Conversamos com a família que trocou todos os bens por bitcoins

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Esssa matéria foi publicada originalmente no Motherboard Alemanha.

Didi Taihutto vendeu sua casa na Holanda, todos seus móveis, três carros e uma moto. Ele só guardou aquilo que realmente importava para ele: seus álbuns de fotos, algumas lembrancinhas e seu laptop. Hoje ele, sua mulher e seus três filhos vivem em um chalé num camping próximo à fronteira com a Alemanha.

Os Taihuttos trocaram grande parte de seus bens por bitcoins. Taihutto, 39, acredita que nos próximos três anos a especulação do Bitcoin irá triplicar o patrimônio de sua família. Mas o dinheiro não é a única preocupação do casal: Taihutto e sua mulher abandonaram tudo aquilo que os afasta da vida que eles querem ter.

Taihutto planeja garantir o sustento de sua família com seu trabalho de day trader — em outras palavras, um especulador que investe em criptomoedas com a expectativa de retorno de curto prazo. Conversamos com ele sobre seu trabalho e os desafios de deixar tudo para trás com três filhas para criar.

MOTHERBOARD: O inverno está chegando. Onde vocês estão morando no momento?
Didi Taihutto: Em um chalé num camping. Ele é pequeno e muito gelado. Somos cinco pessoas espremidas em 50 metros quadrados. Acabei de perceber que são 10 metros quadrados por pessoa. [ Risos]

Sites de notícia do mundo inteiro estão escrevendo sobre vocês. Como tudo começou?
Tudo começou quando o jornal local escreveu sobre a gente. Depois disso as coisas saíram do controle. Até a Business Insider publicou uma matéria sobre a gente. Desde então, recebemos ligações de jornalistas todos os dias.

Por quanto tempo vocês refletiram antes de tomar essa decisão tão drástica?
Por pouquíssimo tempo, na verdade. As coisas foram acontecendo. A gente tinha acabado de fazer uma viagem bem longa. E em julho — a gente tinha acabado de chegar de Bali — decidimos: vamos mudar nossas vidas! Aí voltamos para a Holanda, vendemos a casa e mudamos de vida.

Sério? Eu jurava que você ia dizer que sonhava com isso há anos.
É claro que eu já vinha pensando nisso há um tempo, mas só fizemos essa decisão quatro meses atrás. A gente queria viver sem medo. Acredito que o medo mata nossos sonhos. Para ser feliz de verdade, é preciso ter a coragem de se libertar daquilo que nos prende.

Didi vendendo sua moto. Quem pagasse em bitcoins ganhava um desconto.

Se libertar das coisas — como você fez com sua casa, seus carros, sua moto...
...com a cafeteira quebrada que me custou 800 euros. Todas aquelas coisas que exigem um tempo que poderia ser gasto em outras áreas. Eu não queria mais viver dessa forma materialista. Eu queria ficar mais próximo da minha família. E eu não sinto falta de nada. Minhas filhas concordam: quando vendemos os brinquedos delas e elas viram a felicidade das outras crianças, elas também ficaram felizes. Bens materiais não trazem felicidade — eles são apenas distrações.

Você chegou a vender sua empresa, que era muito bem sucedida.
Nossa maior paixão é viajar e conhecer novas pessoas. Mas em certo momento eu abri meu próprio negócio, que começou comigo e um computador no meu porão. Eu dava consultorias de computação, era bem divertido. Mas aí minha microempresa começou a crescer. No fim eu tinha 16 funcionários. Depois passei a só coordenar a equipe. Eu trabalhava oitenta, noventa horas por semana. Não sobrava tempo para viajar.

Você tem três filhas menores de idade. A lei holandesa proíbe o ensino em casa. Isso não é um problema, já que vocês estão sempre viajando?
Viajamos pelo mundo com nossas filhas por meses, mesmo sabendo que isso teria consequências. Acho que a gente vai ter que pagar algum tipo de multa.

