Uma homenagem à missão mais odiada de 'Grand Theft Auto: San Andreas'

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GTA XX é a série especial da VICE Brasil, com entrevistas e análises exclusivas, que celebra os 20 anos da franquia que mudou tudo nos games.

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Matéria originalmente publicada no Waypoint.

Por um tempo, Grand Theft Auto: San Andreas era só do que todos os meus amigos e eu conseguíamos falar. O pessoal trocava histórias e cheat codes no playground. Aulas de matemática descambavam para gritarias entre moleques de 13 anos sobre quem tinha ido mais longe com a Denise, a namorado do C.J. Ganton, e quem tinha completado a melhor porcentagem até agora. Uma criançada idiota se xingando sobre quem tinha achado o consolo primeiro na delegacia.

Lembro quando cheguei em casa e desembrulhei o celofane. Peguei uma caneta e rasguei os lados do plástico. Fiz minha mãe ficar uma manhã inteira na fila do Woolworths para comprar o jogo, apesar de ter pago a taxa de reserva de $1,50 do meu próprio bolso. Corri pra casa da escola assim que o sinal tocou, e todos os outros garotos da minha sala fizeram o mesmo.

O GTA era divertido, estranho e cheio de ameaças cartunescas. Os visuais eram muito diferentes do que tínhamos visto até então – insanamente grandes e vibrantes – e a trilha sonora se tornou imediatamente icônica. Além disso o jogo tinha bicicletas! Bicicletas, porra! Bicicletas descoladas que faziam um barulho de "thummm" quando você pedalava pelo asfalto rachado da Grove Street.

Saudades do meu mano Carl "CJ" Johnson.

Quando a claustrofobia pegajosa de Los Santos virava San Fierro, cheia de academias de ioga e lojas de marcas caras, a sensação do jogo mudava completamente. O ar de repente eram mais limpo, a luz mais forte, as estradas eram longas e cheias de subidas e descidas, os prédios se esticavam até o céu e pairavam sobre você como obeliscos iluminados. Mas era só depois que você saída da cidade e chegava nas expansões nuas do deserto que a coisa ficava séria.

Em Bone County, com a poeira flutuando no ar como uma névoa, só havia sombras das formações rochosas parecidas com pintos, e o sol observava tudo como um enorme olho maligno no céu. À noite o deserto ficava azul e ainda mais perigoso. E lá você tinha "Learnig to Fly", aquela maldita escola de voo e o agente do governo Mike Toreno, dublado por de James Woods, piorando ainda mais as coisas.

Você sabia quem na escola já tinha chegado nessa missão, os moleques com olheiras e os ombros curvados pra frente. Eles tinha atolado no meio caminho por essa escola de aviação pentelha perto da pista de decolagem de Verdant Meadows. Você sabia quem tinha chegado lá pelo jeito como a pessoal mudava de assunto – "Alguém já chegou naquela missão...", "Meu deus, você ainda está falando de San Andreas? Esse jogo é uma bosta, cara. Supere." – e como eles voltavam mais devagar para casa.

As missões até aquele ponto já eram difíceis (tipo a merda do "Wrong Side of the Tracks"), mas essa era diferente. Uma dor completamente nova que te deixava desmoralizado e querendo desesperadamente fugir. A escola de voo derrotava as pessoas de cara.

Lembro quando cheguei lá. Fui direto para a pista de voo e bombei logo na primeira tenttiva – perdi nos primeiros testes uma dúzia de vezes pelo menos, provavelmente mais. Eu ia direto para as coronas (os arcos vermelhos por onde você tinha que voar) e o nariz do avião começava a mergulhar enquanto chamas vermelhas, amarelas e laranjas surgiam antes da tela ficar preta, e seis letras aparecerem para o meu personagem: WASTED.

Acabei conseguindo passar as primeiras tarefas (admito que simples), mas a curva de aprendizado para o resto era surreal. Era como ensinar uma criança a andar de bicicleta, tirar as rodinhas e jogar a chave do carro para ela. Mesmo se você aprendesse rápido, o que vinha depois eram horas e horas aprendendo todos os truques possíveis que não tinham um propósito real no jogo. Eu tinha 13 anos, um garoto com os olhos colados na televisão, jogando e xingando mais que o Danny Dyer com o pinto preso numa porta.

A maldita missão 'Learning to Fly'.

Mas eu estava determinado. Até aquele ponto, quando eu estava sentado na classe ignorando a aula, eu sonhava acordado em entrar acelerando no território dos Ballas, ouvindo "You Dropped a Bomb on Me" da The Gap Band no último, enquanto atiravam em membros de gangue vestidos de roxo. Agora eu era assombrado por manobrar cuidadosamente uma renderização de PS2 de um avião da Segunda Guerra Mundial, numa velocidade mais baixa que a do metabolismo do Big Smoke. Eu fechava os olhos e via anéis vermelhos pulsando no fundo das minhas pálpebras. Eu estava obcecado.

A importância de terminar a missão pesava nos meus ombros. Pela primeira vez na minha curta vida, eu estava focado e dedicando minha vida a alguma coisa. Eu tinha que completar essa série de testes inúteis de agilidade e destreza, para poder continuar com essa porra de jogo e com o resto da minha vida. Decidi sentar na frente do videogame até conseguir, as mãos agarrando o controle como garras de Lego, o dia virando noite e a noite virando dia, até que consegui. Consegui terminar a porra da missão.

Meu comportamento na escola nos anos anteriores tinha sido bastante errático – geralmente variando de "Muito bom" para "Médio" e "Você provavelmente vai ser expulso" – mas aí tudo se encaixou e as coisas começaram a ascender, tipo as asas do avião do C.J. Não estou dizendo que completar a missão da escola de voo do San Andreas mudou minha vida, mas não descarto essa possibilidade.

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