Dez anos de '2 Girls 1 Cup', a cagada brasileira mais memorável da internet

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Em 2007 se você não sacaneou um amigo ou foi sacaneado ao ter que assistir desavisado um trailer de duas mulheres se beijando, cagando num copo, comendo a própria merda e depois vomitando tudo nas respectivas bocas, você provavelmente não era um cara antenado. O viral mais amigável para quem precisa cortar o apetite completa dez anos de existência em 2017 e foi responsável por desenvolver algumas linguagens que usamos hoje em dia na internet.

O 2 Girls 1 Cup (daqui para frente vamos usar 2G1C) nada mais era do que um trailer de um minuto com as melhores partes do filme Hungry Bitches. No teaser do filme surgem as performers Karla e Latifa, que corajosamente seguraram com primor uma cena lésbica com escatalogia pesada ao som angustiante de "Lover's Theme" do compositor francês Hervé Roy – que também fez trilha sonora para a película de soft-porn Emmanuelle, lançada em 1974. Um cara provavelmente abismado com a existência de filmes desse calibre subiu o trailer no domínio 2girls1cup.com (que hoje virou um site genérico de pornografia) e assim Hungry Bitches conquistou a repulsa mundial.

Um dos primeiros vídeos que colocou a obra escatológica nos anais da internet foi o de um sádico norte-americano que fez sua pobre avó sentar em frente ao computador e assistir ao trailer. A avó ficou em choque, óbvio. (O primeiro react de verdade do trailer é esse aqui ). Com isso, outras pessoas começaram a copiar a ideia e filmar amigos, colegas e familiares se contorcendo de pavor ao ver duas mulheres adultas cagando em um copo, comendo o conteúdo e vomitando-o no mesmo recipiente. Era o nascimento do react.

Isso é só o começo da jornada malcheirosa do 2G1C.

Origens

Apesar de parecer uma obra saída do inferno, 2G1C não surgiu de uma combustão espontânea. A obra 100% brasileira foi gravada em terras paulistanas graças a Marco Fiorito, diretor e produtor de filmes de fetiche nascido em São Paulo. No início dos anos 1990, ao lado da sua então esposa Letícia Miller, Fiorito criou a produtora Dragon Films, especializada em filmes de podolatria, dominação feminina e coprofilia.

As atividades da produtora começaram em 1994 com filmes de podolatria caseiros, nos quais o próprio casal Fiorito e Miller operava as câmeras e atuava. Anúncios foram colocados em jornais locais para vender os VHS, como grande parte do mercado pornô fazia naquela época. No caso do casal Fiorito, o cliente ligava no número indicado e era informado sobre o catálogo disponível de filmes. A fita VHS era, então, entregue em mãos na casa do cliente ou via correio e assim o casal sobrevivia produzindo seus filmes fetichistas. Bastou o negócio começar a dar grana que os Fiorito começaram a contratar performers para atuar nos filmes da Dragon Films.

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Em 1999, com a internet doméstica tomando forma junto a um horizonte frutífero para ganhar dinheiro, Luis Vilas Boas abordou Fiorito e ofereceu uma sociedade para vender os filmes da produtora na internet. Os 150 filmes produzidos anteriormente por Fiorito entraram no catálogo da recém criada Dragon Films e Luis ficou responsável por administrar os negócios e lançá-los na internet. Segundo depoimento de Fiorito à Justiça norte-americana (você vai entender essa história mais adiante), ele mesmo não tinha a menor ideia de como lidar com a internet, mas acreditou em Vilas Boas quando, periodicamente, o dinheiro passou a entrar na sua conta. Luis também contratou uma mulher chamada Fernanda Clemente para ajudar na parte burocrática e assim a produtora foi sendo expandida.

Junto à Dragon Films, Fiorito também registrou o domínio MF Vídeos (sigla do seu nome e sobrenome) e LM (Letícia Miller) para lançar mais títulos. A sede da sociedade entre Fiorito e Vilas Boas se estabeleceu em Santos e Fiorito evitava passar na cidade litorânea, já que seu interesse passava longe de qualquer obrigação burocrática. Quando seus filmes despontaram e a grana entrou em maior quantidade, Fiorito se separou informalmente de sua esposa Letícia.

Neste depoimento que baseamos a reportagem (você vai entender o porquê dele mais a frente), Marco Fiorito se considera um "fetichista compulsivo" e diz que gastava grande parte do seu dinheiro para alimentar suas necessidades sexuais.

