Cotas pra quê?

Foto: morgueFile
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A Universidade de São Paulo acaba de decidir adotar o Sisu como alternativa ao vestibular FUVEST. Das vagas que entrarão no novo sistema, algumas serão destinadas a estudantes de escolas públicas e, entre estas, uma parte destinada a "pretos, pardos e indígenas". Sim, haverá um pequeno sistema de cotas na USP.

O debate sobre cotas em universidades, quase sempre, segue um caminho muito difícil. Na minha modesta opinião, por pautarmos a discussão, na maioria das vezes, nos sujeitos mais diretamente envolvidos - os vestibulandos - e não no objeto em questão - a universidade.

A inclusão social é importante e reverte benefícios ao sujeito incluído, claro. Isso anima corações e mentes que apregoam a necessidade de alguma "justiça social", evidentemente. No entanto, pensando nos rumos da universidade, isso tudo é mais consequência que finalidade. A finalidade maior da inclusão, sendo franco, não pode ser outra que não melhorar a própria universidade, tornando-a, de fato, universal. E como ser universal se todos os alunos vierem de realidades muito semelhantes, com experiências e expectativas muito parecidas?

As cotas devem ser um meio, portanto, para levar a diversidade ao pensamento acadêmico - o que parece coerente se pensarmos em instituições públicas com uma função estratégica no desenvolvimento da sociedade. Se fosse a inclusão fosse fim e não meio, não faria sentido que os exames determinassem uma nota mínima, necessária para garantir que os futuros ingressos não afetem a "qualidade" dos cursos. Se a motivação das cotas fosse apenas a inclusão pela inclusão, não haveria necessidade de classificar os "melhores" do grupo incluído.

É claro que esse tipo de medida afeta indivíduos que se sentirão, com alguma razão, injustiçados. Para muitos, talvez seja um choque deparar-se com um mundo tão duro, em que suas vontades individuais podem ser postas de lado, em nome do tão vago quanto importante princípio do "bem comum". A partir desse choque, porém, algumas questões importantes podem se levantar. Uma delas é por que o número de vagas de qualidade no ensino superior é tão reduzido. Outra é por que o ensino técnico não surge com mais força como uma opção real para os jovens construírem um futuro digno. Outra ainda é porque a iniciativa privada não investe na formação de seus profissionais, delegando ao Estado a responsabilidade pela formação da mão-de-obra especializada (cadê a faculdade de Medicina do Hospital Albert Einstein?).

Citando o eterno Millôr Fernandes, "os objetos que caem sobre a nossa cabeça têm maior gravidade". Se o choque servir para questionarmos todo esse modelo, poderemos avançar todos. Universalmente.

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