Assassinato bizarro na Flórida mostra como neonazis se tornam jihadistas

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Esta matéria foi publicada originalmente na VICE.

Devon Arthurs não mudou de casa mesmo depois de sua conversão ao Islã. O jovem de 18 anos morava num condomínio fechado chamado Hamptons na cidade de Tampa Palms, com três outros jovens que ele identificou como nacionalistas brancos. Seus colegas de casa pareciam não achar que mudar de uma ideologia extrema para outra era grande coisa. Pelo menos alguns dos colegas eram membros de um grupo chamado AtomWaffen Division, conhecido principalmente por distribuir panfletos racistas em universidades.

Mas o delicado acordo de habitação entre as seitas diferentes não deu certo.

Sexta passada, Arthurs fez três pessoas reféns numa tabacaria em Tampa, segundo a polícia local. Quando foi preso, ele disse que tinha matado dois de seus colegas de casa – Jeremy Himmleman, 22 anos, e Andrew Oneschuk, de 18 – por fazerem comentários depreciativos sobre sua nova religião. (A irmã de Himmelman disse ao Tampa Bay Times que o irmão e Oneschuk não eram neonazistas, apesar de Arthurs ter dito o contrário.) Quando a polícia chegou ao Hamptons, os oficiais encontraram o terceiro colega deles, Brandon Russel, de 21 anos, chorando na porta de casa usando um uniforme camuflado.

A história teve outra reviravolta estranha quando a polícia vasculhou o apartamento. Eles encontraram "um cooler contendo uma substância branca tipo cocaína" conhecida como hexametileno-triperóxido-diamina e um pacote de "precursores de explosivos" endereçado a Russell na garagem, junto com uma foto do terrorista de Oklahoma Timothy McVeigh em sua penteadeira, segundo uma queixa da Corte Distrital dos EUA. Russel, que é membro da Guarda Nacional da Flórida, foi preso no domingo em Florida Keys e foi acusado pela corte federal por posse de explosivos. Enquanto isso, Arthurs recebeu duas acusações de homicídio em primeiro grau e duas de lesão corporal, além de acusações de sequestro.

Um conhecido dos rapazes, Watson Fincher, de 24 anos, explicou a dinâmica do grupo para o Tampa Bay Times na terça. Ele disse que Arthurs começou a se identificar como muçulmano cerca de um ano atrás e mudou seu perfil na comunidade de extrema-direita ironmarch.com para refletir sua nova identidade nacionalista socialista salafista – uma referência a um dos ramos mais conservadores do islã sunita. Apesar de outros participantes terem tirado sarro dele na época, Arthurs parece ter continuado no meio do AtomWaffe Division, um pequeno grupo de ódio acompanhado pelo Southern Poverty Law e a Liga Antidifamação.

A ideia de um neonazi se convertendo a uma ramificação ultraconservadora do islã sunita pode parecer inexplicável, mas Fincher disse que a vida de Arthurs era marcada por contradições.

"Ele foi ateu. Depois católico. Depois cristão ortodoxo. Depois nazista. Aí muçulmano. Ele se apegava à estética de qualquer coisa que parecesse legal", ele disse ao Tampa Bay Times.

Especialistas em terrorismo dizem que pular entre grupos violentos com ideologias aparentemente opostas não é exatamente novidade.

"Você não precisa ser membro de carteirinha de nenhum grupo extremista – você pode passar de um para o outro facilmente", diz Oren Segal, diretor do Centro de Extremismo da Liga Antidifamação. "Mas geralmente a pessoa vai de um grupo supremacista branco para o outro. É difícil ver um supremacista branco se converter a algo que despreza."

A situação mais próxima que Segal viu desse caso foi um cara chamado Ryan Anderson. Ele era parte da Guarda Nacional do Estado de Washington e postou anúncios em grupos do Usenet em 1995 procurando milícias locais para se juntar.

Anderson foi se tornando cada vez mais crítico desses mesmos grupos e começou a participar do grupo de notícias alt.religion.islam no ano seguinte. Em setembro de 2004, ele foi condenado por tentar fornecer informação a Al-Qaeda e pegou prisão perpétua.

Segal me disse que a internet tem permitido que jovens rebeldes passem de um grupo radical para outro como preferirem – do mesmo jeito que adolescentes típicos experimentam personas diferentes.

Barry Levin, diretor do Centro de Estudos de Ódio e Extremismo da Universidade Estadual da Califórnia, em San Bernardino, me apontou um caso bem mais recente de alguém que se converteu do neonazismo pro salafismo. Em fevereiro, a polícia alemã prendeu um homem que se identificava como "Sascha L.", acusado de tentar atrair policiais e soldados para uma armadilha com explosivos. As autoridades disseram que encontraram vídeos antigos dele no YouTube, onde Sascha falava sobre a ameaça crescente dos muçulmanos. Aparentemente ele passou para o islã radical em 2014.

Esses casos bizarros geralmente envolvem jovens, o que Levin diz ser crucial. Quando as pessoas saem de casa pela primeira vez, elas estão procurando uma identidade. Algumas pessoas com problemas psicológicos podem acabar sendo atraídas pro radicalismo. Levin lembra de um amigo antigo que se tornou um cristão renascido e mudou completamente de vida – um exemplo de alguém que encontrou uma ideologia radical "elevada".

"Pessoas saudáveis geralmente não abraçam o radicalismo", disse Levin. "A diferença de se juntar a um grupo extremista no passado e agora, com a internet, é que hoje você pode colocar várias características antissociais no seu prato, o que pode não ter uma consistência ideológica, mas tem consistência psicológica. As pessoas se juntam a filosofias para se sentirem confortáveis de certa maneira, mesmo que essas filosofias sejam tóxicas."

Tradução: Marina Schnoor

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