‘Marcha Cega’, documentário sobre violência da PM nos protestos, chega aos cinemas

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Tudo começou ocupações das escolas , clamores por intervenção militar, o impeachment de Dilma Roussef, a prisão de Lula e os imperativos de #ForaTemer.

Entre as muitas questões que brotaram está a aparentemente insolúvel tragédia da segurança pública. Quando um fotojornalista perde o olho por causa de um tiro de borracha em pleno exercício profissional e ainda assim é considerado responsável pela injúria sofrida, o que se entende por democracia? Para esquentar o debate de que a ação policial nas manifestações populares precisa ser revista, o diretor Gabriel Di Giacomo produziu o documentário Marcha Cega, que dimensiona a repressão policial nos protestos de São Paulo ao longo dos últimos cinco anos.

Com riqueza de imagens coletadas junto a pessoas que estiveram no meio dos acontecimentos, inclusive muitas realizadas pelo funcionário da VICE Felipe Larozza, o retrato é acrescido de depoimentos que ajudam a entender pontos cruciais do controle social a serviço do Estado – nomes como Eduardo Suplicy e do tenente-coronel reformado da PM Adilson Paes e Souza.

A estreia rola nesta quinta (27) no Projeta às 7h, e o doc entra em cartaz em 20 salas do Cinemark por todo o Brasil.

Gabriel Di Giacomo bateu um papo com a VICE para falar sobre Marcha Cega. Acompanhe:

VICE: Qual foi a gênese deste documentário?
Gabriel Di Giacomo: Em 2016, logo que começaram os protestos contra o impeachment da presidenta Dilma, diversos amigos começaram a ir pra rua e se iniciou uma onda de repressão. Como eram várias manifestações seguidas, a cada dia um amigo se machucava de alguma maneira, ou com estilhaço de bomba, ou na correria, e começamos a remontar na memória as situações que aconteceram em 2013 nos protestos contra o aumento da tarifa de ônibus, depois Copa do Mundo, e em 2015 nas ocupações das escolas. Ficou muito claro que era uma sistemática ação do Estado de reprimir as manifestações. Então pensamos em juntar o que aconteceu em todos esses anos pra mostrar que não é nada acidental. É uma coisa programada mesmo, não tem jeito. Cobrimos até 2017 com umas imagens da Greve Geral.

Todo ano tem uma grande manifestação em São Paulo, sempre tem uma onda de protestos. O que aconteceu de especial em 2016 pra vocês verem que era a hora de costurar uma narrativa?
Naquele momento, o que deu o clique mesmo é o caso dos 26 que foram presos no protesto contra o impeachment, que tinha o Balta, major do exército infiltrado. Aí é uma história que remonta completamente á época da Ditadura Militar. Essa história é muito assustadora, ter um militar infiltrado numa ação, provavelmente, combinada com a Secretaria de Segurança de São Paulo, para prender movimentos sociais legítimos, que não tinham feito absolutamente nada. Nesse caso do filme, você não tem nem como argumentar que as pessoas praticaram algum delito. São pessoas completamente inocentes sendo criminalizadas só por terem expressado a sua opinião. Foi quando eu falei, “Não é possível, o que está acontecendo com o nosso país?”.

Cena do documentário 'Marcha Cega'. (Divulgação)

O caso do Sérgio Dias é certamente o mais emblemático de injúria física nos protestos, não?
Um dos principais casos é o do fotógrafo Sérgio Silva, quando começaram essas ondas de repressão em 2013. É um caso clássico e horrível porque além dele estar trabalhando e levar um tiro de bola de borracha no olho, ele perdeu a visão e o processo dele se arrastou até o ano passado, quando foi considerado culpado por se colocar numa situação de risco. Isso é uma loucura. Por isso o documentário não fala só da questão da Polícia Militar, é uma coisa que envolve todo o Estado, inclusive o judiciário, uma legislação contra a liberdade de expressão das pessoas. Tem gente que está respondendo processo até hoje, podem ser condenadas, e não fizeram nada.

Por que o policial que agride não reconhece nas pessoas que protestam contra práticas do governo uma causa comum, ou, um direito legítimo?
Conversando com os especialistas, o Luiz Eduardo Soares, o Secretário de Segurança Nacional, o Adilson Paes de Souza, que é um tenente coronel reformado da polícia, uma psicóloga que fez um trabalho no batalhão da polícia, tem alguns motivos. A ideologia da corporação ainda tem aquela visão da formação dos policiais para combater um inimigo. A partir do momento em que um policial vai pra rua, ele está ali enfrentando um inimigo, não lidando com cidadãos. Outra questão é o alto nível de estresse do policial, sem receber o atendimento psicológico necessário da corporação. Já é um sujeito alterado, que não vai agir com proporcionalidade dependendo da situação. E a própria estrutura militar, por ser tão verticalizada... são ordens superiores que chegam, aí o cara tem que obedecer... acaba levando pra essa situação. Como os policiais não podem se posicionar politicamente, rola essa situação explosiva mesmo, não tem muito pra onde correr.

Não é uma questão de treinar melhor o policial, então, mas de dar outra formação?
É uma questão de reorientar a polícia a proteger o cidadão, uma reciclagem total. Um processo longo, mas que se mostra cada vez mais necessário. O modelo de segurança pública que a gente tem hoje em dia só se mantém cúmplice da tragédia.

Qual a verdadeira função da polícia, em sua ótica?
A polícia, no Estado de São Paulo, é usada de forma política também, né. Ela atente aos interesses do governo estadual. Se o governo não tiver interesse que uma manifestação contra a tarifa cresça, vai chegar a hora dessa manifestação ser reprimida.

