O Arena Sound System transformou Salvador na capital mundial do grave

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"O Ministereo são as caixas de som e não as pessoas que estão atrás delas, porque a cultura sobrevive assim". Essa declaração do cantor Russo Passapusso define bem o sentimento que motivou a realização do Arena Sound System, encontro de fortes nomes da música jamaicana de diversas partes do Brasil e do mundo que aconteceu em Salvador no último dia 27. O festival foi uma overdose de pedradas cheias de graves que ecoaram pela Arena Fonte Nova durante mais de dez horas de revezamento entre três sistemas de som, dos quais poucos se atreviam a aproximar muito seus tímpanos. Os anfitriões da festa eram a equipe do Ministereo Público, sistema de som que há mais de uma década cumpre papel fundamental no fortalecimento e difusão da cultura soundsystem na Bahia.

Depois de inúmeras temporadas da festa Quintas Dancehall e vários mutirões levando música reggae e grafite a comunidades de Salvador e interior da Bahia, os caras renovaram (e turbinaram) suas caixas de som e agora chegam ainda mais pesado na propagação dos graves. "A gente deu uma pausa nas Quintas Dancehall e estávamos no processo de mudança do nosso sistema de som, daí nossa produtora veio com a ideia desse festival na Arena e está sendo muito gratificante receber essa grade de artistas em nossa cidade", afirmou DJ Raiz, um dos seletores da banca, em conversa com a VICE.

Do Rio de Janeiro, os caras trouxeram a equipe do Digital Dubs com seu paredão de som e microfones empunhados por nomes como Cedric Myton (The Congos), Black Alien e Bnegão, que também se apresentou com seu projeto em formato de trio. Jeff Boto trouxe um set baseado em produções que tem assinado em suas inúmeras parcerias e os mineiros do Deskareggae Sound System chamaram o MC Junior Dread pra reforçar o time. O coletivo paulista Feminine Hi-FI tem chamado atenção pelo alto nível de apresentações e levou para o Arena três seletoras, uma MC e um set certeiro, que lotou e movimentou bastante a beira do palco. O extenso line-up ainda contou com atrações como os ingleses Prince Fatty e Horseman que chegaram junto com Monkey Jhayam e a energia irreverente dos caras do Roça Sound com seu ragga de sotaque interiorano e a performance de Ed Murphy, seguramente o dançarino mais original do reggae brasileiro.

Essa ligação musical entre Bahia e Jamaica data dos anos 70, com a mistura que originou o samba-reggae. O ritmo é indiscutivelmente um dos mais fortes pilares da música baiana, sobrevivendo inclusive à voracidade da indústria da axé music e tendo conquistado maior alcance através de nomes como Olodum e Margareth Menezes. Além disso, nas festas de largo são os paredões de som das barracas de bebidas (sempre tem a "barraca do reggae") ou dos carros que ditam o ritmo das multidões. Russo Passapusso acrescenta que "dentro da Bahia isso vem até do próprio trio elétrico, da experimentação, da inquietação do povo, de não aguentar mais com a indústria do axé que tanto explodiu no Brasil e no final das contas acabou engessando todo um processo pela cultura de massa e a gente tá aqui como soundsystem justamente pra tentar, com nossos pontos de acupuntura cultural, desmembrar isso."

Com a responsa de serem os anfitriões, o Ministereo se juntou a Lívia Nery, Russo Passapusso e o monstro da música baiana, Lazzo Matumbi, encontro que foi responsável por alguns dos momentos mais bonitos do festival. "Normalmente o que a gente tem mais forte aqui nos festivais é a coisa das grandes estrelas em cima do palco e o soundsystem é muito bacana porque a grande estrela é o som. Lazzo, Russo, seja quem for... é só alguém que tá nessa passagem. Eu vi Russo várias vezes cantando atrás da grade, tá tudo próximo, artista e público. A preocupação não é em aparecer, é em fazer a sonoridade chegar bem no ouvido das pessoas e quando você vê o cara tá cantando ali do seu lado. A gente precisa dessa interação, principalmente nesse momento que a gente tá vivendo no país, a gente tem que se encontrar, dialogar e construir", sentenciou o mestre Lazzo.

Confira com as fotos um pouco mais de como foi esse rolé na capital baiana.

Dreads de diversas cores e idades se fizeram presentes no rolé. Foto: Fernando Gomes/VICE
O grupo Roça Sound veio do interior baiano com o dançarino mais Original Bahia Style possível. Foto: Fernando Gomes/VICE
Bob dando um confere na pista. Foto: Fernando Gomes/VICE
Raiz e Pureza, seletores do Ministereo Público, em ação na pesquisa das pedradas. Foto: Fernando Gomes/VICE
Ícone das ruas de Salvador e dos rolés do Ministereo Público, Lázaro marcou presença no festival. Foto: Fernando Gomes/VICE
Digital Dubs. Foto: Fernando Gomes/VICE
Dono de uma voz que parece vir de outras dimensões, a participação do cantor do The Congos no evento deixou o lugar com atmosfera de uma celebração espiritual rastafariana. Foto: Fernando Gomes/VICE
O britânico Prince Fatty era uma das principais atrações do line-up e ele é engenheiro de som, o que diz muito sobre a valorização de quem comanda o som na cultura soundsystem. Foto: Fernando Gomes/VICE
Bnegão de quebrada conferindo o set de Prince. Foto: Fernando Gomes/VICE
Feminine Hi-Fi. Foto: Fernando Gomes/VICE
Três selectas e Laylah Arruda no mic comandando o que foi um dos melhores momentos da noite. Foto: Fernando Gomes/VICE
De BH, Deskareggae Soundsystem com Junior Dread como mestre de cerimônias e Lázaro aprovando tudo. Foto: Fernando Gomes/VICE
Russo Passapusso foi um dos fundadores do Ministereo Público e ainda hoje mantém a fértil parceria. Foto: Fernando Gomes/VICE
A participação de Lazzo e seus clássicos provocou momentos de êxtase em cima e ao redor do palco. Foto: Fernando Gomes/VICE
Público na emoção com Lazzo. Foto: Fernando Gomes/VICE
Digital Dubs. Foto: Fernando Gomes/VICE
Também do Rio de Janeiro veio Bnegão, mas esse já tem um pé na Bahia, principalmente nas festas do Ministereo. Foto: Fernando Gomes/VICE
Mista Black com seu sangue de free reforçado pelos muitos decibéis do Digital Dubs. Foto: Fernando Gomes/VICE
ver Vice Brasil
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