O filme 'Legalize Já!' é sobre maconha e o futuro do Brasil

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"É ficção né? Vamos encarar assim né?" e "não sei o que esperar". Confesso que na muvuca aglomerada na frente do Cine Odeon, na pré estréia de "Legalize Já", entre as relíquias do underground presentes, a expectativa para o filme era baixissíma. Pudera, toda a galera ali presente, em algum momento do passado distante, participou fisicamente da história do Planet Hemp. Para completar o clima saudosistão, o cinema fica a poucos metros da rua Pedro Lessa, onde o jovem Marcelo vendia camisetas de banda e veio a conhecer o Skunk, com quem fundaria o Planet Hemp.

Eu não conheci o Skunk. Meu primeiro show do Planet já foi depois do primeiro disco, e eu só fui conhecer a galera direito quando comecei a fotografar em 98. Mas o Skunk sempre foi um personagem constante das histórias contadas em bares e camarins — dava pra sentir como ele foi um cara muito querido e que transitava por todas as galeras, um notório figuraça do underground. O fato do filme ser sobre uma pessoa muito querida, um herói, uma lenda, e o ator que representa o jovem Marcelo D2 não ter ficado muito parecido fisicamente com ele nas fotos de divulgação (tava mais pra um jovem Mano Brown na minha opinião), deram uma incomodada na galera mais chegada. Porém, poucos minutos de filme foram suficientes para quebrar a cara do bonde cínico. O filme é bonzão e deve ser visto por fãs ou não. A obra é, sobretudo, um merecido tributo ao Skunk. Ambos os atores, Renato Góes (que interpreta o Skunk), e Ícaro Silva (o D2) incorporam perfeitamente os personagens. As cenas deles gravando a primeira demo são tão perfeitas que eu fiquei na dúvida se não foram utilizados os áudios originais.

Foto: Divulgação

Trata-se obviamente de um recorte da história da banda, mais precisamente a relação de amor e ódio entre Marcelo e Skunk. Era tipo um bromance mesmo, o início do Planet Hemp até a morte de Skunk, às vésperas da banda assinar com a Sony e estourar. Alguns malas vão reclamar da ausência de um ou outro personagem ou situação, mas no final das contas a ficção triunfa em sua impecável caracterização, desde os figurinos aos cenários e locações, reproduzindo fotos clássicas feitas por colegas fodas como a Dani Dacorso. Os pôsteres do Garage no quarto do Skunk, as capas das fitinhas k7, as camisetas no camelô do Marcelo, tudo é fidedigno à época. Mas o momento que faz encher de lágrimas qualquer noventoso saudosista é o primeiro diálogo entre Marcelo e Skunk, uma das várias histórias que ouvi em algum camarim desses pelo Brasil.

O diálogo em questão é uma disputa de conhecimento motivada pela camiseta do Dead Kennedys usada pelo Marcelo. "Qual o último álbum de estúdio deles?". Típica medição de piru, digo, conhecimento, numa época em que olhar para fora da caixa era uma tarefa dificílima; quem tinha grana pra ir pro exterior voltava cheio de discos, CDs e revistas. Quem não tinha, se virava nas fitinhas e xerox. O filme conta com várias passagens engraçadas, com os personagens assistindo clipes do Beastie Boys e Cypress Hill e dublando os caras, e momentos psicóticos que mostram a hegemonia do axé nas rádios, algo tão desesperador quanto desamparador na cabeça de uns caras com sonhos em brilhar com uma música carregada de discurso e fusões de ritmos e mundos.

