O Brasil sabe o que quer da China?

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Nesta semana o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, visita o Brasil para assinar 35 acordos de cooperação e projetos de investimentos que podem chegar a US$53 bilhões, se todos forem efetivados. Desde 2009 os chineses são os principais parceiros econômicos dos brasileiros, desbancando os americanos da posição de liderança que ocupavam desde o fim do século XIX.

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Contudo, chama a atenção o desconhecimento no Brasil acerca da China contemporânea - seus objetivos, visões de mundo, conflitos sociais. As elites brasileiras sabem o que esperar de uma ordem internacional marcada pelo retorno chinês à posição de grande potência?

Quantos políticos, empresários, jornalistas ou acadêmicos brasileiros conseguem identificar meia dúzia de expoentes chineses e listar os fatos mais importantes sobre essas pessoas? Ou analisar o funcionamento do Partido Comunista da China e entender os desacordos e compromissos entre suas facções mais importantes? Ou avaliar a força dos grupos pró-democracia e dos ativistas de direitos humanos? Quantos estão familiarizados com a cultura chinesa e conhecem seus poetas, escritores ou cineastas de destaque?

A China tem se empenhado na diplomacia cultural, sobretudo por meio da extensão de seus Institutos Confúcio, inclusive no Brasil. O aprendizado do mandarim entre profissionais brasileiros interessados pelos assuntos chineses é um passo importante, dentro do que deve ser uma política de formação de especialistas voltada para o médio prazo - lembremos que o Brasil ainda não foi bem-sucedido mesmo na tarefa mais simples de ter uma ampla parcela da população com nível universitário com fluência em inglês.

Há uma ampla produção acadêmicas e jornalística sobre a China contemporânea, mas a maior parte dela é escrita por americanos ou europeus, cujas preocupações com o gigante asiático são bastante diversas daquelas dos brasileiros. Para as potências ocidentais, a participação chinesa nos BRICS pode ser vista com frequência como algo que ameaça sua posição de liderança internacional. Para o Brasil, evidentemente, a perspectiva é distinta e essa articulação é um instrumento para ampliar o potencial das iniciativas diplomáticas brasileiras, sobretudo no campo da reforma das organizações financeiras multilaterais, incluindo a criação de instituições como bancos de desenvolvimento voltados para os países do sul global.

É necessário que o Brasil amplie sua reflexão própria a respeito da China, com a formação de sinólogos brasileiros com experiência na realidade local. Ainda é comum vermos analistas no Brasil falando da política chinesa da perspectiva de Washington ou Londres, sem conseguir pensar a realidade internacional a partir das perspectivas próprias de um grande país em desenvolvimento. Essa não é uma tarefa fácil, pois a ascensão da China tem significados muito diferentes conforme o segmento social brasileiro. Digamos, do agronegócio ou da indústria de calçados e de brinquedos, dos fabricantes de aviões ou dos executivos do setor de infraestrutura.

Boa parte dos debates acalorados sobre a política externa brasileira da última década tem se concentrado nas iniciativas do Brasil junto a outros países em desenvolvimento: nos esforços de integração na América Latina, nas articulações globais na OMC e no G-20 financeiro, na mediação de conflitos no Oriente Médio. Embora os BRICS sejam importantes nessas discussões, a conversa a respeito deles tem sido superficial, com frequência limitada às menções de estatísticas sobre comércio e investimentos. Essa é uma lacuna séria e incompreensível, em especial no caso da China. O país sequer foi citado nos debates presidenciais de 2014, que nos poucos momentos em que trataram de diplomacia o fizeram com relação a Cuba!

No século XX, sob a liderança do barão do Rio Branco, a política externa brasileira foi habilidosa em construir uma relação de proximidade - e ocasionalmente, de aliança - com a potência em ascensão da época, os Estados Unidos, usando acordos com a Europa como uma maneira de contrabalancear essa dependência. O desafio posto para o século XXI é como lidar com a ascensão da China e redefinir os interesses brasileiros cada vez mais globais em um mundo em transformação rápida que exige conhecimentos aprofundados sobre culturas não-ocidentais com as quais tradicionalmente os brasileiros tiveram menores contatos. O País está à altura dessa tarefa?

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