A missão dos senadores na Venezuela cumpriu seu objetivo: expôs que o Brasil apoia governos não democráticos

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A comitiva de senadores brasileiros liderados por Aécio Neve conseguiu o inimaginável: enfraquecer a presidente Dilma Roussef até mesmo em um aspecto que a maior parte dos brasileiros pouco se importa, a política externa. A tarefa de criticar Dilma está cada vez mais fácil. Em sua fase de mais baixa popularidade desde que assumiu em 2011, com índices de aprovação de apenas 10%, Dilma emite sinais de fatiga em todos os setores. A economia está descontrolada e a recessão é clara. As medidas impopulares se multiplicam com o aumento das tarifas públicas e impostos. Além de cortes significativos até mesmo em programas que eram 'carro chefe' do governo, como o Pronatec.

Neste cenário de claro enfraquecimento, até mesmo a política externa, área na qual a presidente pouco desenvolve esforços, mas que segue boa parte das linhas traçadas no governo de seu antecessor, tornou-se alvo não apenas da oposição, mas da população em geral.

A oposição brasileira montou uma arapuca na qual o Governo Federal e seu aliado venezuelano tinham poucas alternativas de escapar. Na missão estavam três senadores do PSDB - Aécio Neves (MG), Aloysio Nunes Ferreira (SP) e Cássio Cunha Lima (PB) -, dois senadores do DEM - Ronaldo Caiado (GO) e José Agripino (RN) - e Sérgio Petecão (PSD-AC). Seu objetivo era dar apoio a Leopoldo López, líder oposicionista ao governo de Nicolás Maduro.

Não há razão para se falar em intervenção. O próprio Partido dos Trabalhadores por diversas vezes manifestou-se, enquanto força política, em apoio a diversas lideranças sul americanas, como para o próprio presidente Maduro. O contrário também ocorreu, quando o Partido dos Trabalhadores recebeu apoio dos companheiros nas eleições brasileiras. Apoiar grupos políticos estrangeiros é prerrogativa dos partidos políticos e não é assunto novo na política brasileira. Ressalvados, é claro, sua atuação dentro das normas de Direito Internacional e das características democráticas.

A comitiva de senadores teve problemas desde a concessão de autorização para pouso para a aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB). Recebidos pelo Embaixador Brasileiro em Caracas e abandonado pelo mesmo em seguida, não conseguiram cumprir sua agenda na Venezuela. Tiveram seu veículo preso em um congestionamento suspeito e foram atacados por manifestantes pró governo Maduro.

O Plenário da Câmara dos Deputados aprovou uma moção de repúdio aos atos de protesto contra a delegação brasileira de senadores que foi à Venezuela. O presidente do Congresso Nacional disse "repudiar e abominar os acontecimentos". E o Itamaraty emitiu nota oficial na qual "lamenta os incidentes que afetaram a visita à Venezuela da Comissão Externa do Senado e prejudicaram o cumprimento da programação prevista naquele país. São inaceitáveis atos hostis de manifestantes contra parlamentares brasileiros."

A arapuca funcionou e todos agiram conforme previsto. O governo venezuelano agiu como esperado, ao impedir a ação dos senadores brasileiros. O governo brasileiro tentou dificultar ao máximo e não prestar o apoio necessário aos senadores por conta dos laços de amizade com o regime de Maduro, mas teve que repreender as ações de Caracas mediante nota emitida pelo Itamaraty. E a comitiva de senadores conseguiu expor o óbvio: o regime venezuelano não é democrático e o governo brasileiro o tem apoiado desde o Presidente Lula.

O simples fato de a Venezuela manter presos políticos já é um sinal bastante grave de falta de democracia no vizinho sul americano. O regime instaurado por Hugo Chavez sempre perseguiu os opositores e cerceou a imprensa. Controla os demais poderes e governa sem qualquer forma de controle. As eleições são no mínimo controversas. A população venezuelana vive em situações claras de dificuldade sem acesso à produtos que ofereçam a mínima condição de uma vida digna. Um regime de medo que não aceita críticas, prende oposições e impede a livre manifestação.

Em uma política externa desenhada por Marco Aurélio Garcia, o Brasil desde os mandatos do presidente Lula, tem apresentado apoio quase que incondicional ao regime instalado em Caracas. Sob o discurso bolivariano, diversos governos sul americanos apresentam características totalitárias e a figura de Chavez sem dúvida alguma era o maior expoente do fenômeno. Lula, que já demonstrou diversas vezes não apreciar imprensa livre, apoiou os movimentos do colega venezuelano, assim como também o regime de Evo Morales na Bolívia.

As oposições no Brasil parecem começar a se articular para causar danos também na política externa. A negativa de aprovação do embaixador Guilherme Patriota para a representação brasileira na OEA ascendeu o sinal de alerta. A verdade é que a Comissão de Relações Exteriores do Senado, liderada pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), tem sido um importante campo de atuação da oposição ao governo Dilma. O caso da missão para a Venezuela termina por expor o fenômeno e também os laços que o governo brasileiro apresenta em suas relações externas.

Resta agora saber quais as consequências que o caso terá. O Congresso brasileiro começa a discutir a suspensão da Venezuela do Mercosul. A mesma cláusula democrática que suspendeu o Paraguai deveria também ser aplicada para a suspensão da Venezuela enquanto o país não retornar ao regime democrático. Conseguirá o governo brasileiro manter o apoio ao regime de Maduro uma vez exposta a situação no vizinho sul americano?

Lula surfou tranquilamente em uma onda bastante favorável da economia. Pôde conciliar política social com pragmatismo econômico. Enquanto isso, exercia sua política externa repleta de trapalhadas sem que ninguém, fora do círculo de especialistas, desse atenção a ela. A presidente Dilma não teve nem a sorte e nem o pragmatismo de seu antecessor. Deixou a economia se descontrolar, se viu obrigada a realizar fortes cortes nas políticas sociais e permitiu até mesmo a exposição de um dos fenômenos mais graves da política externa recente do governo do Partido dos Trabalhadores: o Brasil apoia governos não democráticos.



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