Esse escritor prevê uma onda de serial killers em 2035

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Pouco menos de 39 anos atrás, num motel barato do estado de Nova York, nos EUA, Peter Vronsky topou com um homem conhecido como o Times Square Torso Ripper. Foi um encontro rápido, mas mudou a vida de Vronsky.

Depois de cruzar caminho com um assassino conhecido por só deixar o torso das vítimas para trás, Vronsky vem estudando homens como ele.

Nos anos desde o encontro, Vronsky, agora um historiador investigativo e professor da Universidade de Toronto, no Canadá, escreveu vários livros sobre o tema, incluindo Serial Killers: The Method and Madness of Monsters. Seu novo livro, Sons of Cain, tenta abordar o que criar assassinos em série: o que gera pessoas como eles, que similaridades eles têm com as pessoas comuns e há quanto tempo eles estão aqui?

Vronsky passou anos pesquisando para o livro e pelo menos quatro escrevendo. Nele, ele argumenta que, graças às guerras no Oriente Médio e a crise financeira de 2008, estamos prestes a ver um surto de serial killers em duas décadas. Mais perturbador, ele também diz que no fundo de todos nós – na área em que você armazena todas as coisas ruins – existe um serial killer.

A VICE ligou para o Dr. Peter Vronsky para falar sobre uma possível onda de assassinatos em série, as similaridades entre obesidade e serial killers, e nossos assassinos interiores.

VICE: Por que você decidiu passar a vida pesquisando serial killers?

Vronsky: Em 1979, eu estava trabalhando como assistente de produção e viajando por Nova York entregando filmes. Acabei ficando preso durante uma dessas viagens e tive que encontrar um lugar barato para ficar, então fui para um hotel tosco conhecido por prostitutas. Enquanto eu tentava fazer meu check in, um indivíduo no quarto acima do meu assassinou duas mulheres, cortou as cabeças, colocou fogo nos corpos e fugiu da cena.

Eu estava no saguão tentando subir. Fiquei irritado porque alguém estava segurando o elevador lá em cima – acho que ele estava segurando as portas para ter certeza que o fogo estava se espalhando. Quando ele finalmente desceu e me deu um olhar sinistro, era Richard Cottingham, o Times Square Torso Killer. [Cottingham matou “oficialmente” seis pessoas, mas dizia que tinha matado centenas. Ele ganhou esse apelido porque desmembrava os corpos e só deixava os torsos na cena do crime.] Ele estava com uma bolsa, onde as cabeças estavam. Ele passou por mim, foi um encontro de dez segundos. Ele parecia um cara normal, e só depois descobri quem ele era. Daquele ponto em diante, fiquei muito interessado de onde esses monstros vêm.

Você fala muito sobre a “era de ouro” dos serial killers. O que é isso exatamente?

Foi o período entre 1970 e 1999, quando surgiu o termo serial killer. Pense na era em que Ted Bundy, John Wayne Gacy e Jeffrey Dahmer eram famosos na sociedade. Quando isso estava no auge da cultura popular. Estatisticamente, essa foi uma era onde 82% dos assassinos em série americanos no século 20 apareceram. Eu, e outros, chamamos isso ironicamente de a era de ouro do assassinato em série.

Tudo isso aconteceu nessa era por quais motivos?

Esse é o mistério que eu estava tentando resolver. Muitas vezes a explicação tem a ver com como a sociedade era quando aqueles assassinatos em série ocorreram. Mas cheguei a essa outra ideia. Serial killers, estatisticamente, matam sua primeira vítima aos 28 anos, mas suas fantasias começam a se desenvolver às vezes quando eles têm apenas cinco anos. Isso geralmente varia de cinco a 14 anos. Então comecei a pensar que, como com Ted Bundy, John Wayne Gacy e todos esses caras, você tem que voltar para quando eles eram crianças.

Então comecei a ver que essa Era Dourada de serial killer era formada de pessoas que cresceram entre os anos 1940/1950 principalmente. Considerei o momento em que eles estavam vivendo, o tipo de cultura em que eles estavam sendo criados e quem eram os pais deles. Na era em que eles estavam crescendo, houve dois grandes eventos – a Grande Depressão, que decimou uma geração de homens que deveriam ser aqueles que ganhavam o pão na família, e a Segunda Guerra Mundial, que traumatizou muitos pais e devastou muitas famílias. Pensamos na Segunda Guerra como uma 'guerra boa', mas não foi, e ela deixou muitos homens com problemas. Também havia essa mudança cultural onde revistas celebravam o que as feministas chamariam, com razão, de cultura do estupro.

