Fui um espião dentro da Al-Qaeda

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Numa lan house em Peshawar, Paquistão, um dos principais fabricantes de bombas da Al-Qaeda – recém-saído de anos no acampamento jihadista Darunta no Afeganistão – tomava uma decisão crítica de pular o muro e espionar os homens para quem passou anos trabalhando. Era uma decisão que, entre a espada de um executor da Al-Qaeda e suas próprias lutas com sua fé, não podia ser revertida.

Em 1999, quatro anos depois de partir para a jihad, o homem conhecido como Aimen Dean tinha visto o suficiente. O que tinha começado como uma tentativa de salvar muçulmanos da perseguição na Bósnia se transformou em ser parte de uma célula que atacou duas embaixadas americanas, matando 224 pessoas, no Quênia e na Tanzânia. Com o coração disparado e um olho na porta, Dean assistiu arquivos da cartilha de fabricação de bombas e venenos da Al-Qaeda lentamente serem copiados para outro disco rígido. Ele sabia que aquele disco poderia protegê-lo se ele conseguisse entrar em contato com as autoridades – mas se ele fosse pego, era um ingresso para a decapitação certa.

Quando seu disco estava seguro, Dean voou para Catar, onde foi preso por oficiais do país. As pessoas que o prenderam deram a ele uma escolha: se tornar um trunfo de segurança para o Reino Unido ou para a França. Dean escolheu o Reino Unido e logo se tornou um dos principais infiltrados do MI6, a principalmente agência de inteligência do governo britânico, fornecendo acesso a uma parte do Afeganistão em grande parte cortada da internet e do radar. Em certo ponto, ele era o único infiltrado no regime WMD da Al-Qaeda, ajudando a expôr campanhas para liberar gás venenoso no metrô de Nova York, além das ações de recrutamento e financiamento de terrorismo por imãs no Reino Unido como Abu Hamza e Abu Qatada.

O disfarce de Dean foi descoberto em 2006, quando um trecho do The One Percent Doctrine – um livro sobre os esforços de contraterrorismo americanos – foi publicado pela revista TIME. As fontes citadas no livro davam tantos detalhes sobre um espião conhecido como “Ali”, que o comando da Al-Qaeda percebeu que o infiltrado era o homem que passou uma década fazendo suas bombas.

Hoje, sentado num café em Tottenham Court Road, Londres, o homem de óculos e fala mansa de 39 anos não parece nem um jihadista de olhar ensandecido nem um superespião que passou dez anos com alguns dos homens mais perigosos do mundo, entre eles Osama bin Laden. Dean me conta que inicialmente admirava o homem que depois se tornaria o terrorista mais procurado do mundo. “Ele era muito alto – com mais de 1,80 metro – e falava tranquilamente, como um diretor de escola simpático”, ele diz. “Não havia a sensação da ameaça ou raiva que ele mostrou depois.”

A jornada de Dean no jihadismo foi acelerada por uma tragédia pessoal. Crescendo na Arábia Saudita, seu pai morreu num acidente de carro quando ele tinha quatro anos, e a mãe morreu de repente quando ele tinha 14. Aos 16 anos, um desolado Dean precisou de pouco encorajamento para seguir seu professor de escola e amigos mais velhos, que nesse ponto estavam combatendo milícias sérvias ao lado de muçulmanos bósnios.

“A jihad não precisava de mim, eu precisava da jihad”, ele diz. “Na TV, eu via bósnios muçulmanos serem mortos por franco-atiradores sérvios indo comprar pão. Eu queria me tornar um mártir dessa causa.”

Com apenas dois dias de treinamento médico, ele foi largado na linha de frente como paramédico, e logo percebeu que aquela guerra não era tão gloriosa assim. “Eu ouvia homens gritando de dor, mas responder a qualquer barulho ou pedido de ajuda significava que os franco-atiradores podiam te achar”, ele diz. “Um homem recebeu uma rajada de metralhadora na barriga. Amarrei meu cachecol em volta do abdômen dele para impedir seu intestino de sair.”

Na escola, Dean era ótimo com matemática e mapas – habilidades que de repente se tornaram úteis quando ele foi encarregado de disparar morteiros de 120 mm contra alvos inimigos. Em uma escaramuça, ele disparou um morteiro que acertou em cheio soldados sérvios escondidos num cemitério. “Eu não tinha simpatia por eles”, ele diz. “Encontramos os restos queimados de bebês e corpos de muitas mulheres e crianças em vilarejos muçulmanos. Os sérvios contra quem lutávamos eram responsáveis por essas atrocidades.”

Quando a Guerra Bósnia acabou, o desespero de Dean para se tornar um mártir o levou para o Afeganistão e o esconderijo da Al-Qaeda em Darunta. Lá, as dúvidas com as ações do grupo que pingavam na mente dele na Bósnia se tornaram uma inundação.