Por intermédio de Vilas Boas, Fiorito conheceu Danilo Croce, que passou a o aconselhar financeiramente. O diretor e produtor diz não ter gostado de Danilo e que Croce jamais fez parte dos negócios da Dragon Films ou da MF Videos. O fato de o santo de Marco não ter batido com o de Danilo foi levantado pela professora de antropologia da UFRJ e diretora da Coleção de Antropologia da Editora Papéis Selvagens Maria Elvira Benítez, que acompanhou várias figuras do mercado pornográfico e de fetiche em meados de 2011 para escrever sua tese de mestrado que gerou o livro Nas Redes do Sexo. "Todo mundo que trabalhou com o Fiorito diz que ele é um ótimo empregador, que ele paga quem tem quer pagar e tem uma boa fama constituída. Já o Danilo tem uma fama inversa. Você não vai encontrar ninguém elogiando esse sujeito. Por isso que Fiorito se afastou dele logo depois que tudo aconteceu", conta.

Como brincadeira, Fiorito chegou a batizar um personagem de um filme como Daniel Cross, um nome equivalente a Danilo Croce nos EUA. Danilo detestou quando descobriu a "homenagem".

Esse relacionamento complicado entre Fiorito e Danilo não impediu que Croce expandisse os negócios da Dragons Films. Croce, por sua vez, vendia cópias dos filmes no estado norte-americano da Flórida com o mesmo esquema que Fiorito fazia no Brasil. Catálogo, pedido do cliente, entrega via correio. Tudo parecia bem até que o excremento bater no ventilador em setembro de 2006, quando Danilo foi preso acusado de obscenidade e disponibilizar downloads do catálogo da Dragon Films online.

Danilo, porém, não foi preso especificamente por causa da viralização do 2 Girls 1 Cup, mas, antes de explicar essa briga, precisamos falar de obscenidade.

Fanny Hill e 2 Girls 1 Cup

Desde o século XIX os EUA travam uma guerra em nome da moralidade contra materiais considerados obscenos. Graças ao intenso lobby de Anthony Comstock, um camarada muito preocupado com materiais safadinhos e educação sexual para mulheres, foi aprovada uma lei no país impedindo o envio pelo correio de materiais considerados obscenos e métodos contraceptivos, além de informações sobre aborto. A lei foi bastante criticada no decorrer de sua existência porque ia de encontro com a Primeira Emenda da Carta de Diretos dos EUA, que assegura liberdade de expressão, de religião e da imprensa.

Para piorar, a lei deixava de lado qualquer definição mais específica do que é, de fato, obscenidade. Isso, além de gerar uma dor de cabeça absurda nos tribunais, também instrumentalizava a censura de conteúdo, isso porque a definição de algo obsceno pode variar de acordo com o magistrado que julga o caso. Com isso, algumas decisões dos tribunais norte-americanos discutiram a diferença entre arte erótica e pornografia para saber como administrar a censura de materiais.

Um dos julgamentos mais importantes para a história de obscenidade e censura nos EUA foi o que decidiu se a obra lasciva do século XVIII Memórias de Fanny Hill poderia ser comercializada no país nos anos 1960. No julgamento, o livro foi posto à prova enquanto se discutia se ele era de fato erótico, ou não. A defesa do livro conseguiu provar que não havia nada na obra que fosse uma obscenidade em nível federal. Durante esse período, que parece ter ocorrido em dissonância com a revolução sexual que tomou conta nos anos 70, obras de autores como Henry Miller, Baudelaire, Burroughs e afins foram banidos e editores chegaram a ser presos por insistirem em comercializar obscenidades, caso do poeta Lawrence Ferlinghetti, processado por editar O Uivo, poema revolucionário de Allen Ginsberg. Na indústria pornográfica, no mesmo período, o filme Garganta Profunda também foi a julgamento. O jornalista literário Gay Talese escreveu extensamente sobre essa guerra jurídica no livro A Mulher do Próximo de 1988.

Esse modesto histórico de obscenidade, censura e decisões judiciais foi citado para você entender exatamente toda a confusão que a Dragon Films se enfiou nos EUA ao vender seus singelos filmes fetichistas. No Brasil, se você não se envolve com abuso de menores de idade, zoofilia e, óbvio, homicídio, basicamente está livre para comercializar seus filmes no mercado. Só que nos States, se um juiz indignado achar que você está vendendo coisas muito imorais para os cidadãos norte-americanos, prepare-se para sofrer um baita processo e ser preso. E foi basicamente o que aconteceu com Danilo Croce.