Há similaridades nesses fatores com outros períodos, por exemplo os homicídios em série do final do século 19 – a era de Jack, o Estripador, e um pouco antes. Tem muita coisa similar aí.

E o que você acha que vai acontecer no futuro?

Recentemente parece haver um declínio nos homicídios e, paralelo a isso, também um declínio dos homicídios em série. Mas aí você pensa na Guerra ao Terror, onde não só pais lutaram, mas mães também. Também tivemos a crise financeira de 2008 que devastou milhões de famílias nos EUA. As pessoas perderam suas casas, você tem uma geração de crianças crescendo em quartos de motel, basicamente. Essa geração de trabalhadores perdeu seu orgulho e capacidade de sustentar suas famílias.

O que me preocupa é que estamos encarando uma geração de crianças que vão atingir os 28 anos em 20 ou 15 anos, e vamos ver um aumento de homicídios em série junto com outros problemas sociais. Alguém se tornar um assassino em série não é automático, mas sabemos que problemas de comportamento em adultos geralmente são resultado de traumas da infância. Sejam serial killers, ladrões ou usuários de drogas, famílias problemáticas produzem crianças problemáticas, e crianças problemáticas se tornam adultos problemáticos.

Tem algum jeito de combater isso?

Bom, essa é uma pergunta utópica, não? Quem dera pudéssemos viver numa sociedade que cuida das suas crianças. O jeito de impedir o surgimento de serial killers, claro, é reduzir o número de crianças traumatizadas.

Outra ideia do livro é que humanos são programados para serem assassinos e que desaprendemos esse traço por meio da nossa criação. Como você chegou a essa ideia?

Isso veio das minhas experiências quando criança, acho. Por alguma razão, lembro de coisas de quando era muito novo. Lembro das outras crianças sendo muito selvagens, mordendo, enfiando o dedo nos seus olhos, agarrando e arranhando umas as outras. Crianças são meio animalísticas então começou a fazer sentido para mim que, como espécie, os homo-sapiens estão aqui há 300 mil anos, mas vivemos a maior parte desse período num estado animal onde tínhamos que sobreviver caçando e coletando.

Tínhamos que sobreviver através das quatro necessidades básicas: fugir, lutar, comer e procriar. Se não tivéssemos nos envolvido nisso, nossa espécie não teria sobrevivido. Aproximadamente 15 mil anos atrás, de 300 mil, começamos a desenvolver a agricultura, viver em grupos e cidades etc. Agora temos que viver uns com os outros, então nossos instintos violentos precisam ser inibidos. O que acho que acontece com os serial killers é que eles não são socializados corretamente, então esses instintos são superdesenvolvidos ou não são inibidos o suficiente.

Basicamente, meu argumento é que, quando somos crianças, temos esses instintos animais primitivos de “Quero isso agora”, e bons pais, infâncias felizes, estabilidade do nosso ambiente, todas essas coisas nos afastam desses instintos e nos ensinam a inibi-los. Os que ficam para trás se tornam os jogadores violentos da nossa sociedade. Eles não são necessariamente serial killers, mas são pessoas que usam violência além do necessário para autopreservação. Então nesse sentido, todos nós somos meio que serial killers desfeitos.

Se você pudesse fazer as pessoas tirarem uma coisa do seu livro, o que seria?

Saber que os serial killers somos nós. Encontramos o inimigo e somos nós. Eles vêm da nossa sociedade. Eles vêm do nosso mundo. Eles são nossos vizinhos. Nossos professores. Nossos maridos. Nossas esposas. Eles sempre estiveram conosco parcialmente porque tivemos que ser uma espécie serial killer para sobreviver. Comparo assassinatos em série com obesidade. Obesidade é um artefato da nossa sobrevivência, porque é nossa habilidade de armazenar gordura para tempos de escassez de alimento. Agora, no mundo ocidental, a capacidade de armazenar gordura se tornou algo destrutivo. É isso que é o assassinato em série hoje. Algo que era necessário naturalmente para nós, mas na nossa sociedade moderna, assassinato em série é destrutivo.

A entrevista foi editada e condensada para maior clareza.

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