Ser lésbica X estar lésbica na cadeia

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O excerto a seguir é do livro Presos que Menstruam, de , Editora Record.

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Ser lésbica X estar lésbica na cadeia

O táxi estava na metade do caminho para Mauá e Marcela percebeu que alguma coisa estava errada. Os amigos estavam tensos. Não devia ser coisa boa o que estavam indo fazer. De repente, um deles dá voz de assalto pro taxista.

- Gente, não faz isso - ela tentou argumentar.

- Não, a gente vai! O cara bateu no nosso pai e vamos fazer ele se arrepender.

Pronto, tava metida em caso de limpar honra. Quando chegaram ao local, um dos rapazes deu uma arma na mão dela e disse que precisavam de alguém que segurasse o táxi para a fuga. Ela nem questionou. Continuou onde estava, com o revólver exatamente na posição em que o haviam colocado entre seus dedos, como decretava sua personalidade passiva. O taxista pareceu mais tranquilo de estar sozinho com ela e só tremeu quando ouviu os quatro tiros. A vingança dos rapazes estava cumprida e ele talvez só tenha sobrevivido por que Marcela intercedeu por sua vida.

Ela nunca explicou por que resolveu ajudar no assassinato. Não gosta de falar muito, nem de entrar em detalhes. Responde só o que lhe perguntam e, às vezes, foge de respostas diretas. Evita tocar as feridas. Quando conversa sobre os sofrimentos que teve, ri uma risada alta que aperta os olhos castanhos atrás dos óculos e balança os brincos compridos prateados nas orelhas.

Depois da narração breve do crime, diz que teve sorte com o depoimento do taxista. No entendimento dela, o homem percebeu que ela não participou do planejamento do assassinato e tentou ajudá-la a se safar. Ajudando ou não, Marcela foi condenada como cúmplice de homicídio e pegou nove anos e quatro meses de cadeia. Os amigos cumprirão trinta anos cada.

A família a amparou. Mandavam três ou quatro caixas de Sedex por mês com tudo de que precisasse e a visitavam todo domingo. O suporte que ela recebia gerou inveja entre as outras presas e Marcela passou a andar desconfiada e com medo de agressões. O sono era leve, interrompido, as sombras guardavam ameaças que ela não entendia. A solidão e o arrependimento fincavam a depressão cada vez mais forte no peito.

O alívio não veio por meio de pílulas, como o de Júlia, mas na ponta dos dedos e cantos dos ouvidos de Iara, uma detenta que a cobriu de atenção, segurança e companheirismo. A identificação entre as duas evoluiu para amizade, a amizade para afeto, o afeto ganhou pele, calor e cabelos entrelaçados. As noites vazias foram preenchidas por confidências, risinhos abafados entre cobertas. Iara a libertou de sua prisão interna e Marcela, que havia por toda sua vida se relacionado com homens, se apaixonou por ela.

- Na hora, você não ficou confusa com sua sexualidade? - perguntei para ela uma vez.

- Olha, eu tinha uma curiosidade. Então, juntou a fome com a vontade de comer e tá tudo certo -- ri. - Mas o que mais me motivou foi a carência. Tava muito carente. E, na minha opinião, as mulheres são muito mais atenciosas, porque a gente sabe da carência de cada uma, então fica tudo mais fácil. Acho que somos mais fiéis na dificuldade também.

A homossexualidade nas prisões femininas é consideravelmente maior do que nos presídios masculinos. Em 1983, um estudo1 já estimava que ela girasse em torno de 50%. Hoje, após uma relativa liberação sexual, o fortalecimento do movimento gay e o aumento da aceitação, os casos ficaram menos clandestinos. Isso não quer dizer, de maneira alguma, que as homossexuais cometam mais crimes, mas que, para as mulheres, ao menos na cadeia, a afetividade pode moldar - e, por que não, expandir - a sexualidade. São, em sua maioria, mulheres que se consideravam heterossexuais antes da detenção e afirmam que, ligadas pelo companheirismo, o apoio na depressão e no medo, se envolvem com outras mulheres. Nessas parcerias descobrem novos desejos e, às vezes, o amor. Algumas chegam a dizer que não são, mas "estão lésbicas".

Outra diferença com relação ao sistema masculino é que, enquanto a maioria dos homens se relaciona homossexualmente por meio da prostituição, do estupro e de aventuras passageiras, as mulheres constroem relações sólidas e de laços emocionais muito intensos. Comumente, duas mulheres envolvidas pedem transferência para a mesma cela - ao que as guardas fazem vista grossa e permitem - e compartilham tudo o que têm. O relacionamento de Marcela com Iara, por exemplo, durou um ano e quatro meses, tempo durante o qual as duas moraram juntas.

O estupro é raro. Solange, uma carcereira que trabalha na Penitenciária de Sant'Anna desde que ela passou a abrigar mulheres, diz que só uma vez soube de um caso de estupro, em que uma detenta foi violentada com um cabo de vassoura. Mas, o que ela corriqueiramente presencia são brigas violentas por causa de ciúmes. Por exemplo, algumas detentas, mesmo casadas com homens, têm seus casos dentro da prisão. Depois da visita dos maridos, aos domingos, não é difícil encontrar uma ou outra que apanhou da namorada.

