Jamel Shabazz dá seu conselho à próxima geração

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Esta matéria foi originalmente publicada na Everybody Street é obrigatório para qualquer um remotamente interessado em fotografia de rua, Nova York ou outros seres humanos. Jamel Shabazz — um dos 13 fotógrafos icônicos apresentados no filme — é um estudioso apaixonado por essas três coisas. Em Everybody Street, o nativo do Brooklyn compartilha histórias por trás de seu trabalho mais aclamado: retratos de jovens novaiorquinos negros. As fotos foram feitas nos anos 80, muitas vezes no próprio bairro de Shabazz, Flatbush, ou no movimentado centro do Brooklyn.

Shabazz não registrou apenas a Nova York daquela época — os vagões do metrô cobertos de grafites elaborados, a Times Square cheia de cinemas baratos —, mas os novaiorquinos daquela era. Essas imagens ocupam um espaço mágico entre documentário e retrato de moda, parte da razão para ele ter se tornado tão querido na indústria da moda. (Considerando que sua última coleção apresenta muito dos mesmos estilos fotografados por Shabazz nos anos 80 — chapéus cata-ovo, calças coladas, correntes douradas e casacos invejáveis — não é de se admirar que Marc Jacobs tenha hospedado recentemente a noite de autógrafos do fotógrafo.) Mas por mais icônicas e importantes que essas fotos tenham se tornado, retratos posados não são o único estilo de Shabazz.

Semana passada, Shabazz lançou seu novo livro Sights in the City. O trabalho reúne mais de 100 imagens que Shabazz fez durante quase quatro décadas, muitas delas inéditas. Enquanto algumas das fotos são retratos posados, o livro apresenta principalmente fotos espontâneas das ruas. Shabazz encontra momentos de humor, pathos e magia em parques, protestos e desfiles. Ele está eternamente minerando o ouro entre os caos alquímico de Nova York, e enriquecendo todos nós no processo. Para celebrar Sights in the City, falamos com ele sobre Everybody Street, redes sociais e Mary Ellen Mark.

VICE: Sights in the City começa com uma entrevista entre você e Cheryl Dunn. Como Everybody Street moldou sua abordagem para fazer esse livro?
Primeiro e principalmente, sou muito grato a Cheryl por me convidar para compartilhar meus pensamentos nesse documentário. Depois de ver Everybody Street, percebi que meu segmento em particular era um tanto limitado no que dizia respeito à minha visão geral da fotografia de rua. Muita dessa abordagem se centrava em pedir permissão aos temas para fotografá-los. Em retrospecto, eu teria uma perspectiva mais equilibrada do tema em imagens posadas ou não, junto com a questão de pedir o consentimento de alguém. Dito isso, senti que era hora de lançar uma monografia inteiramente devotada à fotografia de rua de Nova York — um livro que desse ao espectador uma visão mais abrangente das minhas práticas. Como a conversa sobre fotografia de rua foi abordada inicialmente pela Cheryl em seu documentário, achei que seria bom tê-la para um questionário.

Em Everybody Street você discute sua abordagem para fazer retratos — criando uma troca alegre e empoderadora entre você e seus temas através do diálogo. Ainda assim, Sights in the City consiste de muitas fotos não posadas. Como você aborda esse estilo mais espontâneo de fotografia de rua?
Ótima observação! Meu trabalho se divide igualmente entre minhas imagens tradicionais posadas e capturas espontâneas nas ruas. Em todos os meus trabalhos publicados, você vê uma combinação dessas duas práticas. Meu pai, que foi meu principal instrutor de fotografia, nunca gostou de imagens posadas e me criticava duramente quando eu as mostrava para ele. Ele dizia que era melhor se focar em capturar "momentos decisivos". Prestei atenção às instruções dele, mas sempre fui fiel a criar imagens posadas, porque era algo que eu gostava de fazer e uma reflexão da troca que eu tinha com meus temas. Então, nos 35 anos ou mais que venho fazendo essas imagens, busquei criar dois corpos diferentes de trabalho, consistindo em imagens posadas e não posadas. [Tenho favorecido] mais imagens espontâneas nas minhas práticas recentes. A abordagem é quase a mesma: estar com a minha câmera pronta e ser observador e respeitoso.

