Henri Bergson, o homem que convidou Einstein para um debate sobre o Tempo e o Espaço

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Era para ser uma palestra normal em que Albert Einstein discursaria perante um seleto grupo de estudiosos no renomado Collège de France. Tudo estava nos conformes, as pessoas sentadas e admiradas pela inteligência do então maior ícone da física moderna, quando um senhor de 63 anos se levanta de seu acento e determina em bom tom para todos que estavam ali escutassem:

"[...] O que eu quero estabelecer é simplesmente o seguinte: uma vez que se admitida a relatividade como teoria física, nem tudo está terminado".

O Começo

Seu nascimento se deu em 18 de outubro de 1859, em Paris. Advindo de uma família judia, o pai era Polonês e a mãe Inglesa, Henri Bergson sempre se mostrou um jovem genial, principalmente após seu retorno à França depois de morar uns tempos na Inglaterra, pois foi nesse período que iniciou seus estudos no Liceu Fontanes, onde chegaria a ganhar um importante prêmio de matemática do Concours Général.

Todos apostavam que o jovem iria para alguma área das ciências exatas, mas ele se decidiu por cursar letras e usou como tese de doutorado temas filosóficos – a principal foi sua grande obra: Ensaios sobre os dados imediatos da consciência, sendo a secundária uma tese sobre Aristóteles - ecomeçou a lecionar usando a frente de história da filosofia antiga. Ganhou muito reconhecimento com suas aulas enchendo os auditórios do Collège de France. E foi justamente nesse local onde ocorrera a palestra de um cientista que, na época, possuía status de celebridade por reinventar a física moderna. Bergson, já sabendo de suas ideias astrofísicas, quis participar desse evento para ver de perto o que esse físico tinha a dizer.

Não demorou muito para Bergson intervir na palestra de Einstein e levantar uma pequena reflexão. Ele disse:

"Resta determinar o significado filosófico dos conceitos que ela introduz. Resta descobrir até que ponto ela renuncia à intuição e até que ponto ela permanece atada à intuição: resta fazer a parte do real e do convencional nos resultados aos quais ela chegou, ou, principalmente, nos intermediários que ela estabeleceu entre a posição e a solução do problema.

Ao fazer este trabalho no concernente do tempo, perceberemos, creio, que a teoria da relatividade nada tem de incompatível com o senso comum."

Einstein, inteligentemente, responde de uma maneira quase que política, mas muito sagaz:

"A questão se coloca então assim: o tempo do filósofo é o mesmo tempo do físico?

[...] Ora, o tempo físico pode ser derivado do tempo da consciência. Primitivamente, se os indivíduos têm a noção da simultaneidade de percepções; eles podem se entender entre eles e concordarem sobre qualquer coisa que percebem; esta seria uma primeira etapa em direção ao tempo objetivo.

Mas existem eventos objetivos independentes dos indivíduos e da simultaneidade das percepções. Passamos as dos eventos propriamente ditos. E, de fato, aquela simultaneidade não conduziu à nenhuma contradição durante longo tempo devido à grande velocidade da luz.

[...] Não há, portanto, um tempo dos filósofos; apenas existe um tempo psicológico diferente do tempo dos físicos".

Esse, na verdade, foi todo confronto direto que ocorreu entre esses dois, mas foi o suficiente para começar uma verdadeira guerra intelectual de seguidores de ambos confrontando-se indiretamente por meio das ideias.

Bergson morreu em 4 de janeiro de 1941, no decorrer da invasão nazista na França, mas antes, assim como um bom metafísico, se converteu ao catolicismo.

Teorias do “Eixo”

A teoria da relatividade de Albert Einstein, em parâmetros gerais, define tempo e espaço como algo extremamente relativo. A física Newtoniana definia que um corpo pode estar em movimento ou pode estar parado, dependendo do referencial! Pois bem, para Einstein um corpo pode estar em movimento ou em muito movimento, pois nenhum referencial que eu possa usar no universo está religiosamente estático, tudo está em movimento.

Você está ai agora, parado sentado lendo esse texto, correto? Errado! Pois até mesmo o tempo se movimenta, como se fosse uma dimensão em que os minutos vão passando e ficando para trás, como se todos estivéssemos dentro de um ônibus chamado Terra viajando pelo tempo linear. Ali na frente está o futuro, lá atrás está o passado e nesse exato momento estamos passando pelo presente.

Perceba que a afinidade entre o tempo e o espaço, se encontra inclusive na linguagem para definição. Deterministas e adeptos ao livre arbítrio adoram essa ideia, pois transforma o tempo em algo palpável, controlável, algo conhecido ou prestes a ser desvendado. Quem nunca parou para pensar e disse: “se eu tivesse feito algo diferente no passado, agora não estaria aqui”, como se a vida fosse feita de vários caminhos e o tempo apenas cuida para que você tome a decisão de qual caminho você quer seguir.

Bem, e se tudo isso estivesse errado, toda essa lenga-lenga que ajuda a formar palestrantes motivacionais e escrever livros de autoajuda? Vale a pena pensar em algo diferente? Desconstruir o banal para tentar averiguar de perto se algo realmente faz sentido ou se é apenas algo rotineiro.

Bergson fez isso!

