A conquista máxima de hoje é o ponto de partida de amanhã: como foi praticar ioga com BKS Iyengar

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Foi um presente dos Deuses pisar na Terra ao mesmo tempo que Guruji. Vendo como ele praticou e ensinou com 95 anos me faz imaginar que deve ter sido uma espécie de super-homem quando jovem. Pode parecer exagero, mas quem já esteve em sua presença e o viu em ação sabe. Impressionante. Seu legado foi construído com esforço, suor e dores. Porque dói quebrar padrões e ir além. "A conquista máxima de hoje é o ponto de partida de amanhã", um de seus lemas.

No fim da vida ele se divertia dando risada de nosso esforço e nosso suor, ficava contente. Mas muitas vezes dizia que éramos lentos para aprender e em nosso modo de empreender esforço. Veja que parâmetro ele tinha! Suas aulas iam ficando cada dia mais exigentes, rápidas, desafiadoras. Bom pra nós, que estávamos sendo ensinados por alguém com altíssimo grau de exigência.



Enquanto estava praticando no Instituto, perto de 16h minha mente e meu corpo perdiam a capacidade produtiva e precisava descansar. Ia para a cama às 19h. Acordava às 5, e tudo começava de novo.

Num dos corredores do Instituto, um quadro me chamou à atenção logo em meus primeiros aqui. Foto de Guruji num jardim exuberante, todo vestido de branco como é de seu hábito, as palmas unidas em Namaskar mudrá em frene ao peito, um raio de sol incidindo sobre si, embaixo os dizeres: "I am truly grateful for your light shinning on me" ("Sou verdadeiramente grato por sua luz brilhar sobre mim").

Foi como estou me senti naquele dia. Profundamente grata. E exausta. Tivemos pela manhã mais uma aula para mulheres dada por BKS Iyengar.

O assento de Geetaji, a mulher de BKS Iyengar, foi preparado na plataforma, mas ela não apareceu. Os professores mais jovens - porém todos sêniores - do Instituto se entreolham, um deles puxa as invocações, seguidas do primeiro comando de Guruji.

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Adhomuka Virasana. Adhomuka Svanasana. Uttanasana, todas com em média 2 minutos de permanência. Estava calor, ventiladores ainda desligados, o suadouro começou.

Ao respirar mais fundo pra me manter em homeostase com a temperatura externa, lembrei que a prática de Yogasanas dedicada e vigorosa queima Kleshas (nossos obstáculos, obscurecimentos ou venenos pessoais). Havia lido a breve biografia de BKS Iyengar no site do professor KofiBusia, um grande professor e estudioso acadêmico de Yoga Sutras e Iyengar Yoga. Dizia que o significado da palavra Iyengar, que portanto traduz o legado e a função desta família no mundo, trata exatamente da eliminação de Kleshas. Vale dar uma conferida em como são apresentados os passos estipulados por esta família para o comprometimento em como cumprir esta difícil tarefa.
Comecei a entender um pouco mais o universo dos Iyengars e porque eles são como são.

A aula seguiu com muitos saltos e fortes movimentos dinâmicos para mobilidade do tronco nas posturas de pé. Abhijata e Raya se revezam nas demonstrações e esclarecimentos vindos de Guruji, que praticava lá no fundo da sala e perguntou se estávamos saltando com nosso corpo ou com nossa mente. Respondemos corpo. E pediu pra que levássemos nosso olhar e nossa mente pra onde vamos saltar antes de levar o corpo. E então os saltos se tornaram muito mais livres, harmoniosos, vigorosos.

Depois vieram as invertidas. Ah, as invertidas. Permanência de em média 15 ou 20 minutos em Sirsasana, com uma pausa no meio para detalhar o trabalho das pernas. Fantástico. Em Sarvangasana Guruji soltou a melhor do dia: "O trabalho das pernas e pés é idêntico a Sirsasana. Nádegas pra frente! Pra frente! As nádegas de vocês parecem que têm uns fantasmas dentro! (risos gerais) Abram os portões da pélvis e deixem saírem os fantasmas dos glúteos pela pélvis! (mais risos) Já assistiram ao filme 'O exorcista'? Pois é, deixem saírem os fantasmas e os espíritos que estão impedindo vocês de se tornarem seres espirituais, pela pélvis! E tornem-se seres espirituais!" (muitos risos!)

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Aposentado havia muitos anos, Guruji não precisava dar aulas. Mas não deixava de estar presente na experiência de quem ia praticar ali. E não desistia enquanto não via que compreendemos verdadeiramente o que queria ensinar. Ao final da aula, muito contente, fui mais uma vez agradecer Guruji por tanta generosidade. Me ajoelhei, toquei seus pés, subi, Namaskar em frente ao peito, olhei bem firme pra ele e agradeci mesmo num sonoro 'thank you so much!' , do fundo do coração. Ele olhou pra mim e sorriu, divertindo-se com minha gratidão. Forma-se uma fila pra reverenciá-lo. Olhando pra elas, percebi que estávamos todas emocionadas.

Efeito colateral de duas horas de esforço comandadas por Guruji: pernas bambas e cansadas, emoção à flor da pele. Nosso Guru, de riso solto olhando pra gente. As sobrancelhas e o cabelo muito brancos e desgrenhados balançavam felizes. E olhava pra Raya, seu assistente e instrumento de comunicação conosco, que sorria de volta.

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