Como aprendi a amar minha barriga do jeito que ela é

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Esta matéria foi originalmente publicada na propagandas "conscientes" e campanhas de positividade tendem a mostrar mulheres com coxas maiores, figuras mais cheias, bundas grandes e quadris mais largos. E tudo bem. Mas até que a gente deixe as barrigas entrarem na brincadeira, temos um longo caminho pela frente quando se trata de quebrar padrões de beleza problemáticos.

Claro, há modelos plus-size com barriga, como Tess Holiday (proclamada a "primeira supermodel tamanho 56 do mundo" numa capa de 2015 da People, e ela só tem visto mais sucesso merecido desde então). Mas essas modelos existem num número muito menor que modelos com abdome visível. O que me faz sentir, como sempre, que não me comparo a elas, mas agora é pior, porque querem que eu sinta que finalmente posso.

Me refiro a meu tipo de corpo como "grávida de seis meses eterna". Quando eu ainda dava a mínima para isso, toda tática para emagrecer se provou inútil para me livrar da pança. Minha família tentou desesperadamente me ajudar — no meu aniversário de 18 anos, minha mãe me deu uma inscrição na academia Curves, achando que isso era algo que eu realmente queria. O que é irônico, claro, considerando que meu tipo de corpo é altamente determinado pela genética, como geralmente acontece.

A maioria das mulheres da minha família são membros do clube da pancinha. Mas isso nunca me impediu de me culpar pela minha barriga — admito que quando comecei a abraçar essa história de positividade corporal e minhas próprias curvas, a única coisa que eu realmente queria era me livrar da minha barriga. Era o albatroz agarrado na minha cintura. Eu comia só quinoa e repolho e ficava imaginando por que ela não me deixava em paz.

Minha barriga era algo que eu tentava esconder em fotos. Eu planejava a roupa que ia usar com isso em mente. Eu achava que esse era um comportamento OK desde que eu tivesse orgulho do resto do meu corpo — todo mundo tem alguma coisa em si que gostaria de mudar, não importa quão confiante a pessoa se sinta com o resto, certo? Mas depois de uma reflexão aprofundada, entendi exatamente por que eu odiava minha barriga (literalmente): era a única coisa que me impedia de parecer com aqueles inescapáveis corpos plus-size estampados em todo lugar desde o começo da década. Eu devia amar meu corpo, mas ainda não era o tipo "certo" de gorda.

"Eu devia amar meu corpo, mas ainda não era o tipo "certo" de gorda."

Sarah Murnen, psicóloga social e professora de estudos de gênero da Kenyon College em Ohio, que estuda a sexualização da mulher nos últimos 25 anos, disse que acredita que o movimento de "positividade corporal" não deu lugar realmente à ascensão dos corpos gordos. Em vez disso, o movimento colocou os holofotes sobre o que ela chama de "ideal curvilíneo", um corpo maior, mas só nos lugares certos. "O ideal curvilíneo ainda é sobre ser sexy", ela explicou.

A questão é que esses corpos curvilíneos geralmente são vendidos como um passo progressista para as mulheres, enquanto ainda consegue excluir corpos como o meu (e vários outros também). Isso não significa que devemos parar de promover esses corpos — até a última década, o ideal magra-palito era tudo que víamos na TV e nas revistas.

Mas seria legal ver ainda mais inclusão, e essa inclusão tem que vir de nós, mulheres que não se encaixam nesse molde plus-size ideal. E o ideal não pode vir de empresas com um produto para vender ou publicações tentando parecer descoladas. E enquanto algumas pessoas argumentam que sexualizar a barriga (ou qualquer outro aspecto "não desejável" do corpo feminino que não estamos promovendo hoje) é tão problemático quanto, o fato continua sendo que precisamos analisar melhor como diferenciamos objetificação sexual e empoderamento.

Não podemos ter vergonha de querer nos sentir desejadas, e não é errado querer atenção sexual — eu desejo isso praticamente o tempo todo. No passado, tentei conseguir isso forçando meu corpo num ideal plus-size. Eu escondia minha barriga (e minhas estrias, celulite e pêlos) porque continuava a ter medo de como os homens os veriam isso. Não era empoderador, porque eu ainda estava dando poder para o que eu sentia que os outros queriam ver do meu corpo. Se a coisa realmente dependesse de mim, minha barriga seria a estrela do show.

"Me sinto gostosa. E me sinto gostosa nos meus próprios termos."

Agora eu me apresento com uma pança livre. Minha barriga não está mais cativa. Tenho exposto meu corpo, com barriga e tudo.

Me sinto gostosa. E me sinto gostosa nos meus próprios termos. Foda-se se as pessoas não gostam do que veem. Se você não gosta, então não estou tentando te comer, então sua opinião é irrelevante.

Claro, as pessoas vão ser escrotas. Se aprendi alguma coisa sendo uma mulher com opinião na internet, é que as pessoas vão dar duro para cagar na sua cabeça. Mas se apoiarmos umas às outras em nossas tentativas de mudar as coisas — se estimulamos umas às outras mostrando nossos corpos "não-convencionais" — a negatividade vai se afogar até que nossos corpos sejam convencionais.

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Foto por Megan Koester.

Tradução: Marina Schnoor

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