Qual a semelhança entre a Rainha da Inglaterra, o Papa, você e seu dentista?

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Nós pensamos em imagens. Refletimos sobre imagens. Criamos e falamos com imagens. Quando sonhamos, não sonhamos um texto corrido, pois nosso cérebro foi formado assim. E em um mundo tão saturado de imagens, algumas se cristalizam. Só pelo fato de ler "Rainha da Inglaterra", por exemplo, um conjunto de imagens vem à sua cabeça, você as decodifica e cria um significado a partir disso. Tudo em milionésimos de segundos. E algumas destas imagens mentais são tão fortes, tão carregadas de significados que é muito difícil sair disso.

Por isso eu achei tão legal as fotomontagens da artista Cristina Guggeri, que brincam com a noção que temos de algumas pessoas e suas instituições quase sagradas. Neste trabalho, vemos o Obama, a Angela Merkel, o Putin, até o Dalai Lama e o Papa Francisco sentados no trono e fazendo as suas necessidades. Sim, xixi e cocô. É claro que eles fazem - como todo mundo. Mas ninguém os relaciona a isso. E é justamente a quebra da imagem que temos deles que o trabalho da artista propõe.

A mesma sensação eu tive quando vi a talentosíssima Flavia Garrafa no seu monólogo "Fale mais sobre isso", que se passa no consultório de uma psicóloga e se baseia, não apenas na interação entre terapeuta e paciente, mas principalmente no que um pensa sobre o outro, humanizando essa relação. E o mais legal: as grandes risadas da plateia aconteciam justamente quando a psicóloga quebrava a imagem que tínhamos sobre o "terapeuta" e soltava uma reflexão nada a ver com o paciente, do tipo "nossa, eu preciso comprar uma calça igual a essa".

Essa cristalização da imagem acontece em todas as profissões, inclusive na minha: dentista. Quando você pensa em "dentista" vem aquela "foto" na sua cabeça de uma pessoa limpinha, usando jaleco branquinho e cheirando a pasta de dente com luva de plástico. Errei?

Consequentemente, essa imagem se estende na relação do paciente com seu profissional de saúde. No consultório, o paciente muitas vezes não lembra que existe um ser humano do outro lado na mesa. É quase como se aquele ser de jaleco branco passasse toda a sua existência naquele consultório pronto para te servir quando você precisar. E isso pode levar a conflitos: "como ele pode me cobrar só porque viu a minha boca por uns minutinhos?" Ou "Como assim ele não trabalha na quarta de manhã? Eu só posso quarta de manhã!!!".

O paciente esquece que o seu profissional de saúde tem a sua vidinha, as suas dores de cabeça, as suas angústias e, naquele dia da sua consulta, ele pode estar, sei lá, louco para ir embora e ver "House of Cards" tomando uma cerveja.

Moral da história: faz bem para todo mundo - e para as nossas relações - lembrar que a Rainha da Inglaterra tem as suas necessidades, senta na privada e faz cocô. Porque todo mundo as tem, você, eu e até aquele cara de jaleco branco.

Em tempo: O espetáculo da Flávia fica em cartaz até o dia 25 de junho, no Teatro Livraria da Vila (Shopping JK Iguatemi). Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 - Vila Nova Conceição, São Paulo/SP. Ingressos: http://www.ingressorapido.com.br/evento.aspx?ID=38840

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