O escritor David Fricke e o fotógrafo Mark Seliger falam sobre o "verdadeiro Kurt Cobain" que ilustrou a capa da Rolling Stone

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O escritor David Fricke e fotógrafo Mark Seliger recordam como foi trabalhar ao lado de Kurt Cobain em capas históricas da revista Rolling Stone, entre elas, a que ele aparece usando uma camiseta com a seguinte frase: "revistas corporativas ainda são uma merda".

O jornalista ainda conta como foi o último encontro dele com o líder do Nirvana. O vídeo é uma homenagem ao músico, cujo documentário Kurt Cobain: Montage of Heck chegou aos cinemas nacionais na última quinta-feira, 18.

Kurt Cobain: Montage of Heck é um retrato pessoal e irrestrito do líder do Nirvana

"Agora é meu dever te esvaziar completamente.” Esse verso de "Drain You" é como uma profecia do sentimento que acomete quem assiste ao documentário Kurt Cobain: Montage of Heck, um mix multimídia de filmes caseiros, trechos de shows e entrevistas, desenhos, excertos de cadernos e diários e gravações de áudio do líder do Nirvana. O documentário assinado pelo diretor Brett Morgen é mais do que algo obrigatório não apenas para fãs do cantor e compositor. É o resultado de oito anos de um trabalho colaborativo sustentando pelo amor dos envolvidos, que oferecem um olhar sobre a vida privada e a mente do artista – desde os primeiros impulsos criativos de Kurt até a derrocada da vida dele. Quando chega à cena final, você não apenas sente que conhece melhor o homem: sente que ficou completamente esgotado, emocionalmente.

20 anos atrás, um Kurt Cobain rouco e introspectivo comandava o último show do Nirvana.

"Eu só queria dar à Frances [Bean Cobain, filha de Kurt] mais algumas horas com o pai dela", disse Morgen quando apresentou o filme no Festival de Cinema de Sundance. O diretor teve acesso ilimitado aos pertences do frontman, que estavam trancados em um depósito há anos. Tem imagens de Super 8 que mostram Kurt ainda bebê, tocando um piano de brinquedo e apagando as velinhas do bolo de aniversário. Há fotos dele como um adolescente taciturno, mostradas enquanto Kurt descreve em off como a descoberta da maconha e do punk o ajudaram a lidar com um profundo senso de alienação. Você já teve curiosidade de ter a certidão de nascimento dele ou ouvir uma gravação em que Cobain diz ao vocalista do Melvins, Buzz Osborne, o quanto a cidade de Aberdeen, onde ele nasceu, é uma merda? Tem tudo isso lá, assim como vislumbres de cadernos intermináveis repletos de rascunhos, rabiscos, possíveis nomes de banda (The Reaganites, Hare Lip) e versões embrionárias daquilo que se tornaria, um dia, um conjunto de canções icônicas.

Frances Bean, filha de Kurt Cobain, diz que “não gosta tanto de Nirvana".

Testemunhos de familiares, de Tracy Marander (ex-namorada), Krist Novoselic (baixista do Nirvana) e Courtney Love (vocalista do Hole e viúva de Cobain) ajudam a preencher as lacunas que ficam depois de toda a “Kurtfernália” ser devidamente explorada. A ausência de Dave Grohl no documentário não apenas é sentida, como levanta suspeitas. Morgen explicou que só conseguiu falar com Grohl quando o filme estava na reta final e ele já tinha definido uma estrutura narrativa que não necessitava do depoimento do músico. Há uma chance de ele reeditar e incluir o novo conteúdo no futuro, mas não há nada certo.

Montage of Heck: disco com gravações solo de Kurt Cobain deve ser lançado em 2015.

Em geral, Montage of Heck foge completamente da linha de construção tradicional dos “rockumentários”. O título do filme vem de uma das mix tapes que Cobain preenchia com vocais aleatórios, barulhos, trechinhos e uma ou outra demo. Morgen pega emprestado esse formato caótico para chegar em algo muito mais pessoal. Partes essenciais da mitologia do Nirvana, desde Kurt procurando inspiração em um graffitti de Kathleen Hanna até ele entrando na banda, não foram contempladas. Até mesmo "Smells Like Teen Spirit" é uma semi-ausência: o vídeo é exibido, mas encoberto por uma versão da música cantada por um coral infantil.

Frances Bean fala pela primeira vez sobre a relação dela com a imagem de Kurt Cobain.

Em vez daquilo que seria o esperado, ganhamos uma experiência sem filtros de Kurt, permeada por desenhos perturbadores, poemas inacabados e listas de aspirações. Também ganhamos uma oportunidade de ver de forma desorientada e desconjuntada como era a fama pelos olhos do músico. Isso por meio de shows, reportagens e entrevistas de TV, tudo montado de forma caótica. Além disso, chega a ser desconfortável de tão perto que chegamos da intimidade dele com Courtney.

Kurt Cobain imita Chris Cornell em trecho de Montage of Heck.

Há imagens do casal (gravada pelo próprio) se beijando, reclamações sobre a imprensa e Courtney grávida e mostrando os peitos. Trata-se, claramente, de um casal inebriado de amor e, conforme afirmam as matérias de tabloide que Morgen usa em certos momentos, inebriado de drogas também. Mas é a parte do amor que realmente marca, especialmente quando Frances Bean Cobain entra em cena. Kurt era um pai dedicado, mesmo quando as pressões externas acabavam com ele ou seus problemas de saúde o derrubavam. O amor dele pela garota sempre foi conhecido publicamente, mas testemunhar isso, vê-lo rolando com ela no chão, deixa isso perfeitamente claro. Esse não é o porta-voz de uma geração. É um ser humano, marido e pai.

Kurt Cobain - Montage of Heck: saiba tudo sobre o documentário.

Tudo isso deixa ainda mais difícil de se assistir quando Kurt tem crises, deixa mensagens de voz raivosas e tem surtos violentos nas páginas de seus cadernos – o grito de socorro é de partir o coração e fica explícito. Uma página diz apenas “Vai se matar” várias vezes seguidas. O momento mais perturbador acontece quando o jornalista da Rolling Stone EUA David Fricke pergunta a Cobain a respeito de uma sobra de In Utero, "I Hate Myself and Want to Die": "Ou você está sendo muito satírico ou você está passando por umas coisas muito pesadas". A resposta de Kurt vem no formato de uma risada simplesmente assombrosa.

Kurt Cobain escolhe nome “Nirvana” para a banda dele em trecho de Montage of Heck.

Qualquer um pode fazer um documentário sobre uma banda. Mas o tom experimental do diretor Brett Morgan, que escolheu trilhar um caminho menos tradicional, faz algo que vai muito além: permite que o espectador sinta que teve a oportunidade de folhear o diário de alguém. Fica a sensação de que Kurt teria gostado disso. E, para os fãs: esteja pronto para realmente conhecer o homem que você admira, com as imperfeições e tudo mais.

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