Três anos depois de deixar sua casa na Arábia Saudita, ele tinha testemunhado camaradas executarem prisioneiros sérvios, e agora estava encarregado de fazer venenos e armas para matar civis, testando toxina botulínica em coelhos. A conversa mudou de construir armas para proteger muçulmanos vulneráveis para atacar o Ocidente em ataques suicidas, e dispositivos para serem detonados em cinemas, praças e clubes noturnos. “A Al-Qaeda queria matar pessoas inocentes”, ele diz. “E a culpa de testar os venenos também me assombrava como amante de animais. Nos meus sonhos, coelhos me perseguiam.”

Ficar naquele acampamento convivendo com algumas das pessoas mais cheias de ódio do mundo só cimentou o desejo de Dean de se voltar contra eles. “Abu Nassim – que depois seria o cérebro por trás dos ataques nas praias da Tunísia – gostava de torturar coelhos nos nossos testes de armas”, diz Dean. “Ele era um completo psicopata. Ele contava histórias sobre seus dias traficando drogas em Milão, mas gostava principalmente de falar sobre destruir o Ocidente.”

Usando uma mistura de agentes químicos e baterias de relógio Casio comprados nos mercados do Paquistão, o trabalho de fazer as bombas era extremamente arriscado. “Abu Hamza dizia que tinha perdido as mãos e um olho lutando com soviéticos ou removendo minas, mas, na verdade, ele ignorou um conselho sobre misturar químicos na temperatura errada”, ele diz. “Um composto explodiu sua mão, que ficou enfincada no teto.”

Depois de concordar em ajudar o MI6 a expôr o trabalho da Al-Qaeda, Dean precisava continuar fazendo bombas, mas diz que garantia sempre que o dispositivo não funcionaria, ou criava problemas para atrasar o uso, tudo isso trabalhando ao lado de aspirantes a assassinos.

Dean deu informações sobre o jihadista britânico Hamayun Tariq, um mecânico de Dudley, Midlands Ocidentais. Dean liderou Tariq num esquema deliberadamente falho para envenenar maçanetas de carros usando nicotina, numa tentativa de matar pessoas com o toque. “Desde então”, diz Dean, “ele se tornou muito habilidoso e, sem dúvida, é o melhor terrorista a emergir da Inglaterra. Agora ele está determinado a atacar estádios e eventos públicos com drones. Ele foi o responsável pala proibição de notebooks em aviões”.

Durante seu tempo trabalhando para o MI6, Dean visitava periodicamente o Reino Unido, se infiltrando numa cena jihadista cercando a mesquita de Finsbury Park no começo dos anos 2000. Dean diz que nenhum dos homens no topo da cena – Abu Hamza e Abu Qatada, entre outros – deveriam ser imãs, já que são impostores. “Homens como Qatada nem conhecem o Corão, mas ainda assim dão fátuas para psicopatas matarem outras pessoas”, ele diz. “Ele emitiu uma fátua para argelianos matarem policiais, diplomatas e famílias de funcionários públicos – cabeças de bebês foram esmagadas contra paredes lá.”

Em seu tempo espionando para o MI6, Dean ficou com os nervos à flor da pele em várias ocasiões. No Afeganistão, um policial secreto da Al-Qaeda colocou uma arma na espinha dele para testar sua reação. “Ele me disse 'O jogo acabou, sabemos quem você é'. A inteligência da Al-Qaeda sempre fazia esses testes, mesmo sendo proibido pela lei do acampamento apontar uma arma para alguém.” Durante seu tempo no acampamento Darunta, seis outros espiões foram capturados e decapitados. O único que conseguiu sair com vida foi ele. “Eu nunca assistia o julgamento ou execução de espiões. Minha sanidade não permitiria”, ele diz.

Quando seu disfarce foi descoberto, Dean voltou para o Reino Unido para tentar levar uma vida normal, trabalhando em contraterrorismo em outras áreas. Ele é incrivelmente indiferente sobre os perigos que enfrenta, mesmo considerando que muitos de seus possíveis executores agora estão presos. Mas esse passado ainda o perturba. Ele teve que abandonar uma viagem de família para um casamento em Bahrein em 2016, quando autoridades deram a dica que dois assassinos estavam esperando por ele na chegada. Em outra ocasião, ele teve que fugir de um ex-membro da Al-Qaeda no metrô em Kensington, se escondendo numa loja Boots até o perigo passar.

Com a batalha contra o extremismo ainda se desenrolando, Dean tem um aviso para quem pensa em se tornar um jihadista. “Passei seis anos da minha vida em cinco zonas de guerra diferentes”, ele diz. “Posso dizer que você não pode dar a nação que tanto odeia agora como garantida. Polícia, hospitais, sociedade. Esses jihadistas wannabe nunca passaram um dia sem uma refeição quente. Eles nem aguentam ficar sem internet. Pense no que você está buscando criar.”

Compre o livro de Aimen Dean, Nine Lives – My Time as MI6's Top Spy Inside Al-Qaeda, aqui.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Reino Unido.

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