Amigos, namorados, colegas — até que o spoiler os separe

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>>>> Não custa avisar: esta reportagem contém spoilers <<<<

Spoiler. Esta pequena palavrinha, derivada do verbo inglês “to spoil” (estragar), é motivo de terror e drama na internet. Velho conhecido de fãs de séries, filmes e até de livros, o spoiler é aquela informação antecipada de alguma história, capaz de desfazer a surpresa de quem a acompanha. A prática de adiantar o conteúdo de tramas ganhou grande proporção nos últimos anos com a internet, causando uma verdadeira paranoia e caça às bruxas entre os fãs de cultura pop e espectadores de séries populares como Game of Thrones, The Walking Dead ou Orange Is the New Black.

Um dos problemas dos spoilers é que eles mudam completamente a maneira de se assistir a um filme. O estudante Marco Luiz Netto, de 21 anos, viu no Youtube uma crítica de As Aventuras de Pi que contava que o tigre e o homem são a mesma pessoa, e que tudo não passa de uma metáfora, informação que aparece somente no finalzinho do longa. “Na hora em que comecei a ver o filme, senti que isso havia tirado toda a expectativa de chegar ao final. O longa passou a não ser mais tão atrativo e acabei desistindo de ver”, disse.

Algumas vezes, o segredo revelado antes da hora pode até abalar amizades. O estudante Kaique Lopreto, 21, descobriu através de um amigo o desfecho de Harry Potter e o Enigma do Príncipe. “A principio, achei que era mentira, não acreditei que ele me contaria o final, mas, quando vi o filme, vi que era verdade. Fiquei muito bravo.” O estudante então decidiu ler todos os livros da saga para não ser novamente surpreendido e cortou relações com o amigo. “Ficamos um bom tempo sem nos falar, só fizemos as pazes depois de uns bons meses.” Os spoilers podem ser tão “do mal”, que um aplicativo foi criado para as pessoas enviarem revelações de Game of Thrones aos seus inimigos.

Victor Tubandt, 22, cultivou um “inimigo” — e uma vingança — atrelados a um spoiler. Ele não engoliu o fato de ter sido vítima da antecipação de uma informação e, após um amigo contar o final letal de Breaking Bad, decidiu que iria revidar na mesma moeda. A espera durou dois anos, até que, em uma conversa, descobriu que o amigo estava acompanhando Demolidor, da Netflix, que ele já tinha acabado de ver: “Aguardei a oportunidade e soltei um spoiler propositalmente”.

Spoilovers

Mas há aqueles que também gostam de spoilers, como é o caso de Karla de Campos, 23, que diz que não reage bem a surpresas e prefere ter o controle sobre a história. “Começou quando saiu o sexto livro do Harry Potter. Fiquei maluca para saber se o Dumbledore tinha morrido de fato e quando veio o sétimo livro, devorei de trás para a frente. Comecei pelo capítulo final e fui voltando”, narra Karla, que estuda Letras na USP.

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O professor de mídia e estudos culturais Jonathan Gray, da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, aborda o tema no livro Show Sold Separately: Promos Spoilers and Other Media Paratexts (2010), em que defende a tese de que existe um consumo de spoilers. “Há pessoas que apreciam spoilers de filmes de terror, mesmo quando não gostam de assistir a esse gênero. Elas odeiam a experiência de estar com medo, mas amam os contos de horror, por isso gostam de ler sobre eles antes. Outras gostam de saber o que está acontecendo em histórias complexas, e leem antes para não gastar todo o seu tempo tentando descobrir o que está acontecendo”, afirma Gray ao site de VEJA.

Spoilers também podem ser úteis para aqueles que querem saber o que está acontecendo na cultura popular, mas não conseguem acompanhar todos os programas. “Nenhum de nós pode ver tudo, também, por isso às vezes spoilers desempenham o papel de dar um gostinho de algo antes da pessoa se comprometer a assistir mais”, afirma Gray.

De olho nesse público que curte spoilers, a Netflix criou a página Spoil Yourself, em que, a cada acesso, é exibido aleatoriamente o final de um filme ou série do catálogo do serviço de streaming.

Relação ambivalente

Karla realmente ama spoilers, e fica ansiosa para saber os desfechos, mas entende quando as pessoas reclamam e reconhece que ela mesma já recebeu informações que não queria. “A última vez que chateei alguém com spoiler foi com o filme Como Eu Era antes de Você. Minha irmã já havia lido o livro, então achei que podia comentar sobre algumas diferenças entre as obras e ela ficou mega irritada. Também já recebi vários spoilers que me magoaram. Um deles foi de Star Wars – O Despertar da Força (2015). Eu fui à sessão da meia-noite na estreia e, um pouco antes de entrar, uma colega de trabalho me falou que Han Solo morria”, confessa.

