Traço e fúria: a arte política de Vitor Teixeira

Facebook
VKontakte
share_fav
2015-06-21-1434892990-3182025-11046464_900506809971107_8028142117036489308_n.jpg

São Paulo, 26 de fevereiro de 2015, quinta-feira à noite. Nada de novo no front.

Exceto pelo protesto marcado pelo Movimento dos Sem Teto (MTST) no Largo da Batata, na Zona Oeste da capital paulista. Vitor Teixeira completara 28 anos três dias antes. A chamada à luta do companheiro Guilherme Boulos, líder do movimento, soava quase que como um presente por seus anos recém-feitos. A ansiedade era tanta que ele e a namorada, Paula, chegaram mais cedo que os outros manifestantes. A boa era tomar uma cerveja antes de o movimento começar e, para isso, escolheram um bar próximo.

Lá, na mesa ao lado da do casal, estavam dois homens desconhecidos que se queixavam da manifestação, prestes a começar. Interrompendo-lhes as reclamações, um vendedor negro, imigrante e de português enrolado aos ouvidos brasileiros ofereceu seus produtos a eles. Não interessados, recusaram.

Tão logo o ambulante se afastou, o mais racista deles dispara:

- Tá vendo?! É por isso que tinham que cortar as pernas de um macacão desses. Pra eles não virem aqui pro nosso país...

Como que por reflexo, Vitor se levanta e despeja toda sua munição verbal sobre o homem a fim de constrangê-lo publicamente:

- SEU CUZÃO DE MERDA! SEU FACISTA DE BOSTA! NÃO TEM LUGAR NESSE PAÍS PRA PESSOAS COMO VOCÊ!

Acuado pelas palavras do jovem militante, que ganham força depois que a namorada e um dos garçons, negro, se junta ao coro, o rapaz do comentário criminoso e seu amigo saem do bar sem fazer alarde. Ainda bem que nem todo combate acaba em sangue.

É do meio desse campo de batalha ideológico que Vitor Teixeira se mostra disposto a guerrear.

2015-06-21-1434893294-7810000-10178120_379188065557023_847450974788548595_n.jpg

Difícil precisar quando exatamente alguém se torna um artista. É sempre mais profundo do que o primeiro hit em cadeia nacional ou quando se vende alguma "arte" pela primeira vez. Acredito que tem algo mais a ver com a maneira como a pessoa encara sua produção intelectual, do sentido que ela atribui a seu próprio trabalho e, claro, da recepção do público. Em outras palavras, ter clara a intencionalidade do que se produz é fundamental na descoberta do "eu-artista".

No caso de Vitor, podemos dizer que o artista que hoje conhecemos nasce junto com o militante político. Um devido ao outro, é impossível dissociá-los. Também não se sabe quem foi o primeiro a vir ao mundo - e, honestamente, isso pouco importa. Modesto, ele rejeita o título de "artista", embora eu insista em chamá-lo assim. Prefere cartunista. "Ou até jornalista, por que não?", diz ele enquanto sorri como quem pede aprovação pelo que acabou de dizer. Mais que isso: Vitor Teixeira é um guerrilheiro do traço.

Recentemente, ele deixou de lado os cigarros industrializados e usa tabaco solto para fazer os seus próprios. Entre um bem-bolado e outro nem tanto, ele faz uma longa pausa antes de divagar sobre arte. "É um tipo de trabalho libertador. Alguma coisa que te aproxima mais do que é ser humano. Os clássicos, por exemplo: Goya, Van Gogh... a humanidade é extrapolada pelo grau de expressividade que eles alcançaram". Como sua persona política é gêmea siamesa da artística, logo emenda: "o mercado [de trabalho] desumaniza. Minha aproximação com a arte me faz mais humano".

2015-06-22-1434981523-8229498-10805618_487834201359075_3740281781366677071_n.jpg

O estopim disso tudo? Há exatos dois anos, em junho de 2013. Protestos tomam conta do Brasil inteiro. À época, ele era um jovem de 26 anos graduado em Desenho Industrial e trabalhava desenhando estampas para lojas de roupas no Brás, região central de São Paulo. Seus estudos foram pagos pelo já falecido avô, dono de uma pequena fábrica de cortinas na Zona Leste da cidade, que hoje é tocada pela mãe. Criação artística é, portanto, algo de que Vitor nunca conseguiu se desvencilhar.