Foto: Ruano Carneiro

Além de contar a história do Skunk, desconhecida pra maioria do público, o filme retrata uma época, uma realidade brasileira. Não é como um filme gringo de rap em que a colheita de dinheiro através da música é uma meta alcançável. Fazer fama e fortuna com música naquele Brasil que acabou de vencer uma ditadura militar mas vivia uma ditadura cultural ditada pelas grandes gravadoras e suas rádios e emissoras parceiras era privilégio de poucos, quanto menos um bando de maconheiros, pretos e pardos. Várias vezes o Marcelo do filme pensa em desistir, briga com Skunk — a quem ele chama de "mendigo viado fantasiado de rapper americano". No final, como sabemos, o mendigo estava certo e a banda acontece, mas infelizmente sem o Skunk, que sucumbe ao HIV em 1994. Sem entrar a fundo na questão da sexualidade do Skunk, o assunto era um tabu até hoje e ainda mais na época, seu estilo de vida fica claro nas imagens de Skunk vagando entre as travestis da Lapa, enquanto Marcelo divide o sofá com sua primeira mulher, ainda na dúvida se abortariam seu primeiro filho ou não.

"Eu vou fazer 50 anos daqui a um mês. A gente vive momentos tão pesados, tanta coisa obscura, tanta gente preferindo odiar do que amar, e chegar aos 50 anos sendo homenageado por grandes amigos num filme que fala de amor... Quando a gente fala 'legalize já' a gente não fala só de maconha, mas também sobre respeitar o próximo, estar no direito, sair da escuridão", disse Marcelo na estreia do filme. "'Legalize Já!' não é só sobre maconha. Esse é um filme de ficção, uma história de amor. É sobre seu direito de cidadão de se vestir do jeito que você quiser, de assumir sua homossexualidade, de falar o que você pensa" completou o diretor Johnny Araújo. Realmente não é só sobre maconha, mas os fãs vão ficar feliz pois tem baseado queimando em praticamente todas as cenas do filme.

D2 e Tantão. Foto: Matias Maxx

Após a sessão, teve show do Planet Hemp na sequência, ali do lado, no Circo Voador. Quem estava na sessão infelizmente perdeu o show de abertura do Tantão e os Fita, que quebrou tudo. Casa lotada, a pista, as arquibancadas, os cantos do palco, o backstage e os camarins, mesmo quando a banda tava no palco. Tudo lotado. Típico show do Planet Hemp no Rio. Antes de subir ao palco, Marcelo abraçou os companheiros de banda e disse "hoje vendo o filme fiquei lembrando de como foi difícil pra gente, pô, ver o Skunk grandão lá na tela do Odeon, lembrando de quando a gente era punk e ficava do lado de fora. Lembrando de quando a gente pulava o muro do Circo pra ver os shows sem pagar, hoje a gente tá aqui, 25 anos depois, sold out, falar pra vocês que hoje eu comemoro os meus 50 anos."

Foto: Matias Maxx

O show foi clássico como sempre, e o trailer do filme era mixado junto com as imagens produzidas pelos manos da Apavoramento SS para a tour do Planet. Após o show, trombei o baixista Formigão, que não estava na sessão, e comentei que um dos momentos mais celebrados do filme é justamente a primeira aparição do Formigão e sua voz fanha, interpretado por Bernardo Mendes. "Mas por que?", me perguntou o Formiga.

— Porque a galera ama você, porra! Os fãs do Planet amam o Formigão.
— É mesmo?
— É.
— Foda-se.

De certa forma, o filme é bem foda-se também. A história de um bando de loucos que, enfrentando adversidades, ligaram o foda-se para todas as leis e regras — incomodando tanto que puxaram uma cana por isso —, mas que deixaram sua marca, tanto na música como no ativismo canábico, que ainda hoje tem uma preferência sinistra por assinar textos citando músicas de mais de vinte anos atrás. Canções de uma realidade não tão longe da de hoje em dia, embora a internet tenha baqueado a ditadura cultural, o estrago já foi feito, e infelizmente a ditadura do jogo entre facções criminosas e bons e maus policiais está em plena expansão, assim como o fundamentalismo religioso.

Foto: Matias Maxx

O filme chega num momento essencial para reacender os neurônios queimados da galera que viveu aquela época, além de educar as novas gerações a não desistirem dos seus sonhos, celebrarem o amor e denunciar o errado. No mais, um passarinho verde me contou que "Legalize Já", o filme, não é a única novidade que o Planet Hemp nos brinda este ano. Aguardamos ansiosamente.

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