Você tem medo de que as autoridades tirem suas filhas de vocês?
Sim, esse é um dos meus maiores medos. Dito isso, nós investimos seriamente na educação das nossas filhas. Damos aulas para elas durante nossas viagens. Além disso, as três estão indo muito bem na escola. Minha filha mais nova ganhou um prêmio de redação quando voltamos. É claro que o governo tem que garantir que toda criança receba uma boa educação, mas ele também deveria ser mais flexível em casos específicos. Acho que a Holanda não está prestando atenção nessa nova geração de nômades digitais, essa geração que não acredita em regras tão rígidas. Gostamos de viver aqui, mas do jeito que as coisas andam, é provável que a gente tenha que se mudar em algum momento.

E qual foi o estopim dessa decisão?
Meu pai morreu em janeiro de 2016. Ele tinha 61 anos. Minha mãe morreu aos 48 anos. Meu pai era um jogador de futebol profissional, essa era a paixão dele. E como ele podia viver de futebol, a vida dele era completa. A princípio, eu quero sentir o mesmo, mas minha paixão é viver. Afinal, estamos todos presos nessa rodinha de hamster, trabalhando a vida toda e deixando as coisas importantes para depois. Para meu pai esse depois nunca chegou. Nem para minha mãe. O fato dos meus pais terem morrido cedo abriu meus olhos: eu já tenho 39 anos. Quem pode garantir que esse depois vai chegar para mim?

Ok, mas digamos que você ainda irá viver bastante — você não tem medo de perder tudo o que investiu no Bitcoin?
É claro que eu tenho que ganhar mais experiência como day trader. Mas mesmo que a gente perca tudo, essa ainda terá sido uma boa experiência. Enquanto estivermos junto, tudo vai ficar bem. E, se for preciso, eu posso procurar um emprego e começar do zero. Mas e se tudo der certo? E se isso nos der independência financeira e nos permitir ter a vida que sonhamos? Nem sempre é bom dar um passo atrás. Com um pouco de sorte, você pode acabar dando três passos para frente.

IMAGEM 3

O falecido pai de Didi com suas netas. Crédito:

O que você planeja fazer caso fique rico?
Se isso acontecer vamos continuar a ter uma vida simples. Também penso em viajar pelo mundo ajudando outras pessoas a usar as criptomoedas para mudar suas vidas. Quase três bilhões de pessoas não têm acesso à uma conta bancária. Graças ao blockchain, todo mundo pode criar seu próprio banco, basta ter um computador.

Por que você escolheu o Bitcoin? Por que não investir em ações?
Os bancos não fazem um bom trabalho. E a situação piorou tanto que hoje em dia as poupanças não rendem quase nada, e no fim, pagamos para manter uma conta bancária. Aqui na Holanda e na Alemanha as coisas ainda estão indo bem. Mas olha o que aconteceu na Grécia, na Bolívia e na Venezuela. As moedas desses países não valem mais nada. Aí quando você menos espera, só pode sacar 25 euros por dia. Mas o dinheiro é seu! Isso é uma loucura. Para mim, as criptomoedas são uma boa alternativa a essas instituições.

Mas não dá para comprar muita coisa com bitcoins. Além disso, produtos como cartões de débito especiais que podem mudar essa realidade ainda estão em desenvolvimento. O que vocês fazem quando querem ir na padaria, por exemplo?
Nós pagamos com dinheiro. Até o momento estamos pagando a maioria das coisas com euros. Alugamos um depósito e guardamos todas nossas coisas lá. Todo dia tentamos vender algo desse depósito, às vezes por euros, outras por Bitcoins.

E qual é sua previsão? Você acha que as criptomoedas irão substituir o dinheiro em papel?
Eu não acho que o dinheiro vai desaparecer completamente. Mas eventualmente chegaremos em um ponto em que teremos tanta riqueza em bitcoins quanto em moedas tradicionais. A tecnologia está sempre evoluindo. Já era hora do dinheiro evoluir também.

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