Pela convivência com trabalhadores imigrantes, em especial os bolivianos do Bom Retiro, bairro onde costumava frequentar bares e festas, seu interesse pela América Latina desperta de forma pura. Ele surge da empatia por um povo que, longe de casa e em busca de sobrevivência, Vitor ser explorado em suas relações de trabalho, assim como ele também se sente. Sentimento que anos mais tarde seria pivô de seu ataque de fúria em uma mesa um bar...

Da rotina, nasce a reflexão. Levantamos todos os dias, deixamos nossas casas e vamos trabalhar. Lá chegando, realizamos nossos afazeres que, no final do mês, serão financeiramente recompensados. E "todo dia ela faz tudo sempre igual", canta Chico Buarque. Essa fórmula, repetida diariamente, tende ao infinito e torna-se verdade absoluta, incontestável, mas que com o tempo se esvazia de sentido.

2015-06-21-1434896855-5372285-10514702_426369647505531_7353064467024932950_n.jpg

Sabemos que todo trabalho tem um impacto social e, por tê-lo, influencia outras vidas além de nossas próprias. Se os efeitos que causamos em nossa sociedade não nos importam, para que, então, somos pagos? Se a resposta, além de "sobreviver", for "acumular bens, dinheiro", Vitor está fora dessa. Para ele, na lógica de mercado, enquanto muitos trabalham ganhando pouco, poucos trabalham ganhando muito. A força dos muitos faz a engrenagem girar; os poucos, lenientes, observam ela se movimentar enquanto gritam "QUEREMOS MAIS!".

Nesse sentido, a voz de Vitor destoa das demais. O que reivindica o cartunista? "QUEREMOS IGUAL!".

Ainda em 2013, o designer que até então se considerava "analfabeto político" também foi às ruas. Lá, tomado de uma euforia que lhe é típica, identificou algo diferente que, confessa, não sabe ao certo explicar. Contudo, memórias permanecem: a primeira vez que viu de perto a população ser duramente reprimida pela força policial; quando observou boa parte da imprensa intitular manifestantes de "vândalos"; ou ainda o episódio das bandeiras de partidos políticos sendo rasgadas e até queimadas.

2015-06-21-1434893546-9615269-1048023_259140584228439_835433361_o.jpg

O espírito combativo que tomou vias públicas passa a ocupar também as redes sociais. Há dois anos no ar, sua no Facebook conta com quase 75 mil curtidas. Números obtidos organicamente, sem que o autor nunca tenha investido em anúncios, publicidade ou recebido quaisquer patrocínios.

O pequeno apartamento que divide com um amigo dos tempos de colégio no distrito do Sacomã, região sudeste de São Paulo, funciona bem como seu ateliê. Falastrão e bem-humorado, Vitor brinca que seu dia-a-dia é quase o de uma "dona de casa" que, entre roupas na máquina para bater e uma pilha de louça suja para lavar, desenha. "Agora, vejo sentido na minha vida", filosofa.

Como artista independente, Vitor tem na fanpage seu principal canal de comunicação com o público. A produção é frenética e as críticas, mordazes. Há semanas com publicações diárias, sempre pautadas pela polêmica da vez que movimenta a internet. Um ritmo quase fordista, que lhe é imposto exclusivamente por sua criatividade e pelo timing inerente aos bons comunicólogos.

2015-06-22-1434982706-2587487-11235271_569472243195270_1432901778860631199_n.jpg
A artilharia de referências em sua obra é pesada: Joe Sacco, Latuff, Henfil no traço; Galeano, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, García Marquez na literatura; Chavez, Mujica, Madiba, Lula na política; Simón Bolívar e a "Pátria Grande" latino-americana no sonho; Via Campesina, Movimento Sem-Terra, Sem-Teto, Feminista e LGBT no suporte; machismo, racismo, intolerância e patriarcado a serem, diariamente, desconstruídos. Arte ideológica e, sobretudo, coerente ao discurso à esquerda que se propõe manifestar.

