Conheça Guerrinha, o homem que vive de vender revistas Playboy

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Um dia a casa de Hugh Hefner, nos arredores de Los Angeles, nos EUA, foi símbolo de ostentação e hedonismo. Assim como o título que ajudou a fundar. A mansão da Playboy, porém, nada tem a ver com a banca de Estênio Guerra, 59 anos. A não ser pelo fato de que, encravada no estacionamento de uma loja de material para construção na zona sul de São Paulo, já passou por ali uma quantidade absurda de coelhinhas — só que de papel. O estoque de Guerrinha contém cerca de oito mil exemplares da revista de Hefner.

A ostentação característica do fundador de Playboy simbolizada pelo roupão bordô, quepe de marinheiro e o cachimbo , foi substituída pela simpatia de Guerrinha, um senhor baixinho que vestia camisa azul, calça jeans, sapatos pretos bem engraxados e meias de algodão brancas. É ele que, há quase 50 anos, compra, vende e até aluga edições antigas da versão brasileira da revista.

Aos 11 anos, Guerrinha morava em Quixadá, sua cidade natal no sertão cearense, quando começou a ganhar seus primeiros trocados ao buscar pão e leite para um norte-americano que lutou durante a Segunda Guerra Mundial e mais tarde veio morar no Brasil. O ano era 1969. Ao mesmo tempo em que se falava em liberdade sexual, o Brasil vivia a Ditadura Militar. As poucas revistas masculinas que eram publicadas no país – Fairplay e Ele Ela – sofriam com a censura.

O menino Guerrinha, por sua vez, reparou que na casa do gringo ex-combatente havia revistas de mulher pelada. Foi então que propôs uma nova forma de pagamento para o seu serviço. “Não quero dinheiro. Quero receber em ‘revista’”, conta ele à VICE. Por ainda ser uma criança, demorou para convencer o imigrante, que, após um acordo, passou a pagá-lo com edições da Playboy norte-americana. Guerrinha prometeu que só veria a revista quando completasse 18 anos. Não só descumpriu o trato como deu início à sua coleção.

A Playboy só teve uma edição nacional a partir de agosto de 1975, então publicada pela Editora Abril. Nessa época, Guerrinha passou a comprar o novo título. A edição brasileira, porém, teve que mudar de nome devido à censura. O título se chamava Homem e a Playboy oficial só foi liberada por aqui em 1978.

Foto: Felipe Larozza/VICE.

Guerrinha, no começo dos anos 1970, trocou Quixadá pelo Rio de Janeiro para morar com o irmão mais velho, que servia a Marinha. Sua fonte de renda também passou por mudança: trocou a entrega de pães e leite pelo aluguel de Playboy entre os colegas na escola. O dinheiro no bolso cresceu na mesma medida que sua coleção. O suficiente para formar um estoque e começar a vender edições repetidas. Ele, inclusive, lembra quando foi convidado para participar do programa de Sílvio Santos e questionado pelo apresentador.
- Mas como você tem uma coleção e vende?
- Eu vendo porque tenho 60 exemplares de cada edição.

Foto: Felipe Larozza/VICE.

Hoje Guerrinha tem dois estoques de revista à disposição. Ele conta possuir exemplares de todas as edições já publicadas no Brasil — cada uma com mais de uma edição. “Olha só quanta relíquia”, apontou orgulhoso.

Ele me disse também ser capaz de levar poucos segundos para encontrar qualquer edição que lhe for pedida. A sua preferida? Sílvia Bandeira, que estampou a capa da revista em abril de 1983, apareceu em suas mãos.

O proprietário da banca, no entanto, não responde quanto vende. “O suficiente para viver: comprar arroz, feijão, jiló, quiabo e pagar a luz”, diz. Xuxa e Sônia Braga, diz Guerrinha, são as estrelas mais procuradas — e as revistas mais caras. Segundo ele, um colecionador arrematou a capa com a Rainha dos Baixinhos por R$ 12 mil – sua maior venda. A lei da oferta e procura é o que determinar o preço de cada revista. As mais antigas, conta, custam em média R$ 120. Depois de muita insistência, ele me revelou que vende 50 revistas por mês, em média.

Fotos: Felipe Larozza/VICE.

Mesmo que a internet tenha transformado o mercado da pornografia, Guerrinha ainda acredita na validade do papel. “Ver na internet, é uma coisa; ver na mão, é outra”, diz sobre a revista ainda despertar interesse. Fabrício, 31, tem uma coleção com mais de 300 edições da Playboy. “Hoje em dia se encontra tudo na internet, porém não é a mesma coisa que folear a revista”, contou o comprador que coleciona Playboy desde os 14.

A crise do impresso poderia sugerir uma ameaça à banca de Guerrinha. Gente de todo o país, no entanto, passou a procurá-lo. “Gente de Urubici (SC), Passo Fundo (RS) e Ouro Fino (MG) ”, conta. O dono da banca, inclusive, diz que pretende expandir o negócio com ajuda da internet. Em breve, vai lançar uma nova página oficial e uma conta na Estante Virtual.

Guerrinha vê o o fim da nudez na revista Playboy com otimismo. Para ele é mais uma oportunidade de aumentar as vendas. Sobre a morte de Hugh Hefner, no final de setembro, confessou admiração pelo fundador da revista e, assim como ele, espera passar dos 90 anos – ainda cercado de mulheres. No seu caso, além da esposa e das três filhas, suas coelhinhas de papel.

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