Em setembro de 2006 o bicho pegou. Danilo foi preso em Orlando por agentes de imigração e do departamento de costumes devido a distribuição que sua empresa Lexus Multimedia fazia na Flórida, enviando os filmes via correios.

No entanto, Danilo não foi preso por causa de 2G1C, mas sim por um filme chamado Toilet Man 6 (Homem Privada 6) , que exibia mulheres fazendo o uso de um ator masculino exatamente da forma que o título do filme sugere. O plot é tão desgraçado quanto o Hungry Bitches e conseguiu a proeza de inspirar uma inspetora postal chamada Linda Walker a redigir um relatório de nove páginas, detalhando minuciosamente o catálogo da produtora. Durante três anos, de 2003 a 2006, agentes dos Correios disfarçados adquiriram alguns filmes da Dragon para criar uma denúncia formal contra Croce, acusado de usar o correio para distribuir material obsceno. Deu merda. Figurativamente.

Danilo rodou e só podia ser solto após pagar US$150 mil de fiança, além de ter sido acusado de conspirar junto à Fernanda Clemente para vender os vídeos de Fiorito nos EUA. Walker teve a infeliz tarefa de ver alguns títulos da produtora como o Bukkakke 3 e Scat Pleasures. Inclusive, graças a Dragon Films que o termo "bukkakke" foi inserido na longa lista de tópicos obscenos nos EUA, e até um documento foi escrito para ajudar os magistrados entenderem exatamente o que seria uma cena de fisting.

Em novembro de 2006, com toda a cagada fenomenal gerada pelo catálogo da Dragon, Fiorito enviou um depoimento para salvar o rabo de Danilo e tentar salvar o nome da própria produtora. O produtor contou a história da sua carreira e afirmou não ter absolutamente nada a ver com a comercialização dos filmes da Dragon nos EUA. Ele também disse que jamais imaginaria a diarreia que tudo isso gerou no país, porque, no Brasil, fazer esses filmes e vendê-los não é crime.

Danilo acabou sendo solto após pagar US$ 98 mil e voltou para o Brasil sob custódia. Esse foi o fim comercial da Dragon Films nos EUA.

Só que isso foi só a ponta do iceberg.

Vadias famintas & publicidade ruim

A operação contra a Dragon Films foi uma das maiores ofensivas contra o mercado pornográfico nos anos 2000. Consequentemente, a ação chamou atenção de muita gente, o que provavelmente ajudou a apresentar o trailer de Hungry Bitches para o mundo. Como citado anteriormente, um cara registrou o domínio sob a alcunha de 2girls1cup.com, subiu o trailer no site e deixou a mágica acontecer sozinha. Milhares de pessoas assistiram o teaser, sofreram, mostraram por amigos de sacanagem, fizeram música em homenagem à história de amor fedorenta e assim se pacificou a longa existência do meme 2G1C.

O negócio foi tão grande que uma grande marca de refrigerantes tomou uma comida de rabo do público norte-americano em 2010 por veicular uma campanha no Facebook com uma referência ao meme de coprofilia. O post era algo como "eu vi 2 Girls 1 Cup e fiquei com fome depois". Deu merda. De novo, figurativamente. Todo mundo xingou, pais de família se mostraram indignados ao saber do que a marca estava falando. A agência que fez a campanha terminou demitida.

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A revolta, a indignação, a repulsa e a fascinação que nascem em quem vê o vídeo de um minuto produzido graças à imaginação pervertida de Fiorito ajudou a tornar a produção num daqueles memes eternos.

"Se o filme teve destaque é porque imprimiu verdade. Pornô é como qualquer outro gênero, você tem que fazer pra quem tá do outro lado da tela acreditar naquilo, seja prazer ou dor", diz Edson Strafite, um dos produtores pornográficos mais importantes do segmento heterossexual brasileiro. "Filmes de escatologia são rejeitados naturalmente, é um nicho muito específico do mercado que consome este tipo de filme. Eu, honestamente, não gosto. Nunca produzi filmes de escatologia. Não lembro a primeira vez que assisti, mas nunca assisti a uma cena completa, fico enjoado, parece até que sinto o cheiro."

É Tudo Verdade

Apesar de todos os percalços na carreira de Fiorito, o diretor e produtor continua produzindo seus filmes de fetiche e, ainda hoje, ocupa um espaço importante neste universo. "O Fiorito é muito além desse filme, ele é um diretor importantíssimo no mercado", frisa Maria Elvira. "Ele evita falar sobre o filme porque parece, pelo menos até 2011 - quando ele comentou sobre isso -, que ele não pode mais entrar nos EUA por causa dessa história."