- Tem aquelas uma que se envolve e assume, e aquelas que se envolve e não conta pra ninguém, é escondidinho. Ela tenta enganar o povo, né? - conta Vera. - Mas as que curte mulher mesmo são poucas. Tem aquelas uma que eles fala que é sapatão. Sapatão, pra mim, não existe. Sapatão é quem usa 45 e tem que mandar fazer um sapato especial. Não existe a palavra sapatão no dicionário. É as lésbicas ativas e as lésbicas passivas, né? Tem aquelas uma que a opção dela foi aquilo ali naquele momento na cadeia, tirar uma onda, um lazer, uma curiosidade. E umas que fica porque se sente ameaçada na cadeia. Porque se você é bonita, você incomoda. Se você é muito feia, você incomoda também. Se você usa uma blusinha particular e a minha é uma branquinha velha da casa, as meninas já leva você meio assim. Rola uma inveja. E elas pensa, tipo: "Se eu ficar com uma mulher, eu vou ficar mais protegida." Porque se mexer com a minha mulher, eu vou comprar, eu vou brigar, eu não vou deixar minha mulher brigar, vamos as duas junto.

Nos presídios masculinos, os laços mais fortes de lealdade são os criados pelas facções; nos femininas, pelos casamentos. E esse companheirismo extrapola a proteção e se estende para todos os campos da sobrevivência, inclusive aos bens materiais.

- Acho que uma quer cuidar da outra, cuidar das coisas da outra. Sei lá, ou tem interesse nas coisas da outra. Tipo: "Cê tem visita, eu num tenho, cê tem as coisas, eu num tenho, vô namorar com você, então. Aí nós duas come junta, usa sabonete, xampu. Não vou nem sofrer." Pra mim é tudo sem-vergonhice - opina Gardênia. - Dos treze anos que tô presa, nunca namorei mulher. Umas sapatonas já deu em cima, mas eu não quis.

Marcela acredita que só uns 30% das detentas podem dizer, como Gardênia, que nunca se envolveram com uma mulher. As táticas de sedução são variadas e, segundo Vera, as mais irresistíveis:

- No presídio, você conversa com alguém e já toma patada. Grossa. Aí, quando você não tá bem e conversa com alguém aquela conversa sadia, que te entende direitinho, que a pessoa passa quase o mesmo que você. Nossa! Acaba se apegando. Aí começa: tudo, tudo, tuuuuudo rola! E depois tem mulher que, quando ela quer conquistar, ela conquista. Mulher vira a cabeça. Vi-ra a ca-be-ça. Mulher quando chega ni você, não tem jeito. É uma lábia muito forte. Tipo: "Tô afim dela e ela não sabe, vou começar a pesquisar as coisas que ela gosta. Eu vou começar a chegar por esses pontos mais fracos dela, a carência dela." Quando ela vê já está envolvidíssima, atolada! Sem contar que os homens não visita e a gente precisa beijar na boca, precisa trocar carinho. Pra mim, carinho comigo mesma não funciona direito! - ri.

Hoje, o posicionamento dos funcionários em relação à homossexualidade é dúbio. Há aqueles esclarecidos e respeitosos, como a doutora Sílvia, médica do Butantã, que recomendou a uma mulher que sofria de TPM que arrumasse uma namorada.

- Ela vai te entender, te confortar. Ela só não pode ter TPM no mesmo dia que você.

E existem funcionários que repreendem os casos, torcem o nariz e dão às envolvidas apelidos maldosos como "chupa-cabras". Independentemente da opinião de cada empregado, o posicionamento oficial tem sido, há muitos anos, o de fazer um registro de má conduta no prontuário da presa que for pega em tal flagrante. Um exemplo é o prontuário de Fátima Costa que, em novembro de 1982, recebeu a seguinte anotação:

"A sentenciada Fátima Costa se encontrava na sua cela quando a sentenciada Flora dos Santos foi até lá buscar um shampoo. A sentenciada Fátima pediu que a sentenciada Flora praticasse atos indecorosos e a mesma aceitou. Neste momento elas foram apreendidas pela guarda do andar que as encaminharam [sic] para o escritório na presença da supervisora. Foram levadas para a cela até segunda ordem. Punição: Falta gravíssima, proponho oito dias de cela comum e quinze dias de isolamento noturno".

O preconceito tem raízes tão profundas que até supostos defensores dos direitos humanos, às vezes, se deixam complicar com suas declarações. Um caso marcante é o do jurista Rogério Greco que, em seu livro Direitos humanos, sistema prisional e alternativas à privação de liberdade, chega a defender que os presos conhecidamente homossexuais sejam isolados do restante da população carcerária, já que, "em regra, tinham vida promíscua (desde) fora do cárcere", e são, segundo ele, os maiores portadores de doenças sexualmente transmissíveis.

Heidi acredita que a maioria dessas mulheres, quando sai da cadeia, volta a se relacionar com homens. Para elas, trata-se apenas de uma situação temporária. Ela conta que isso, uma vez, gerou a revolta de uma das presas, homossexual assumida desde criança:

- Elas não são lésbicas, eu é que sou. Eu é que sei o que é ser lésbica. Elas não são e não podem usar o título!

Marcela, por sua vez, não tem receio nenhum de usar a nomenclatura:

- Não tem como eu me relacionar com homem hoje. Não sei o que mudou, mas depois que eu me envolvi com mulher, não quis mais saber de homem nenhum, elas são amantes muito melhores.



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