O nascimento do bregafunk é a história de sobrevivência dos MCs do Recife

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Em janeiro deste ano, Paloma Roberta Santos, uma jovem de 15 anos do Recife, pisou, pela primeira vez na vida, em um estúdio. Nada muito pomposo. Não havia isolamento acústico e a voz precisava ser captada de dentro de um guarda-roupa para evitar os barulhos da rua. Dono do estúdio caseiro, o produtor musical DG se comoveu com o sonho da menina, que queria ser MC mas não podia bancar os R$ 250 cobrados pela gravação de uma música. Decidiu ajudá-la. Gravou e arranjou uma música sem cobrar nada. Sentado em seu estúdio, agora reformado, com revestimento acústico e melhor equipado, DG me conta que naquele dia, em certo tom de brincadeira, pediu a iniciante MC que não deixasse de lado sua raíz pernambucana: “Se tu estourar com essa música aí, não esquece de dizer lá fora que é bregafunk, não! Aí o pessoal vai querer gravar no nosso estilo, que só a gente daqui sabe fazer”.

Paloma deixou o estúdio de DG com “Envolvimento”, que dias depois tomou o Brasil, tornando-se o hit do Carnaval e a transformando-a em Pank Brega ; e vale lembrar que nesta época a banda Calypso fixou residência na capital pernambucana devido à posição estratégica da cidade no centro do Nordeste).

É consenso entre os músicos do movimento bregafunk que Leozinho foi o primeiro MC a quebrar a barreira e penetrar o mercado brega, entre 2008 ou 2009 — nem o próprio cantor sabe dizer o ano ao certo. “Eu tinha que gravar um brega pra poder fazer os shows. Aí gravei ‘Dois Corações’, com o DJ Serginho. Até então era o brega mesmo, lento e romântico. A música estourou porque era a novidade de ter um MC cantando brega”, explica ele.

O sucesso de “Dois Corações” ditou tendência: a partir daí todos os MCs do funk, que previam o fim inevitável dos bailes de corredor, enxergaram na estética “maloqueiro apaixonado” ou “cafuçu-sentimental” uma possibilidade de se manter na ativa e atingir um público mais amplo. Sheldon , Troia até fez dupla com a cantora Anny Love, aproximando-se ainda mais da formação das bandas. Só que Leozinho e Serginho aproveitaram o embalo para propor uma nova levada. Em vez de tentar imitar a sonoridade das bandas românticas, os dois deram uma nova cara tanto ao funk quanto ao brega na música “DNA”. “Foi quando a gente começou a fazer o beat. Já tinha uma batida do bregafunk. Até então nóis não tinha dado o nome, mas já tinha essa batida”, afirma Leozinho.

Devido à falta de registros, fica difícil atestar se “DNA” é de fato a música pioneira ou fundadora do bregafunk. De todo modo, o importante é que a investida de Leozinho no brega abriu um trilha que motivou outros MCs descontentes com a falta de perspectiva do funk. “O brega foi o que tirou a gente de todo tipo de má influência, botou a gente no topo, onde a gente precisava ficar”, reconhece Shevchenko, que veio formar uma dupla de bregafunk com Elloco.

Sob influência de Leozinho, o MC Cego formou uma dupla com o MC Metal, também visando o brega como uma forma de transformar o hobby de cantar em profissão e tirar uma grana. Metal tinha um programa de brega na rádio comunitária Impacto, no Morro da Conceição, e foi o responsável por descolar o contato de Kleber Love, músico e empresário da Banda Lapada, então um sucesso na cidade. Esse contato facilitou a vida da dupla, que passou a fazer participações nos shows da banda e pouco depois teve a sorte de contar com o valioso feat da vocalista Mary Campbell, a Fernando Mendes , que a gente gostava. E aí a gente até pensou: ‘imagina estar lá no palco um dia! Quando a gente viu aquela estrutura [da gravação do DVD] que montamos com os nossos parceiros, entramos e vimos a galera cantando, a gente viu que uma música mudou a nossa vida, do que a gente cantava pro que a gente canta hoje. Mulheres, crianças, todo mundo enaltecendo você, botando você pra cima. Foi uma sensação muito boa pra quem cantava baile funk de galera pra cantar um show, levar e ser porta voz”, conclui.

Esta é a primeira parte de uma série de três reportagens da VICE sobre o movimento bregafunk de Recife. Na próxima matéria, vamos contar como o ritmo se consolidou e expandiu pelo Nordeste.

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