai, Rachel Reyes e Kelsey Goldberg – quatro líderes do ramo de Los Angeles dos Socialistas Democráticos da América – na minha casa numa tarde de sábado.

Logo que viram o jogo, os jovens esquerdistas riram. “Há! A Hillary... socialista? Hilário”, disse Max.

Mergulhamos no livro de regras, lendo tudo duas vezes antes de nos sentirmos confiantes o suficiente para começar a jogar. (Socialistas adoram regras.) Apesar de todo mundo começar com $1.500, o objetivo do jogo era “alcançar a justiça e igualdade total por meio de aluguel e venda de propriedades sob uma política pública moderna, progressista e populista”, significando que o jogo só acaba quando ninguém falir e todo mundo tiver menos de $300. Agindo como o Diretório Federal de Redistribuição (DFR), a versão socialista do Banco, eu iria recolher impostos, fazer leilões, multar jogadores por microagressões como tirar dois números duplos no dado três vezes seguidas e – a regra mais louca do jogo – dar notas de $100 sempre que um jogador não tivesse fundos suficientes para pagar impostos ou taxas. Em outras palavras: eu era o estado de bem-estar babá.

Cartas de 'Socialismo: O Jogo'. Foto pelo autor.

Como os jogadores adquiriam propriedades só para que eu, como DFR, as capturasse de volta por meio das cartas de Fat Chance, a lição do jogo logo ficou clara. Ainda assim, enquanto cada um tinha sua vez de ser preso na “reabilitação” e pagar seu quinhão de impostos, os jogadores proletariados continuaram alegres.

“Gosto de algumas dessas regras”, disse Rachel enquanto passava pelo início, coletava $200 e tinha que devolver imediatamente $100 em impostos. “Quero ver essas regras no mundo real”, disse Arielle, depois que uma carta do Baú Comunista colocou peças de conjuntos habitacionais em todas as propriedades do estado. Uma pequena comemoração veio do grupo quando uma carta estatizou todos os serviços no tabuleiro.

Mas nem todas as piadas com socialismo do jogo renderam a mesma reação. Depois que um jogador foi penalizado em $100 por uma “queda de energia num dia nublado e sem vento”, alguns reclamaram da insinuação confusa da carta. “Nem faz sentido”, bufou Kelsey. “Ser contra energia limpa é coisa de libertário agora?”

Max teve problema similar com uma carta que o obrigava a pagar $200 pela “cirurgia bariátrica do vizinho”, cortesia de uma expansão Obamacare. “Em que mundo socialista estaríamos usando o Obamacare?”, ele perguntou. “Isso é um equívoco fundamental de como um sistema de saúde universal funciona.”

Colocando essas irritações ocasionais de lado, os socialistas pareciam estar se divertindo e até comemoravam meu azar nos dados me mandando para visitas repetidas ao centro de reabilitação. “Estamos punindo sua corrupção e te mantendo honesto”, disse Rachel.

Horas depois, enquanto chegávamos ao fim do jogo e os jogadores cada vez mais falidos começavam a procurar um jeito de usar suas propriedades restantes, outra novidade do livro de regras socialistas emergiu na forma do Comitê Popular de Comércio e Igualdade (CPCI), um órgão do governo que supervisionava as requisições de permissão, compras e vendas de propriedade. Como consenso unânime era exigido para aprovar cada transação, resistências e subornos se tornaram lugar-comum. Mas como a rede de segurança social de $100 estava sempre a mão, esses momentos de sabotagem de votação pareciam mais amigos se provocando do que estratégia de jogo legítima.

Como as instruções alertavam, essa ajuda do governo era uma faca de dois gumes e evitava que o jogo acabasse tão rápido quanto todo mundo gostaria. Ficamos circulando o ralo por um tempo, todo mundo preso num ciclo perpétuo de ajuda e impostos enquanto esperávamos Rachel, a única jogadora com mais de $300 e um monte de propriedades, ser cortada pelas regras implacáveis do jogo.

Os jogadores saqueando as riquezas redistribuídas da Rachel. Foto pelo autor.

Só quando uma improvável jogada de dados dando números duplos desencadeou um “levante utópico espontâneo”, que “aposentou” a Rachel do jogo e redistribuiu sua riqueza no meio do tabuleiro, o jogo finalmente acabou. Aqueles que sobreviveram à revolução conseguiram igualdade em sua dependência compartilhada do estado.

“Se não há vencedores, não há perdedores”, dizia o livro de regras. Mas enquanto os socialistas se preparavam para ir embora, eles deixaram claro que meio que sentiram que todo mundo tinha ganhado.

“Foi a partida de Monopoly menos estressante que já joguei”, disse Max. “Não ter que se preocupar com a ameaça dos outros tornou muito mais fácil só curtir o jogo mesmo.”

Quando falei de novo com os criadores de Socialismo para dizer que socialistas de verdade tinham realmente gostado do jogo, eles pareceram felizes. “Acho que os políticos norte-americanos se beneficiariam muito de só ri um pouco e se divertir”, disse Elliot. “As pessoas levam as coisas muito a sério. E foi muito divertido fazer esse jogo, com muitos amigos de todo o espectro político envolvidos no processo.”

Mas os arquicapitalistas que criaram o jogo não desenvolveram nenhuma simpatia pela ideologia que satirizaram. Quando perguntei a Adam Williams, outro dos criadores, se talvez, só talvez, ele tinha acabado com um pequeno carinho pela ideia de um grande governo socialista durante a criação do jogo, ele foi rápido em me contrariar.

“Se você está perguntando se acho que tem algum aspecto bom num grande governo socialista, a resposta é absolutamente não”, disse Williams. “Fique fora da minha vida. Não vejo nenhuma qualidade salvadora em qualquer coisa que colocamos nesse jogo.”

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