Brigas por spoilers são uma constante nas conversas dos amigos de Karla. Conhecendo a ansiedade da estudante, um colega a fez provar do próprio veneno. “Ele me contou, quando eu estava no primeiro episódio, que uma personagem de Orange Is the New Black morria esfaqueada, no penúltimo capítulo. Eu fui ver desesperada. Quando cheguei ao episódio, descobri que fui enganada. Fiquei indignada e me senti traída e, mais do que depressa, peguei o celular para xingar. No final, rimos muito da história”, se diverte, relembrando a pegadinha.

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Segundo a professora de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense, Thaiane Moreira de Oliveira, quando se analisa mais a fundo a reação das pessoas aos spoilers, se identifica que muitas se sentem inferiores como fãs ao descobrirem algo que não sabiam. “É um reconhecimento de que, dentro de uma hierarquização, eles não estão no topo da estrutura de uma disputa por quem tem mais domínio e conhecimento sobre a produção com a qual já têm uma relação de afeto”, afirma.

A professora conta que ela mesma é uma amante de spoilers e, desde a adolescência, possui uma relação de amizade com eles. “Minha mãe comprou O Caso dos Dez Negrinhos, da Agatha Christie, mas meu pai pegou o livro para ler antes dela. Um dia, ele voltou injuriado do trabalho, pois alguém escreveu em um pedaço de papel e colou na capa do livro quem era o assassino. Semanas depois, minha mãe começou a ler e achou o tal papel e mesmo assim foi até o fim. Fiquei muito curiosa e, quando abri o livro, lá estava o papel amarelado com o spoiler escrito décadas atrás. Resolvi ler também para descobrir se a fica era verdade. E era. Isso não tirou a minha vontade de ler até o final e muito menos minimizou a leitura da obra.”

Rir para não chorar

Apesar de todas as intrigas, há aqueles que ainda conseguem fazer humor com o assunto, inclusive nas redes sociais, o maior campo-minado dos spoilers. É o caso do publicitário Victor Caldeira, 26, que, junto com os amigos Leandro e Tamara, criou a página Spoiler de Hoje, no Facebook, com tom cômico. “Eu queria brincar com esse tabu que é o spoiler, ao revelar, na rede, a chave do enredo na menor quantidade de texto possível”, explica.

A brincadeira fez sucesso e a página já coleciona mais de 117 000 curtidas. Caldeira também acredita que realmente existam pessoas que gostam muito de spoilers — mas seriam as mesmas que se deleitam em serem estraga-prazeres. Justamente por estragar prazeres alheios, o rapaz já recebeu “elogios negativos” destinados às mães dos moderadores do perfil. “Já recebemos notificação do produtor responsável por um filme, solicitando a remoção do conteúdo. Atendemos o pedido, como atenderíamos a qualquer outro. Agora, se você fica bravo se falarem que o Titanic afundou ou que a noiva matou o Bill, me desculpa, mas o problema não está na página ou no spoiler, está em você”, provoca.

Trabalhar com spoilers fez com que os três amigos recebessem informações sobre muitas coisas que ainda não viram, mas dizem não se incomodar com isso. “Descobri o final de How I Met Your Mother quando estava na penúltima temporada. O que fiz? Corri para ver como aquilo acontecia. O ‘como’ é sempre mais interessante do que ‘o quê’. Só não gosto do ‘spoiler roteirista’, aquele que descreve passo a passo da cena. Não seja esse cara”, explica, ao reclamar da maneira como soube, com detalhes mínimos, da morte de Han Solo.

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Fenômeno histórico

O spoiler não é um fenômeno completamente novo. Afinal, a informação de que Luke era filho de Darth Vader e Lea, a sua irmã, já era motivo para chocar os desavisados na década de 1980. Assim como descobrir que Bruce Willis estava morto desde o começo alterou, para alguns, toda a experiência de ver O Sexto Sentido (1999). Mas o choque das revelações foi amplificado pelas redes sociais, estas sim um acontecimento recente. “As pessoas sempre gostaram de contos com finais conhecidos. De uma forma ou outra, os spoilers sempre existiram, embora talvez não fossem chamados assim”, explica Jonathan Gray.

Segundo André Fagundes Pase, professor da Pós-Graduação em Comunicação Social da Famecos/PUCRS, antes os fãs discutiam eventos e trocavam informações, porém, em outro ritmo e sem compartilhar e difundir os dados em tempo real. “Isso era explorado bem antes da internet, com as revistas que antecipavam as tramas, por exemplo, como o clássico TV Guide americano. No Brasil, sempre tivemos isso com as novelas e as revistas e suplementos de TV.”