Essa coisa de como a polícia age nas manifestações é curiosa, porque no caso das manifestações da direita, que começaram a rolar em 2014, povo com camiseta da CBF e tal, o tratamento era nitidamente outro...
Visualmente é muito louco porque até o uniforme da polícia é diferente nessas outras manifestações. Um uniforme todo bonitão, todo mundo com o rosto descoberto. Eles não estão com o capacete que fecha o rosto, não tem a Tropa de Choque próxima. Parece uma roupa pra tirar selfie mesmo.

Trailer do documentário Marcha Cega.

Achei pertinente uma passagem do trailer que mostra como a mídia de massa colaborou para uma visão distorcida dos manifestantes, martelando no uso da palavra “vandalismo”.
A partir do momento em que se taxa de vandalismo, acabou, a pauta não interessa. É notório, todo mundo sabe, que o Estado anuncia em todos os veículos de comunicação. As empresas e bancos estaduais. Tem um interesse financeiro direto mesmo, é um fato. E, além disso, no Brasil, tem a bizarrice de que vários políticos são donos de filiais de canais de tevê e rádio. Então, os meios de comunicação vão defender os interesses desses políticos, fora os dos investidores dos canais também, né. A informação do canal está a serviço do seu investidor, das corporações.

Imagem extraída do filme dirigido por Gabriel Di Giacomo. (Divulgação)

Voltando à história toda do Sérgio Silva, taí um caso digno de desconstrução. Ele foi um cara que comprou a briga, quis ir atrás de seus direitos e não consegue de jeito nenhum...
O Estado não reconhece o erro. Isso é uma violência abordada pelo documentário. O princípio de uma mudança é o Estado reconhecer os seus erros, a polícia admitir que agiu de forma errada. Todos os poderes jogam contra a população, isso é muito assustador. E notar como as práticas da época da Ditadura Militar são tão presentes na segurança pública de hoje em dia, isso é uma coisa aterrorizante. Democratizou-se vários setores do governo, mas a segurança pública ficou encerrada em 1964.

Que outra história de vida além da dele você destacaria no documentário?
A da Micaela Cyrino, de 2013, nas manifestações do Passe Livre, que ela estava indo embora pra casa, aí os policiais pegaram ela, arrastaram e ficaram espancando dentro do camburão. Um fotógrafo, cuja filha é amiga dela, registrou as cenas, e a filha dele reconheceu ela nas fotos. Ela apresentou as fotos na corregedoria, e mesmo assim, no processo diz “a vítima não reconheceu seus agressores”. Não adianta prova, não adianta ter razão, os caras vão invadindo, vão pra cima do cidadão, e é isso.

A coleta das imagens do documentário foi um trampo de guerrilha, né?
A gente conseguiu imagens de vários colaboradores, que fazem esse trampo há muito mais tempo que a gente, e todo mundo foi muito receptivo pra licenciar todo o material de 2013-15. Todo mundo é muito solidário nessa área, vai um indicando o outro. Todos os casos que mostramos foram cobertos com bastante imagem. Teve até o Larozza, aí da VICE, que descolou imagens também.

O filme foi realizado de modo totalmente independente?
Foi. Depois de pronto, mandamos pra distribuidora Elo Company. E a Elo teve essa ideia, que a gente achou excelente, de encaixar no Projeta às 7h. É um projeto do Cinemark em que o filme fica duas semanas em cartaz nos cinemas do Brasil inteiro, de segunda a sexta às sete da noite, e o legal é que o ingresso custa 12 reais, a meia, seis. É um preço muito acessível. Depois disso o filme fará um ciclo nos demais cinemas. É legal porque você coloca o filme num ambiente onde não é comum passar um documentário com essa temática, e pode atrair pessoas que estão passeando no lugar.

Cena de 'Marcha Cega' (Divulgação)

O que você pensa sobre o melhor caminho pra tentar solucionar a questão da segurança pública no Brasil?
O sistema que temos hoje de segurança pública não funciona, tanto pra lidar com manifestações como no cotidiano, principalmente nas periferias das cidades, então acho que é muito importante ter essa conversa pra debater segurança pública, qual o papel da polícia na sociedade. Não adianta querer ficar defendendo uma coisa que não funciona.

Como você vê, por exemplo, a proposta de desmilitarização da polícia?
Acho que a desmilitarização é um caminho muito interessante, que coloca o policial como parte da sociedade, e não um militar lá e seu regimento interno maluco que causa opressão nele e tal. Pra mim, o ideal seria o governo envolver a sociedade na discussão. Tem um monte de especialistas, gente interessada, como o Luís Soares, o Adilson, ONGs legais pra caramba, que querem discutir segurança pública no Brasil, porém não são ouvidas. Se existisse um processo do qual a sociedade realmente participasse, seria interessante. Mas acho que desmilitarizar é fundamental, o primeiro passo realmente seria esse. Unificar as polícias.

Por que isso nunca aconteceu?
Como a polícia está a serviço do governo e das elites, pra eles está bom desse jeito. Essa função de manter as pessoas cegas, reprimir as periferias, isso pra eles está funcionando, mas pra sociedade não está. É interessante as frentes progressistas debaterem segurança pública também. Porque, quando a gente fala de polícia, não tem como, é preciso conversar sobre isso. A polícia deveria ser orientada a defender os direitos do cidadão, e não combatê-los.

Assista ao nosso documentário As Jornadas de Junho 2013

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