Outra concepção de Tempo

Talvez seja quase imediata a nossa associação do tempo com o espaço. Parece que o ser humano, atualmente, nasce com essa união já em suas entranhas e isso se deve principalmente à teoria da relatividade de Albert Einstein, que desde o final de 1919 vem ganhando força e possui notoriedade quase dogmática por nós, meros mortais. Entretanto, nem sempre esses dois elementos andaram juntos e foi com Henri Bergson que a ideia de tempo se desvincula totalmente do espaço.

O tempo não pode ser mensurado ou compreendido. Quer uma prova? Peça a um colega que lhe explique o que é o “tempo”, o tempo de fato, não o que tenho que fazer, ou qual a duração de algo, o tempo em si. Sabemos que o tempo passa, o tempo voa, o tempo não para. Às vezes ele é curto, às vezes se arrasta, tem hora que é 1 minuto, tem vez que é 20 anos. O tempo, diria o poeta "é o agora!".

Inspirador, mas se formos usar a lógica para responder essa questão, chegaríamos a uma resposta simples, a de que o tempo é contraditório, pois até mesmo quando eu falo “agora”, o tempo que leva para você me escutar já não é mais o agora. Aquele "agora" que eu disse, quando sai da minha boca, já vira passado, o tempo é e ao mesmo tempo não é, por isso, tenho certeza de que o tempo não é real.

Calma, vai melhorar.

O tempo em si, não existe. Entretanto, percebemos o tempo, usamos o passado para apreendermos e ganharmos sabedoria para as experiências futuras. Mas o que isso significa? O que é o passado e o futuro? Aliás, por que será que o que é o "tempo" para mim é tão diferente do que é o tempo para outra pessoa?

Para o Bergson, a resposta está na própria pergunta.

O tempo realmente é diferente e complexo de definir, pois ele depende da consciência de cada um. Quem está atrasado vê o tempo correndo rápido, quem está ansioso vê o tempo passando vagarosamente. Parece que existe uma relação direta entre o tempo e a nosso mente. Para o filósofo, isso não é apenas uma relação, mas uma união simbiótica. A nossa consciência é o próprio tempo.

Ainda não te convenci, certo?

Tudo bem, vou falar do que é o espaço para Bergson e depois darei um exemplo para melhorar isso tudo!

Outra concepção de Espaço

Para ele, o espaço é o exato oposto ao conceito de tempo, pois não depende do ser humano para se realizar. Sabemos que as flores exalam um perfume e isso é independentemente de existir alguém para senti-lo, um beija-flor é atraído para sugar o pólen de uma flor pelo perfume que ela espalha, não é necessário um sistema respiratório humano complexo para que o perfume da planta exista.

Aliás, se conseguirmos observar esse fenômeno microscopicamente, não precisaríamos se quer de qualquer sensor olfativo para saber que as flores exalam um perfume. Precisamos dos nossos narizes para conseguir sentir esse cheiro, óbvio, mas a ausência do nariz não significa a ausência do perfume.

Diferente do tempo, o espaço é objetivo e existente fora da mentalidade humana. O espaço é real.

Duas retas concorrentes: tempo e espaço

Se pegássemos o movimento de um pêndulo e o dividíssemos em frações, cada instante de sua movimentação, não iríamos perceber a continuidade da ação. Enxergaríamos, em cada momento, apenas o pêndulo estático em posições diferentes. Em um instante, o pêndulo se encontra no local “x”, no outro instante ele já está em outro local.

Essa seria a representação de um movimento se não existisse a nossa consciência para dar duração à movimentação. É com isso que adquirimos a capacidade de colocar no passado os eventos que acabam de acontecer e assim projetar que algo acontece em decorrência dessa ação. Ou seja, pegamos um evento externo - a ação de um pêndulo - e, por meio da capacidade da nossa consciência, damos movimento para a esse objeto. Dessa forma, o tempo e o espaço interagem constantemente e, principalmente, distintamente.

E se Bergson ganhasse o debate?

E se aceitássemos isso?

Vamos pensar melhor. A origem de tudo o que conhecemos, do tempo e do espaço, denomina-se: Big Bang. Foi necessários anos de cálculos para conseguir entender que o Universo está se expandindo, levando a crer que, antes, ele já foi comprimido até formar um ponto extremamente denso com muita energia.

Mas o que veio antes disso?

O que veio antes do tempo e do espaço? Não sabemos! Talvez porque essa nossa leitura do exterior seja fixada na capacidade de colocar ordem com a consciência, ou seja, por meio de algo cronológico.

Conseguimos imaginar uma sereia quando juntamos a ideia de mulher junto com a ideia de peixe, mas não conseguimos formar o que veio antes do tempo, pois não conseguimos ter nada fora dele. A maioria dos alienígenas imaginários possuem traços humanoides, nem precisamos ir para outras galáxias. O próprio Deus possui nossa imagem e semelhança.

Coincidências? Não entremos nesse assunto.

Somos limitados pelo tempo e não conseguimos compreender o espaço de maneira geral. Bergson coloca Einstein em cheque nesse ponto. Como podemos confiar em uma ciência que quer explicar o Universo, se quem faz essa ciência está dentro de uma caixa quase impossível de sair (senso comum)?

Faz sentido!

Podemos começar a entender os nossos limites para tentar ultrapassá-lo. Quem sabe, assim, podemos dar o primeiro passo para conseguirmos explicar o que veio antes do Big Bang ou, até mesmo, conseguirmos compreender Deus.

ver Papo de Homem