Entendendo Matt Groening

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The Simpsons /20th Century Fox

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Matt Groening sempre soube que criar os Simpsons – a série mais antiga ainda no ar nos EUA, e o único programa de televisão com aparições de Barry White e Ed Sheeran – abriria portas para qualquer coisa que ele quisesse fazer no futuro. Comemorando os 20 anos da série em Cannes, Groening admitiu que "posso entrar em qualquer rede de TV, oferecer a eles outro Simpsons e acho que eles até ficariam babando um pouco".

Oito anos depois, Groening provou o que queria dizer. A equipe da Netflix saiu de sua sala de reuniões, provavelmente limpando a baba na manga da camiseta, depois de encomendar 20 episódios de Disenchantment, uma criação de Groening que acompanha uma princesa bêbada, um elfo, um demônio, e um elenco de apoio de ogros, harpias e morsas.

O serviço de streaming espera que a série – que está sendo descrita como uma mistura de Bojack Horseman e um Shrek para adultos – chegue perto da qualidade de Simpsons no seu auge. " Simpsons do auge", claro, são as gloriosas temporadas entre três e sete, que os fãs de série ainda ficam com os olhos marejados ao lembrar. Vimos alguns vislumbres da velha chama recentemente, como o episódio da temporada 26 escrito por Judd Apatow "Os Novos Amigos do Bart", e o natal da temporada 23 "Festas do Futuro Passado", além de vários exemplos em episódios de Halloween, mas é seguro dizer que poucos episódios chegaram perto da grandeza de "Marge vs o Monotrilho", "Homer no Bastão", "Lisa, a Vegetariana" ou "Homer, o Grande".

A ideia que Springfield perdeu um pouco de seu charme é quase unânime. Enquanto os primeiros episódios giravam em torno da família e tinham coração, as últimas temporadas dependem de aventuras exageradas e participações especiais. Dito isso, a questão de quem é responsável pela variação de sucessos e fracassos criativos da série é bem complicada.

As temporadas originais foram escritas em grande parte por um pequeno grupo de roteiristas, incluindo Sam Simon, Al Jean (que ainda supervisiona o programa), Mike Reiss, Jace Richdale, Jon Vitti, George Meyer, John Swartzwelder, Jay Kogen, Wallace Wolodarsky e Jeff Martin. No livro de John Ortved The Simpsons: An Uncensored, Unauthorized History, Simon geralmente é considerado o roteirista principal e força motora por trás da série, junto com Groening e James L. Brooks.

Brian Roberts, que trabalhou na série entre 1989 e 1991, disse a Ortved: "O conceito de Groening como a força criativa por trás dos Simpsons é besteira. Groening estava lá, mas era isolado e não fazia realmente parte da turma interna". Jay Kogen pensa o mesmo, acrescentando: "Groening não estava sempre na sala. Então é difícil discutir com todo mundo e ter algo a dizer se você não estava lá". Há uma tensão óbvia entre Simon e Groening, e a dupla continuou trocando farpas em público depois da saída de Simon na quarta temporada. Ele chamou Groening de "embaixador" da série, dizendo que o criador estava mais envolvido em elementos comerciais, como merchandise, do que com os aspectos criativos do programa.

Groening não levou isso na boa. Depois de se referir a Simon como "um dos roteiristas mais inteligentes com quem já trabalhei, apesar de desagradável e desequilibrado", ele contra-atacou. "Minha contribuição para o roteiro da série não deve ser minimizado. Estou envolvido em cada aspecto, da concepção de ideias a escrever o roteiro, dirigir dublagens e no design dos personagens", acrescentou.

Quão envolvido Groening realmente é com a série, que já tem 618 episódios e 28 temporadas, continua pouco claro. Ele tem poder de veto sobre o roteiro – por exemplo, mudando o final do episódio "Homer vs Dignidade" da temporada 12 de sangue de porco para entranhas de peixe – mas com que frequência ele ainda usa sua caneta vermelha para rabiscar o roteiro é questionável. Groening continua visível, promovendo a série pelo mundo, mas o punk rocker fã de Frank Zappa, que estudou no Evergreen State College em Olympia, até hoje é uma figura misteriosa na indústria.

Groening em 2011. Cortesia de Wikicommons.

Já seu envolvimento em Futurama se provou mais consistente. Acredita-se que ele passou cinco anos pesquisando ficção científica antes de dar a ideia da série para o roteirista de Simpsons David Cohen, e estava altamente envolvido na volta de Fry e sua gangue quando a série foi ressuscitada pelo Comedy Central em 2010, depois de ser cancelada pela FOX em 2003. Ele disse ao Metro em 2012 que podia preencher todo o seu dia de trabalho com Futurama. "A melhor coisa sobre ter duas séries de TV no ar ao mesmo tempo é que posso trabalhar em uma e dizer que preciso visitar a outra, depois ir pra casa e ninguém fica sabendo", ele brincou.

Se algo oferece uma janela para o mundo idiossincrático e profundamente cínico das criações de Groening no começo dos anos 90, pode ser seu trabalho fora da televisão. Longe dos holofotes de sua principal série, Groening continuou trabalhando em seus quadrinhos de longa data; sua criação pré- Simpsons Life in Hell continuou até 2012, e ele fundou a Bongo Comics (que publica os quadrinhos de Simpsons) e a Zongo Comics (uma editora voltada para o público adulto que fechou) durante seu trabalho na série.

Há esperança de que essa última empreitada possa dar a ele um espaço para retornar à forma longe do albatroz amarelo obeso pendurado em seu pescoço. Disenchantment está em andamento há algum tempo, com o relacionamento de Groening com a Netflix estabelecido mais de 18 meses atrás. E Groening não vai trabalhar em Disenchantment sozinho. A série, que foi descrita como sendo "sobre vida e morte, amor e sexo, e como continuar rindo num mundo cheio de sofrimentos e idiotas", será coescrita com Josh Weinstein – ele mesmo um dos primeiros roteiristas a se juntar ao Simpsons original.

Além da promessa dessa equipe de roteiro dos primórdios de Simpsons, o elenco de dubladores também é interessante. A lista atual parece um cara-a-cara dos comediantes da atualidade, incluindo Matt Berry de Toast of London, Lucy Montgomery de Star Stories, e a dupla Noel Fielding e Rich Fulcher de Mighty Boosh. Eles se juntam a astros dos EUA como Abbi Jacobson de Broad City, que faz a protagonista Princesa Bean, Nat Faxon de Friends From College e Eric Andre, que tem um programa de mesmo nome no Adult Swim.

O tempo dirá se a Netflix encontrou um programa para rivalizar com Family Guy de Seth Macfarlane ou Rick and Morty de Dan Harmon, ou se só incluiu outro nome da lista A em sua estante de troféus, junto com David Fincher, Mitch Hurwitz, Aziz Ansari e Spike Lee. Mais revelador, Disenchantment pode oferecer provas do contínuo valor criativo de Matt Groening na megaindústria de humor adulto que ele ajudou a criar. Resta saber se ele ainda tem algo a oferecer à cultura popular em 2017, ou se só é tão bom quanto seu passado.

Não que Groening pareça o tipo de pessoa que se importa com o que o mundo pensa dele. Ele admitiu para o LA Weekly em 2007: "Sou uma dessas pessoas que recebe mais crédito do que merece. Me sinto culpado? Sim. Admito isso? Sim, e sigo em frente".

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