Há 10 anos, o Radiohead mudava a indústria fonográfica e o rock de tiozão

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Em outubro de 2007, quando empresas como Bandcamp e SoundCloud estavam apenas nos primeiros pequenos passos de sua existência, o Radiohead resolveu lançar seu primeiro álbum em quatro anos no esquema pague-quanto-puder. Descrita, na época, pelo New York Times como "a banda sem gravadora mais famosa do mundo", o quinteto fez uso do fim de seu contrato de seis álbuns com a EMI para lançar o sétimo, In Rainbows, de um jeito que nenhuma outra banda do tamanho deles havia feito antes.

Anunciado despretensiosamente em um post no blog da banda, Dead Air Space, feito pelo guitarrista Jonny Greenwood, o disco foi colocado em pré-venda dez dias antes de seu lançamento no site inrainbows.com. Lá, os usuários poderiam comprar a versão digital do álbum pelo preço que desejassem — inclusive zero libra. Em entrevista, Thom Yorke chegou a dizer que queria estragar o jogo de gato-e-rato de quem seria o primeiro a escrever uma resenha sobre o disco. É provável, também, que a banda quisesse evitar o vazamento do álbum antes de seu lançamento oficial, o que havia acontecido com o anterior, Hail to the Thief (2003), e aconteceria cada vez mais.

A forma de lançamento foi controversa em sua repercussão imediata — apesar dos elogios de jornalistas de veículos como The New York Times e NME, a iniciativa foi criticada por colegas músicos do grupo, como Trent Reznor e Kim Gordon (a baixista disse ao The Guardian , na época, que a decisão "não foi direcionada aos seus irmãos e irmãs músicos, que não vendem tantos álbuns quanto eles. Isso faz com que todos sejam mal vistos por não oferecer nossa música por qualquer preço."). A estratégia, na verdade, desconcertou os artistas por ter sido a primeira grande evidência de que a ideia de ganhar dinheiro com vendas de discos estava ganhando ares de "ultrapassada". A ameaça de downloads ilegais era crescente, e o Radiohead encontrou uma maneira de lidar com isso antes de seus contemporâneos.

Embora a banda tenha dito que a iniciativa era "uma solução para o Radiohead, não para a indústria da música em geral" e não tenha repetido a fórmula em álbuns seguintes, é impossível negar que In Rainbows deu o tom para muitos grandes e pequenos lançamentos dos anos que se seguiriam (inclusive do próprio Trent Reznor); e que, apesar de suas outras posições conservadoras quanto à indústria da música, — como as duras críticas de Thom Yorke às plataformas de streaming; o próprio In Rainbows não estava no catálogo do Spotify até o ano passado — a banda foi pioneira no formato de vendas digitais dominante para pequenos e médios artistas uma década depois.

O lançamento de In Rainbows completa dez anos nesse 10 de outubro, mas o Radiohead já estava estabelecido como a maior banda de seu tempo havia pelo menos outros dez. Desde OK Computer, de 1997, a banda expandiu a visão do público que capturou desde o lançamento de "Creep" a pensar em outras formas possíveis do rock, muito como bandas como Can e Faust fizeram durante a década de 1970. Ao trabalhar com o free jazz, formas de microhouse, techno e música ambiente ao longo de sua discografia (principalmente em Kid A e Amnesiac, respectivamente de 2000 e 2001), o grupo desenhou um caminho de evolução artística que percorrem sozinhos até hoje.

Toda esse desenvolvimento está engasgado em "15 Step", faixa que abre In Rainbows e cujas batidas quebradas e riff suave de guitarra são pano de fundo para uma das melhores performances vocais de Thom Yorke na discografia da banda. O vocalista é, inclusive, pela primeira vez um ponto de foco em muitos momentos do disco: nos falsetos de "Reckoner", na fúria progressiva de "Jigsaw Falling Into Place" e na bela faixa de encerramento "Videotape", que ganhou uma performance ainda mais bonita na versão ao vivo do álbum, Live from the Basement.

In Rainbows é tanto um retorno às origens quanto uma evolução da forma que o Radiohead construiu ao longo dos vinte anos de carreira que o precederam. O grupo trouxe de volta as baladas de violão que já trabalhava em seus primeiros álbuns e transformou-as nas abstratas "Faust Arp" e "House of Cards", cuja produção simples e som límpido podem ser atribuídos ao produtor Nigel Godrich, que já trabalhava como engenheiro de som da banda desde The Bends (1995). As seções de cordas presentes no álbum, compostas por Jonny Greenwood e interpretadas pela orquestra inglesa The Milennia Ensemble, também haviam sendo trabalhadas pelo grupo desde OK Computer. O recente A Moon Shaped Pool, com seus momentos acústicos e letras pessoais, torna ainda mais claro que In Rainbows foi um momento decisivo na discografia do grupo.

De muitas formas, In Rainbows é o álbum tiozão do Radiohead, — já amadurecido, não mais tão aventureiro e sensível à passagem do tempo — mas seus pequenos detalhes são o que ainda o torna relevante e fresco ao paladar. É a prova empírica de que a capacidade do Radiohead de se reinventar e construir novas formas musicais sobre os ossos de seus trabalhos anteriores permanece intacta e tão interessante quanto era há 10, 20 ou 30 anos.

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