Esse livro cobre quase quarenta anos. Em uma das fotos, tirada em 2010, um grupo do programa 106 & Park está vestido no estilo dos anos 80. A moda é cíclica, mas parece estranho para você — como um documentarista tão vital da expressão sartorial da era — ver esses estilos ressurgindo tantos anos depois?
Acho muito interessante ver estilos do passado ressurgindo. Nas minhas trocas com os jovens que abraçam o estilo retrô, descobri que eles têm uma conexão e uma apreciação profunda da moda dos anos 80, até o ponto em que muitos deles dizem que gostariam de ter vivido naquela época. Outros me disseram que abraçaram esse modo de se vestir parcialmente porque seus pais usavam estilos similares. Então quando vejo esse estilo retrô, meu coração se aquece sabendo que os estilos e a moda da minha era ainda são muito apreciados. Além disso, vários adultos da minha geração — muitos com 40, 50 anos agora — ainda usam estilos dos anos 70 e 80. Para eles, isso significa se apegar a um momento no tempo que ajudou a moldar quem ele são.

Você incluiu uma foto de Mary Ellen Mark, que também aparece em Everybody Street, em Sights in the City. Por quê?
Mary Ellen Mark foi uma das melhores fotógrafas de rua da história. Cruzamos nossos caminhos nas ruas em várias ocasiões, da Parada do Dia das Índias Ocidentais no Brooklyn a várias festas públicas na cidade, onde ela sempre estava trabalhando em sua mágica. Fui introduzido ao trabalho dela no final dos anos 70, quando li uma matéria sobre ela na Time Life. Foi ali que me familiarizei com o estilo e a prática dela. Eu apreciava os temas que ela tinha optado por documentar, das crianças pobres de Seattle a gêmeos. O amor entre ela e seus temas era aparente, e eu a admirava por mostrar isso. Mary Ellen Mark era muito dedicada a seu ofício e também muito durona.

Lembro de um incidente em particular vividamente: um dia ela apareceu enquanto eu estava fazendo o retrato de um casal no Harlem e tentou tirar a mesma imagem. Eu a cutuquei delicadamente no ombro para mostrar que eu não apreciava que ela tirasse uma foto dos temas que dei duro para convencer a posar para mim. Ela ia casualmente fazer a mesma imagem, e eu não gostava quando faziam isso. Então quando a cutuquei, para minha surpresa, ela me empurrou de volta, sem nem pensar. Poderia ter virado uma briga, mas deixei passar e mais tarde faria o retrato dela que você vê em Sights in the City.

Você já falou sobre o poder e a importância da fotografia e sua relação com a produção da memória. Você sente que essa relação mudou na era digital?
Hoje em dia as memórias são infinitas, diferente de quando cresci, quando poucas pessoas tinham câmeras descentes e habilidade para fazer boas imagens. Hoje, com o avanço da tecnologia e redes sociais, a produção de imagens e compartilhamento é um aspecto muito importante do cotidiano. O que acho mais interessante nisso é que há um interesse na fotografia mais profundo que nunca antes, e tenho visto muitos trabalhos bons. Agora quase todo mundo pode ser um narrador. E o que estou vendo é que há incontáveis histórias sendo contadas por esses fotógrafos novatos. Então eu abraço e saúdo essa nova geração de produtores de imagens.

Você também já discutiu como seu serviço militar na Alemanha impactou sua vida de volta no Brooklyn — que quando voltou nos anos 80, você sentiu que precisava ajudar outros jovens a focar suas energias em algo além de comportamento destrutivo. Que conselho você tem para compartilhar com os jovens de hoje?
Meu conselho para os jovens é se preparar para o futuro. Desenvolva um conjunto de objetivos e busque alcançá-los, e trabalhe para achar um mentor que possa te guiar até lá. Todos fomos abençoados com dons internos, então busque dentro de você e ache essa paixão, a desenvolva, a molde. Acredito que todos fomos colocados neste mundo por uma razão. Vamos trabalhar com muito zelo para criar um legado que possa inspirar e tornar o mundo um lugar melhor.

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Todas as fotos cortesia de Jamel Shabazz.

Tradução: Marina Schnoor

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