A história do primeiro (e único) museu de arte LGBTQ do mundo

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No topo: Chelo Silent Film Star por Luna Luis Ortiz, 1999. Cortesia Leslie-Lohman Museum of Gay and Lesbian Art.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .

É uma responsabilidade e tanto ser o primeiro e único museu dedicado à arte LGBTQ do mundo. É só perguntar ao Leslie-Lohman Museum of Gay and Lesbian Art de Nova York.

Com a concepção do público sobre "queer" constantemente evoluindo, o museu teve que acompanhar o ritmo, refletindo essas fronteiras mutantes em sua coleção permanente em expansão. Fundada 50 anos atrás pelos parceiros Charles Leslie e Fritz Lohman, a coleção abrange séculos, hoje totalizando mais de 30 mil objetos. E continua crescendo. Semana passada, depois de uma expansão para uma loja adjacente em sua sede no SoHo, em Nova York, o museu reabriu com uma nova exposição chamada Expanded Visions: 50 Years of Collecting.

A exposição apresenta a história da arte queer combinando obras de artistas famosos e outras de artistas menos conhecidos. Em vez de estritamente cronológica, Expanded Visions está organizada tematicamente, revelando uma das maiores forças da coleção: a oportunidade de rastrear tendências da criatividade LGBTQ através de séculos. Essas seções temáticas incluem autorretrato, o relacionamento entre a polícia e as pessoas LGBTQ não-brancas, a resposta à pandemia de AIDS, e surrealismo e construção de reinos alternativos queer-friendly. Mais que a arte em si, a exposição atua como um lembrete histórico do movimento contemporâneo pelos direitos LGBTQ — seus altos e baixos, e revelações surpreendentes que podem ser descobertas vendo décadas queer lado a lado.

A VICE falou com Gonzalo Casals, o novo diretor do museu, sobre a história da coleção permanente do Leslie-Lohman, seu futuro e a importância da arte queer na sociedade.

A entrevista foi editada para melhor compreensão.

Trans-Sissi de Oree Holban, 2015.

VICE: A coleção permanente do Leslie-Lohman tem uma história impressionante que, de várias maneiras, se cruza com o movimento moderno pelos direitos LGBTQ. Como a coleção começou?
Gonzalo Casals: A história da coleção está muito ligada à história do museu — os interesses de Fritz [Lohamn] e Charles [Leslie], além da história recente da comunidade LGBTQ. Logo depois de Stonewall, Charles e Fritz começaram a expor trabalhos de artistas LGBT em seu loft no SoHo, mas isso ia além de expor trabalhos — era sobre apoiar os artistas e construir uma comunidade naquele momento da história. Não havia muitos lugares onde você podia se reunir com outras pessoas e ser você mesmo. Acho que eles entendiam de maneira muito intuitiva que a arte pode ser uma ferramenta para unir pessoas. Então eles começaram a colecionar trabalhos.

Sem ser muito pessoal, Charles me disse que quando eles se conheceram, uma coisa que perceberam que tinham em comum é que estavam lentamente colecionando obras. Foi uma das coisas que os ligou como casal. Isso começou de um entendimento muito pessoal e significativo do poder da arte.

Como a coleção foi ganhando mais significância durante a epidemia de HIV/AIDS?
Como a antigo diretor Hunter O'Hanian dizia, houve várias reações à pandemia de AIDS – você teve o GMHC [o Gay Men's Health Crisis, uma organização de ativismo de HIV/AIDS], que viu a necessidade de serviços médicos e sociais; o ACT-UP [outra organização ativista de HIV/AIDS], que incorporava a responsabilidade política; e Leslie-Lohman, que viram uma geração inteira de artistas morrendo. E sua arte e cultura visual iam morrer com eles. As famílias dos artistas que morriam limpavam seus apartamentos e jogavam suas obras na rua. Parte da nossa coleção são de obras descartadas por outras pessoas.

Logo depois, em 1987, Charles e Fritz começaram a formalizar o trabalho que vinham fazendo para transformar sua coleção numa fundação e museu. Levou quatro ou cinco anos para que eles fossem reconhecidos pela Receita Federal norte-americana como fundação, porque a palavra gay estava no título. Enquanto o lugar se tornavam mais um espaço público, eles foram assediados pela polícia e receberam reclamações de vizinhos, mas continuaram em frente para criar um espaço para artistas LGBT.

Untitled, por Jason Keeling, 2007.

A nova exposição, Expanded Visions, permite que o público veja uma variedade da propriedade atual da coleção, mas também reflita sobre como ela pode crescer. Como você acha que a coleção vai mudar no futuro?
Hoje, estamos estudando como podemos ampliar a visão de Charles e Fritz. É importante para mim e imprescindível para nós, como museu, explorar a ideia de interseccionalidade – não apenas olhando como a sexualidade e gênero afetam a criação de imagens, mas também o papel de etnia, raça e classe social nisso. É um diálogo importante com que o museu pode contribuir.

De várias maneiras, esse é um objetivo pessoal para mim. Cheguei da Argentina 16 anos atrás. Me tornei uma minoria – eu era um imigrante queer. Por alguma razão, mesmo sendo assumido, eu me ligava mais à identidade latina. Mas havia momentos em que meu lado queer aparecia. Só recentemente comecei a pensar sobre interseccionalidade e o que significa ser um imigrante latino queer. E então surgiu essa oportunidade de emprego.

Além do diálogo intergeracional, a censura se mostra em peso na exposição, revelando o policiamento consistente do desejo entre pessoas do mesmo sexo e do corpo queer.
Acho isso muito interessante. Há toda uma tradição de nudez masculina no cânone artístico ocidental desde os gregos. E aí, nos anos 40 e 50 nos EUA, a nudez masculina se tornou política, a razão para um artista ser preso. Isso diz muito sobre a história recente do nosso país e também ajuda a começar um diálogo sobre o que está acontecendo agora.

Afro Muse, por Michalene Thomas, 2006/2014.

Fico feliz que você tenha falado sobre começar um diálogo – Expanded Visions apresenta a arte queer tanto social quanto politicamente. Qual você acha que é o lugar da arte queer na sociedade e que papel você acha que o museu está tomando para si?
O museu e sua coleção são uma plataforma. Ele cria um espaço físico e intelectual para pessoas LGBTQ se verem espelhadas na sociedade. Há um empoderamento nisso. Elas podem vir até um lugar e encontrar pessoas que pensam como elas, e ver que não são as únicas.

Se o visitante não é uma pessoa LGBTQ, essas obras e a instituição podem ser uma janela para o outro. Se ele tem um parente que não entende muito bem, um amigo, conhecido, se não tem ninguém assim em sua comunidade mas está curioso, não há nada melhor que arte para ajudar a tirar um sentido das coisas. Ver uma exposição como Expanded Visions, com sua diversidade e história, oferece a possibilidade de se abrir para uma conversa. A exposição é sobre diálogo.

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Tradução: Marina Schnoor

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