Entre o TV Guide americano e as redes sociais que metralham e são metralhadas de spoiler, se passaram alguns eventos que contribuíram para a difusão da cultura do spoiler, durante as décadas de 1990 e 2000. “Primeiro, veio a ascensão do ‘filme quebra-cabeça’, que confundia o público até o fim, como os de M. Night Shyamalan, Os Suspeitos (1995) e Amnésia (2000), que aumentavam a curiosidade e o debate em torno das tramas”, conta. “Em seguida, foi a ascensão da serialidade, principalmente na televisão. Lost desempenhou um papel fundamental, já que a narrativa possui muitas reviravoltas e as pessoas se divertiam discutindo cada uma delas. Com a mudança dos padrões de visualização, mais uma vez Lost apresentou um avanço, pois pessoas começaram a assistir ao programa também no site da ABC, ou logo em seguida, via download. Tudo era discutido na própria noite de exibição ou no dia seguinte. Já hoje em dia, é comum as pessoas demorarem semanas, ou um ano para verem um episódio”, analisa. Nesse intervalo, a internet é inundada de informações, nem todas desejáveis.

O formato atual de exibições simultâneas de uma mesma série nas TVs de diversos países e os serviços de streaming também mudaram a relação dos fãs com as antecipações. “Quando as séries e filmes chegavam com atraso, os fãs buscavam saber antes as informações. Na época da série Lost era assim, e falamos de poucos anos atrás. A fase atual, marcada por exibições simultâneas, como Game of Thrones transmitida ao mesmo nos Estados Unidos e em outros países, e com as maratonas introduzidas pela Netflix, é diferente. Há mais pessoas — e mais fãs, portanto — acompanhando algo que pode ser resfriado pela antecipação de um conteúdo. Em paralelo a isso, a oportunidade de ter temporadas, episódios e séries disponíveis faz com que cada pessoa tenha o seu próprio ciclo para acompanhar e esteja sempre sujeita a receber um spoiler — uma falta de noção dos outros que quebra com o seu ritmo”, analisa Pase.

Hoje, a profusão de spoilers é tão grande que até produtos relacionados a uma produção podem antecipar conteúdos, como aconteceu com brinquedos do filme Capitão América: Guerra Civil, que revelaram que o Homem-Formiga ficaria gigante. Por outro lado, algumas empresas redobraram o cuidado para não deixar escapar informações relevantes antes da hora.

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Não existe propaganda ruim

Para os produtores de uma série, um spoiler não é de todo mau. Que o digam os autores das novelas: há décadas os folhetins devem seu sucesso à antecipação de acontecimentos da trama. Ciente disso, Aguinaldo Silva passou Império, sua última trama na Globo, alimentando seu Twitter e seu blog com informações sobre capítulos que ainda iriam ao ar. Até o desfecho da novela — a morte do protagonista, o Comendador José Alfredo (Alexandre Nero) — foi anunciada por ele em uma entrevista, horas antes de ser exibido. A divulgação gerou burburinho — e garantiu audiência. “Lost trabalhava muito bem com isso, a maneira como provocava o público e estimulava spoilers foi algo que ajudou a manter a audiência. Essa noção do que pessoas conectadas podem fazer deu pistas para novas produções. A reverberação de um fato serve como termômetro para os roteiristas, seja vendo a reação online ou como repercute”, afirma Pase.

A questão é como despertar o interesse sem chatear os que não gostam de spoiler. “Desenvolvemos conteúdos estratégicos, com o objetivo de criar expectativas em torno do que acontecerá em determinado episódio. Falamos que terá alguma surpresa ou algum acontecimento bombástico no episódio, mas sem falar o que é”, diz Silvia Elias, diretora de conteúdo local da Turner do Brasil – programadora responsável por canais pagos como Warner Channel, TNT e Space. Ainda que a Turner retenha informações, basta um olhar atento aos perfis de seus canais nas redes sociais para obter conteúdos extraordinários: é impossível controlar os comentários de fãs. “Procuramos não censurar os usuários mas também apaziguar discussões que envolvam ofensas”, diz Silvia.

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Estragou tudo?

Em maio de 2016, a revista Vulture realizou uma pesquisa em que 5.200 leitores opinaram sobre quando seria permitido divulgar spoilers nas redes sociais. O resultado: 22% avaliaram que finais de filmes podem ser discutidos imediatamente, enquanto outros 26% acham justo esperar pelo menos o fim de semana de estreia acabar, e apenas 6% consideraram que nunca se deve revelar um final. Já sobre séries de televisão, 53% dos entrevistados não veem problema em discutir acontecimentos no próprio dia em que foram ao ar; enquanto 10% preferem esperar uma semana para falar qualquer coisa; e somente 3% jamais abrem a boca.

A grande verdade é que séries, livros e filmes são mais complexos do que um grande acontecimento no arco final. “Penso que uma verdadeira boa história vai continuar sendo boa, não importando se você sabe o que esperar ou não”, afirma Gray. Em um mundo onde tudo pode se espalhar tão rapidamente, cabe aos produtores focarem em tramas bem construídas que não serão afetadas por um ou outro spoiler. “Não levem as ficções tão a sério. E para aquele que realmente surta com um spoiler: procure se tratar”, aconselha Caldeira.


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