A nova praga do Egito: 10% da população tem hepatite C

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Epidemia: catadores reciclam material hospitalar e contribuem para espalhar a doença (Foto: Klavs Bo Christensen/ Getty Images)

O governo do Egito se responsabiliza por apenas 20% do lixo produzido no país. Os outros 80% ficam por conta de um sistema de coleta informal que, curiosamente, é considerado um dos melhores do mundo. Ele é formado por catadores (os zabbaleen) que fazem parte de pequenas associações e vivem da venda do material que recolhem para reciclagem e das gorjetas deixadas pelos moradores das casas e apartamentos que atendem.

Mas, por mais organizado que seja o sistema, ele foi um dos agentes que contribuíram para a epidemia de hepatite C que atualmente assola o país. É que, entre as décadas de 1960 e 1980, o governo fez uma série de campanhas de vacinação em massa, mas a higienização das seringas era precária e não havia grande preocupação com o descarte do material, que muitas vezes era reaproveitado pelos catadores. O contágio se dava, portanto, dentro e fora do hospital.

 (Foto: Revista Galileu)

Agora, o país investe pesado em busca de soluções. Existem algumas drogas no mercado, e a maior parte dos pacientes, aproximadamente 90%, responde bem a pelo menos uma delas. O problema é que ainda não há como antecipar quem vai e quem não vai reagir à medicação. O único método conhecido é o da tentativa e erro — e o erro, nesse caso, pode ser fatal.

É aí que entra a pesquisa de Nourtan Abdeltawab, professora do departamento de microbiologia e imunologia da Universidade do Cairo. Ela se dedica a fazer um mapea­mento genético da população egípcia para descobrir quais fatores determinam o sucesso ou o fracasso do tratamento. “Há novas drogas chegando ao mercado, mas 10% dos pacientes continuam infectados pelo vírus mesmo depois de tratados. Quero entender por que exatamente isso acontece”, ela diz. Em março, Abdeltawab foi uma das escolhidas entre jovens cientistas do mundo todo para receber em Paris o prêmio For Women in Science, que reconhece anualmente 15 mulheres que se destacaram em suas áreas de atuação.

O objetivo final da pesquisadora é criar um teste que determine com antecedência qual é o tratamento correto para cada paciente. “A diferença entre uma dose eficaz e uma dose tóxica é muito pequena. E, às vezes, o que realmente funciona é combinar três tipos diferentes de droga”, diz ela. Hoje, o maior empecilho ainda é o custo do teste, inacessível para a maioria da população — a ideia é que ele seja bancado pelo governo e por instituições filantrópicas. “Medicina personalizada realmente custa caro e nem sempre é a melhor opção. Mas, no caso de doenças como câncer e hepatite C, acho que mesmo os mais resistentes podem ser convencidos com facilidade.”

*A jornalista viajou a convite da L'Oreal

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