Não há como negar, entretanto, algumas precipitações e até mesmo julgamentos equivocados. Em uma de suas charges, por exemplo, Vitor desqualifica os comentaristas de sites noticiosos ao generalizar suas opiniões. Aí está uma limitação do formato que o consagrou: o exagero de ideias expresso pela charge abre espaço a múltiplas interpretações e não admite ressalvas.

Sobre o desenho, nem ele poupa críticas. "Esta é uma charge ruim. Fico no afã de produzir e acabo não lapidando bem algumas ideias. Às vezes quem comenta [nos sites de notícias] é o cara de Heliópolis, trabalhador, e não um burguês do Morumbi. Isso [posicionamento ofensivo] pode distanciar aqueles com quem eu busco falar", reflete. Ele reconhece também que estereotipar o sujeito de classe alta como "o inimigo burguês" ou "o coxinha" pouco acrescenta ao debate - embora tenha insistido nesse discurso por um bom número de publicações.

2015-06-21-1434894015-2318733-1506858_387745344701295_4845888160988482540_n.jpg

Depois da polêmica causada por uma charge crítica à Igreja Universal, Vitor tenta, contraditoriamente, se manter afastado de novos episódios como este, que diz ter sido o momento mais desgastante de sua carreira. E se defende: "Me distancio do 'zuar por zuar'. Se sou ofensivo às vezes é por tentar dar voz a um discurso anti-hegemônico. Nas minhas charges, é possível identificar claramente quem é o alvo da crítica. Se isso incomoda ou me faz perder um público 'pequeno-burguês', não me importo. Não gosto de ambientes alvejados".

Este é, inclusive, outro impasse pessoal que Vitor busca solucionar. Ele rejeita a ideia de criar apenas para o público de classe-média ou média-alta, que avalia ser a maioria dos fãs de sua página. Por isso, segundo ele, seus atuais esforços estão voltados para quem chama de "base" - trabalhadores, operários, camponeses. Sempre que pode, participa de aulas públicas e debates, visita prédios ocupados e se aproxima de comunidades - recentemente, ele acompanhou o dia-a-dia da união de moradores e do jornal comunitário de Paraisópolis, onde tem planos de iniciar oficinas de cartum político para jovens carentes. Uma visita a Belo Monte (PA) e o projeto de uma grande reportagem em HQ, ainda em fase de planejamento, também deve surgir em breve.

Aliás, ele publicou recentemente sua primeira reportagem em HQ, "O inimigo da vez", que traz forte oposição ao projeto de redução da maioridade penal. Feita em parceria com os jornalistas Guilherme Weimann e Roney Rodrigues e publicada em um periódico de distribuição gratuita, esse é para Vitor um passo importante em sua carreira: trata-se da oportunidade de se debruçar sobre assuntos com a profundidade que as charges não lhe proporcionam. É também a chance de atingir diretamente a "base". Afinal, para ele, "quem faz a Revolução é operário, não burguês", enfatiza.

&

O Inimigo da vez - Página 1Com uma fusão entre jornalismo e quadrinhos, a reportagem do Brasil de Fato buscou opiniões...

Posted by on

Ainda que a ideia de Revolução nos moldes comunistas soe anacrônica, sobre a arte de Vitor paira o questionamento: em um mundo repleto de contradições, no que exatamente devemos crer? Para o artista, o caminho é um só: perseguir essa linha difusa no horizonte, a qual chama de "utopia".

Para os mais céticos, isso é sonho, devaneio, fantasia, loucura, alucinação... Lembro-me da canção "A palo seco", de Belchior, que canta a plenos pulmões:

"Tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul. Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues. [...] Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76. E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês!".

Impossível ouvir e não pensar em Vitor.

Com "traços tortos" e discurso bem amolado,ele abre o caminho na direção da própria utopia e cria para revolucionar. Pretensioso? Talvez. Ainda prefiro "sonhador". Até porque ele é, definitivamente, o típico pisciano.



VEJA TAMBÉM:
ver Brasil Post - Blog