"No começo ele até me disse que não fez o filme e sim o Danilo. Depois ele disse que teve parte na produção. Enfim, parece ainda meio nebulosa toda essa história, mas ele continua fazendo filmes e sendo um dos principais diretores de fetiche do Brasil. Ele gosta essencialmente de pé e dominação e foge desses filmes mais 'bonitinhos' e 'românticos' de podolatria", conta a pesquisadora.

Agora à frente da produtora MF Videos, Fiorito continua fazendo seus filmes de coprofilia e podolatria com a mesma paixão que o motivou a fazer o que desejava nos anos 1990. A reportagem entrou em contato via Facebook com Marco e sua ex-esposa Letícia, mas não obtivemos respostas. Não fomos os únicos.

Jully Delarge, diretora e atriz pornográfica que trabalhou em cerca de 20 cenas com Fiorito, disse ter sido uma experiência muito boa. "Gravei algumas cenas com ele, fetiches variados, desde cenas de beijo lesbo, passando por dominação, até chegar no scat. E todas as vezes foram muito divertidas, " conta.

Na época que Danilo foi preso, Fiorito chegou a mencionar no seu depoimento enviado aos EUA que muitas vezes teria usado chocolate para simular excrementos nas cenas. Muita gente suspeitou que as cenas poderiam ser feitas com sorvete de chocolate ou até efeitos especiais capaz de sustentar a infame cena de 2G1C. Jully, no entanto, diz que praticamente todas as cenas que fez de scat eram reais. Ela, no entanto, não pode falar pelas atrizes do 2G1C, mas indica que Fiorito costuma ser fiel à verdade quando o assunto é coprofagia. "Nunca soube de cenas de scat feitas com chocolate", afirma a atriz.

"A única preparação que faço é ficar cerca de um dia sem defecar para garantir uma boa quantidade no momento do ato. É importante que a consistência seja sólida, se estiver mole não rola (risos). A pior parte é quando acontece de não conseguir defecar. Felizmente, nunca ocorreu comigo", relembra Dellarge

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A fama de Fiorito parece não ter surtido efeito negativo no meio de fetiches, isso porque seu catálogo, até hoje, continua bastante atualizado. "Eu admiro o trabalho dele; ele é bem extremo e criativo ", conta Marcos Morais, diretor e produtor da MM Vídeos, também especializada em fetiche.

No campo sexual, o filme ajudou muita gente a descobrir que o Brasil é responsável por enviar bastante conteúdo para países como os EUA e na Europa, além de gerar uma discussão que separa o que é fetiche da pornografia. "Ela [2G1C] não teve um impacto na indústria pornô porque é um mercado muito diferente do de fetiche. São outras cenas que não exigem penetração e abriga outros clientes", explica a Benítez.

Nas conversas que Elvira teve com Fiorito, a pesquisadora descobriu que o diretor concentrava grande parte das suas produções para o mercado externo. Inclusive, segundo Elvira, um dos clientes de Fiorito era um holandês que encomendava filmes diretamente com Marco e os comercializava na Europa por meio de distribuidoras estrangeiras. São essas redes que permitem que diretores como ele persistam no mercado. "Em 2011 lembro de ter visto um fórum fechado de fetiches e ficou bem claro que a maioria da procura por filmes de coprofilia eram de países estrangeiros. Com isso, a maioria dos diretores de filmes de fetiche produzem pensando mercado externo ao produzir essas cenas", explica.

No lado da zoeira, 2G1C foi um triunfo acidental. Talvez até maior do que a trollada do "Cala Boca Galvão". Quando o vídeo efetivamente viralizou em 2007, a internet não era ainda do que jeito que conhecemos. Hoje um meme costuma ter uma vida curta, de aproximadamente uma semana e são poucos os que se tornam presentes pra além de um período em especial. O 2 Girls 1 Cup apareceu numa época em que o streaming de vídeos estava começando a despontar e que youtubers eram apenas pessoas que compartilhavam performances e fatos ordinários perante uma câmera. O horror de ver merda sendo ingerida foi um impacto gigante mundial, sendo inclusive responsável pela moda de vloggers reagirem a alguma coisa que eles ainda não conheciam, de memes e clipes de rap até o mero unboxing de algum produto.

Antes das guerras meméticas ou da globalização da Nazaré na rede mundial de computadores, o Brasil já ditava os rumos da memesfera mundial. Aqui é HUE, fera.

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