O que podemos aprender sobre rejeição com o BBB

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Enquanto o Brasilzão já entrava na depressão pós-Carnaval, a noite da última terça-feira (15) teve como assunto avassalador nas redes sociais a eliminação da estudante de jornalismo Ana Paula no Big Brother Brasil, condecorada com 89,95%, recorde de rejeição num paredão triplo durante os longínquos 17 anos do programa.

Dos 22 milhões de votos totais, cerca de 19 milhões foram para limar a catarinense de 23 anos, reluzindo como o público está cada vez mais sedento para julgar as atitudes dos participantes do reality show mais popular da televisão brasileira.

Em meio a esse turbilhão de emoções de good e bad vibes da superfície cibernética, desenrolamos a discussão junto aos especialistas em sociologia, psicologia e comportamento para compreender quais são os possíveis desdobramentos de sobrevivência em meio aos ataques e rejeição nas redes sociais e elucidar por que o brasileiro decide quem é amado ou não.

Partindo do princípio que "quando se trata de mulheres principalmente, há todo um estereótipo, uma identificação do imaginário social em relação ao comportamento feminino", aponta Gianne Reis, socióloga pela UFRJ e Mestre em Ciência Política pela UFF e Doutora em Ciência Política da IESP-UERJ. "Isso já é colocado a frente, no caso, da imagem da pessoa. Então, parece que todas as visões, acabam sendo mediadas por esse espelho social".

"O Bolsonaro é seguido por quem gosta ou não gosta, o Lula é seguido por quem gosta ou não gosta, Jean Wyllys, Alckmin, todos esses grandes players" - Thiago Valadares, especialista em comportamento digital.

Gianne argumenta que “qualquer tipo de exposição trata primeiramente da identidade da pessoa” e que o lance ideal é mediar essa imagem publicizada diante a reação do público. “Essa superexposição e uma rejeição pode trazer riscos para a saúde mental, tanto é, que é possível observar que muitas pessoas acabam sucumbindo de certas formas, através das drogas”, conta a socióloga, ao lembrar também que o ostracismo social está na sociedade e que “somos seres gregários” e por isso, essa problemática interfere, de forma muito negativa, no sentido de como “a pessoa se vê e se coloca diante a sociedade”.

Thiago Valadares, Relações Públicas e empreendedor digital especialista em comportamento digital, salienta que no ambiente virtual, principalmente nas redes sociais, quem dita as regras do moralismo é o tribunal da internet. "Esses juízes digitais são as pessoas que muitas vezes têm um postura no mundo digital e têm outra no mundo real", enfatiza. Esses tais juízes são os fomentadores da discórdia ou da união e que estão sempre online fiscalizando, gritando, cornetando e segundo o RP, existe um lado positivo nesse barulho: "Você sempre vai pensar duas vezes antes de fazer um comentário, antes de expressar a sua opinião. Tem coisa que é melhor a gente guardar pra gente com respeito ao próximo, porém, estamos criando uma sociedade fake".

O especialista descomplica o assunto comparando o nosso comportamento digital em relação ao entretenimento com a mesma atitude como lidamos com política. "O Bolsonaro é seguido por quem gosta ou não gosta, o Lula é seguido por quem gosta ou não gosta, Jean Wyllys, Alckmin, todos esses grandes players. Então, a facilidade que ela tem de virar um grande player, tendo em vista a rejeição que ela teve, é muito alta. É mais fácil ela ser lembrada do que alguém que passou em branco e que talvez tenha uma aceitação alta".

"O Big Brother funciona como válvula de escape daquilo que a gente gostaria de fazer na nossa vida cotidiana e não faz" - psicóloga Salma Cortez.

Questionado se este caso aponta como linchamento virtual, Thiago afirma que sim e salienta que "esse linchamento, dependendo de como acontece, passa para a vida real da pessoa. Na escola, no trabalho, nos ambientes que a pessoa frequente e geralmente, ele vem de algo fake. Um monte de gente sofre bullying por fake news. Isso é muito sério".

No caso de Ana Paula, a participante entrou nos trendings topics assim que saiu o anúncio de sua participação no programa, no dia 18 de janeiro. Não deu outra e sua vida virtual começou a ser vasculhada. Thiago aponta que este caso se tornou bullying desde o começo. "Se você é um hater, você é praticante de bullying", conclui.

Para a psicóloga Salma Cortez, toda essa exposição pode afetar diretamente a autoestima e autoconfiança. "Se a pessoa generalizar esse tipo de sensação ao invés de entender que isso pode ser um momento na vida dela com começo e fim, ela vai integrar a rejeição como parte da autoestima dela. Ou seja, as próximas atividades e projetos nas quais ela se envolver, a probabilidade de fracasso tende a aumentar porque ela está jogando o jogo do ponto de vista que ela vai perder, que ela vai se rejeitar", explana.

"O Big Brother funciona como válvula de escape daquilo que a gente gostaria de fazer na nossa vida cotidiana e não faz", conta Salma, onde explica que todo esse alarde é reflexo do momento de crise em que o brasileiro se situa e fica fácil dar pitacos e rejeitar as atitudes alheias. "Tudo o que é feito em massa, é sempre muito forte. A opinião de massa, onde você tem o anonimato, funciona como válvula pra isso", ressalta.

Como virar o jogo?

Daqui em diante, Ana Paula vai ter que redefinir as novas configurações sobre a sua reputação perante ao público. A estrategista de personal branding, Juliana Saldanha aconselha que a ex-BBB vai ter que tomar as rédeas da gestão de sua imagem nas redes, se vai ser ela ou algum tipo de assessoria. Em seguida, "o primeiro ponto é acalmar os ânimos, principalmente para poder absorver e entender tudo o que aconteceu e porque estão vindo as críticas e de onde elas vêm. Em segundo, ter esse tempo para absorver e entender essa situação para que ela não haja de forma emocional", sugere Saldanha.

"Ouvir o feedback que as outras pessoas têm a dar com o coração aberto sem julgar certo ou errado de antemão, já ajudaria bastante e refletir a respeito" - psicóloga Salma Cortez.

Thiago, que além de lidar com o posicionamento de várias artistas no ambiente digital, declara que o BBB é um dos seus programas favoritos e anseia que Ana Paula saiba driblar a situação. "Ela pode aproveitar essa rejeição alta. Na internet você segue dois tipos de pessoas: as que você gosta e as que você não gosta", relembra Thiago.

Encarar a situação é chave da superação, orienta a psicóloga Salma. "A partir do momento que assumimos que o problema é nosso, a gente já assume que a solução é nossa. Enquanto ainda estiver terceirizando o problema, dizendo que o problema está no outro, a solução também estará no outro e assim, [a pessoa irá] fragilizar-se ainda mais com o processo. A capacidade criativa de solução de problema diminui. Salma finaliza dizendo que é preciso "ser o mais verdadeiro possível. Ouvir o feedback que as outras pessoas têm a dar com o coração aberto sem julgar certo ou errado de antemão, já ajudaria bastante e refletir a respeito".

Então fica como lição de casa: sofreu ataques, se sentiu rejeitado e acha que sua vida virtual tá de mal a pior? Calma, respire fundo. Reflita se isso não são só haters recalcados ou se vale reavaliar o comportamento nas redes. Se for o caso, lembre que buscar ajuda de profissionais de saúde mental não é vergonha pra ninguém.

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