Quando brancos bem intencionados são meio racistas

Photo of Quando brancos bem intencionados são meio racistas
Facebook
VKontakte
share_fav

Navegar entre diferentes círculos sociais pode ser difícil, especialmente quando eles são formados por pessoas de diferentes culturas e origens étnicas. É mais difícil ainda quando você é a única pessoa não-branca do rolê, e aquela mina branca que você ouviu cumprimentar todo mundo com um simples “Oi” ou “Tudo bom?” solta um “Yo, e aí, mana?” pra você. Tipo, por quê?

Outros exemplos incluem: uma pessoa branca perguntar o que você achou de um disco de rap antes de você mencionar se ouve rap ou não, conversinhas furadas sobre Pantera Negra ou alguém falando que você tem um “bom tom de pele” porque não é “muito preto”.

Não mandar qualquer gíria aleatória para uma pessoa negra que você não conhece ou cumprimentá-la com um “aperto de mão descolado” que você acabou de inventar é o básico. Mas essas coisas acontecem toda hora. Quase toda pessoa negra que conheço tem uma história parecida.

Nem todas as pessoas que fazem essas coisas são necessariamente racistas. Elas estão tentando se identificar ou achar um ponto em comum, sem perceber que suas tentativas acabam parecendo racismo. Um jeito de evitar essas gafes é simplesmente adaptar sua atitude para ver a pessoa primeiro que sua cor ou cultura. Pedi a amigos e parentes negros para falarem sobre as vezes que pessoas brancas fizeram feio nas interações com eles, para os leitores aprenderem com exemplos.

“Eu tinha um trabalho que às vezes exigia que eu recebesse as pessoas na porta. Meu supervisor uma vez me perguntou por que eu não estava dançando. Respondi que normalmente não dançava. Ele disse 'Achei que todos os negros dançavam. Vocês não nascem já cheios de ritmo?'” – George, 28 anos

“Uma vez, minha gerente teve que viajar e a empresa mandou uma gerente temporária. Assim que a substituta me viu, ela disse 'E aí, mana, de boas?' Eu disse 'Tudo bem'. Mas ao longo do dia, notei que ela não falava do mesmo jeito com os empregados brancos. Quando ela falava comigo e o outro funcionário negro, ela usava gírias e falava de um jeito mais 'descolado'. Perguntei o porquê e ela disse literalmente: 'Do que cê tá falando, girl?'” – Elise, 22 anos

“Eu trabalhava com uma simpatizante do Trump e uma vez, depois que um menino negro foi baleado e morto pela polícia, ela me perguntou 'Por que os negros fogem da polícia e ficam bravos quando acabam mortos? Espero que você tenha aprendido essa lição, porque eu ia ficar muito triste se você morresse. Quem vai me ajudar a fechar esse negócio aqui?'” – Tia, 24 anos

“Quando era mais novo, fiz amizade com uma garota loira baixinha e engraçada da minha classe. Todo dia depois da aula, a gente conversava por telefone assistindo TV. Um dia, ela fez uma piada sobre as pessoas negras que participavam do programa. Lembrei a ela que eu também era negro, e ela apontou que mesmo tendo pele negra, eu não era realmente negro porque não ouvia rap ou me vestia como os convidados do programa ou os caras nos clipes da MTV.” – Benjamin, 26 anos

“Nas viagens para outras cidades para a temporada de lacrosse, meu time costumava se entreter com karaokê. Certa vez, minha treinadora estava procurando alguém pra assumir o microfone e me chamou aleatoriamente. Não lembro as palavras exatas dela, mas foi alguma coisa tipo 'Amari, por que você não faz um rap pra gente? A gente sabe que você adora rap'. Na época eu não ouvia rap tanto assim e todo mundo do meu time – todas brancas, devo acrescentar – sabiam que minha música de karaokê era uma bem antiga e romântica.” – Amari, 23 anos

“Cheguei no trabalho com o cabelo pintado de outra cor e cachos que eu tinha acabado de fazer, e escutei uma colega dizendo pra outra 'Meu deus, será que é peruca ou aplique? Vou pegar no cabelo dela'.” – Tia, 24 anos

“Cresci numa cidade muito branca, então, naturalmente, meus amigos mais próximos eram brancos. Quando fui para a faculdade e finalmente comecei a conviver mais com outros negros, uma das minhas amigas brancas da minha cidade disse 'Ah, você deve estar feliz de ter amigas negras. Vocês podem falar dos seus cabelos e tudo mais'.” – Felicia, 22 anos

“Eu frequentava uma escola majoritariamente branca. Uma vez, passei com um grupo de amigos brancos por uma mesa onde a maioria das pessoas era negra. Alguém fez uma piada e todos os caras na mesa riram. Depois que a gente passou, um dos meus amigos brancos perguntou por que os negros parecem macacos quando dão risada.” – Jelani, 25 anos

“Num estágio, uma das garotas com quem eu trabalhava gravou um vídeo meu e queria postar nas histórias do Snapchat dela. Ela me pediu para repetir o que eu tinha dito. Então eu disse a mesma coisa do mesmo jeito e ela gravou de novo. Ela me pediu pra repetir. 'Sabe, mas mais assim', ela disse, fazendo aquela coisa com o pescoço indo de um lado pro outro, no que ela achava que era uma atitude negra. Eu disse pra ela que não falava assim, e me virei para continuar meu trabalho. Ela implorou e eu acabei fazendo. Era minha primeira vez num ambiente de trabalho. Eu não queria estragar tudo; eu queria fazer amigos e aprender. Eu queria me encaixar porque já não encaixava.” – Niama, 26 anos

“Um faxineiro que estava limpando minha classe me disse uma vez 'Não me entenda mal, mas os negros envelhecem muito bem'. Minha resposta foi um 'obrigada' confuso. Ele continuou dizendo 'Acho que vocês envelhecem bem porque precisam passar hidratante o tempo todo'. Expliquei pra ele que pele seca é um problema de todo tipo de pessoa, não só dos negros.” – Jasmine, 29 anos

Siga a Janae Price no Twitter.

Siga a VICE Brasil no , Twitter, Instagram e YouTube.

ver Vice Brasil
#relatos
#brancos
#gírias
#preconceito
#racismo