Deputados usam debate sobre preconceito a 'ex-gays' para falar de 'tratamento'

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Audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para ouvir relatos de 'ex-gays' em debate sobre preconceito se tornou palco para retomar a discussão sobre a possibilidade de tratar a homossexualidade. Embora o autor do requerimento que promoveu o debate, deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), tenha enfatizado que não há “cura gay”, já que não tem nenhuma doença, ele engrossou o coro dos que defenderam que a homossexualidade é um caminho com volta.

“A CID 10 ainda mantém a nomenclatura de transtorno mental para quem tem crise de identidade sexual. É preciso fazer um debate, audiências pelo País inteiro e vamos pressionar o conselho a nos ouvir. A intenção é cuidar dessas pessoas que têm transtorno e precisam ser atendidas. Como um conselho resolve algo que vai tratar da vida de pessoas e não passa por esta Casa. (…) Acredito que isso é modismo sim. Nós podemos reverter. Estão aí essas pessoas”, disse em referência aos convidados.


Para o vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, Rogério de Oliveira Silva, a audiência é o primeiro passo para a retomada da discussão de derrubada da resolução 001/99 do conselho, que define que a homossexualidade não constitui doença. A norma também estabelece que os psicólogos não podem favorecer a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas.

“O que está colocado aqui é uma estratégia de um grupo de deputados que querem reacender esse debate para derrubar essa resolução que trata da forma como nós da psicologia entendemos que o exercício profissional deva ser colocado."


Todos os cinco ex-gays ouvidos pelo colegiado relataram abuso sexual na infância, traumas e a maioria disse que recorreu a ajuda psicológica e à igreja para se “tratar”. Ex-lésbica, Raquel Beraldo contou que, depois de um tempo, entendeu que nunca tinha sido homossexual, mas que “foram situações da vida que a levaram a isso”. O pastor Robson Alves emendou dizendo que a “prática homossexual pela força de vontade e fé”.

O pastor Joide Miranda foi ainda mais contundente. “Posso provar para a sociedade que ninguém nasce homossexual. Essa é uma conduta aprendida que pode ser desaprendida. (…) Eu decidi abandoná-la. Hoje louvo a Deus, mas também precisei de ajuda psicológica com para me ajudar a curar as feridas da minha alma.”

Arlei Batista, também pastor, corroborou a tese de Joide: “Não nascemos homossexuais. Tivemos um processo de construa!ao da homossexualidade, o meu iniciou no ventre da minha mãe, que não queria ter filho homem”.

Bolsa ex-gay

Autodenominada psicóloga cristã, Marisa Lobo, conhecida por promover “terapia de conversão”, negou que tenha oferecido tratamento para ex-gays e pediu proteção aos que deixaram a “prática”. O deputado Sóstenes Cavacante (PSD-RJ), então, sugeriu que fosse criada a bolsa ex-gay, em referência ao bolsa família.

Líder da Bancada Evangélica, o deputado João Campos (PSDB-GO) voltou a defender o projeto de sua autoria que propõe a cura gay. De acordo com ele, o conselho, além de não ajudar, impede que outros o façam. “Não cabe a qualquer conselho alterar ou diminuir o texto constitucional e limitar o exercício de uma profissão.”

O deputado Marcos Rogério (PDT-RO) também fez uma ampla campanha para possibilidade de "tratamento". “Por que o Estado ampara cirurgia de troca de sexo e não ampara quem quer deixar de ser homossexual?”, questionou.

Feliciano insistiu que há um modismo no País e que os pais não sabem o que fazer. Ele aproveitoou para pedir aos demais deputados do colegiado cópias do vídeo da audiência e que eles espalhem o testemunho por todas as câmaras municipais. “Para que as pessoas possam ver da boca de quem viveu isso, que ninguém nasceu assim.”

Boicote

Deputados com histórico de luta em movimentos de direitos humanos e na comissão, como Érika Kokay (PT-DF) e Jean Wyllys (PSol-RJ) não compareceram à audiência e foram duramente criticados. Para Feliciano, eles não tiveram coragem de enfrentar o debate e se furtaram do direito de serem tocados pelos relatos. Ao Brasil Post, a deputada disse que não faria parte desse “escárnio”.
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