Comediantes explicam por que ‘Nanette’ de Hannah Gadsby é tão inovador

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Hannah Gadsby, uma comediante queer da Tasmania, provavelmente não estava nos radares da comédia americana até seu especial no Netflix, Nannete, ser lançado no começo de julho. Mas agora ela é o assunto do momento.

O especial, se você ainda não viu, começa como a grande maioria dos standups. Gadsby mergulha em sua vida pessoal e traz à tona sua vulnerabilidade falando sobre sair do armário como lésbica com várias piadas pra fazer o que todo comediante faz – quebrar o gelo. No entanto, conforme sua apresentação continua vai ficando mais pesada. Ela fala sobre a natureza do humor autodepreciativo, afirmando que a autodepreciação de alguém que já existe nas margens não é humildade, “É humilhação.”

“Eu me rebaixo para falar, para pedir permissão pra falar,” ela diz. “E eu simplesmente não vou mais fazer isso. Nem comigo, nem com alguém que se identifique comigo.”

“Gadsby menciona muitas vezes que ela sente que deve largar o standup. No seu ponto de vista, coisas como abuso e discriminação não deveriam ser transformados em piadas. Ela aponta brilhantemente como o standup promove homens problemáticos. Durante o escândalo sobre Monica Lewinsky e o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, Monica foi transformada em piada e sua vida foi arruinada. Gadsby pede que comediantes pensem sobre seu envolvimento em situações como essa.

O especial provocou muito debate, especialmente na comunidade de comediantes. A maior queixa (ridícula) que ouvi foi que sua apresentação não poderia ser considerada um especial de comédia porque não tem piadas o suficiente. Pra mim, muito do que Gadsby diz é verdade e estou feliz que ela tenha dito.

Eu estava ficando cansada do standup por algumas das mesmas razões que ela descreve, mas em vez de me fazer querer desistir, o especial dela me tirou da covardia. Me lembrei do principal motivo pelo qual resolvi fazer standup – eu poderia ser ouvida. Uma palco de standup é um dos poucos lugares que eu sabia que um homem teria que sentar, calar a boca e me ouvir falar. Enquanto estou no palco, ele é obrigado a ouvir as palavras de uma mulher com quem ele não quer transar.

Como uma mulher que na maior parte das vezes faz piadas críticas a caras héteros com seus 20 e poucos anos, estou muito acostumada a alienar parte do meu público. A maioria dos fãs de comédia são homens e eles ainda não estão acostumados a ouvir uma mulher falando suas verdades reais e descaradas. Meu estilo de comédia é considerado “comédia feminina” em vez de simplesmente comédia – é considerada nicho, simplesmente porque é a perspectiva de uma mulher em vez da de um homem. Nanette foi um lembrete pra mim de que dizer o que eu realmente sinto é mais importante do que arrancar gargalhadas de cada pessoa da platéia.

Conversei com alguns dos meus colegas da comédia pra ver como eles se sentem com relação à Nanette. Eles concordam com a tese de Gadsby? A conclusão deles foi similar ou diferente da minha? Aqui está o que eles disseram.

Foto cortesia de Guy Branum

Guy Branum

Primeiramente precisa ser dito que Nanette é uma obra de arte poderosa. É brutalmente honesta e brutalmente inteligente, que são duas coisas que eu aspiro para o meu standup. A metáfora que Gadsby faz usando Picasso é tão brilhante e verdadeira: algo que atrai o público ao standup é a singularidade da perspectiva do comediante. É apenas através da diversidade que essa expressão artística extremamente subjetiva pode refletir um mundo real. Dito isso, por que ela tem que deixar a comédia para realizar isso?

A tese fundamental do trabalho, que a comédia standup é uma ferramenta inadequada para reflexão da complexidade da vida humana, que transforma as pessoas em objetos de trivia em vez de contar sua história completa, é incorreta. É niilista. Histórias são legais se você está falando com pessoas que estão prontas para ouvir aquelas histórias. Brincar com a sua dor, o seu coração partido, ou a desumanização só pode ser recebido pelo público que esteja na mesma página que você. Standup é redutivo, mas também é ambíguo. Gadsby critica o standup porque ele não termina com uma moral. Eu gosto do fato de que o standup termina com uma tensão. Uma piada termina em múltiplas verdades pesando umas contra as outras, pedindo à platéia para participar, para questionarem a si mesmos, para crescer.

Olha, eu AMEI Nanette, e fiquei fascinado. O fato de eu ter discordado não significa que seja uma arte ruim, significa que é uma grande arte, que me fez pensar. Mas perpetua a narrativa de que pessoas queers não fazem o standup tradicional e que esse não é um espaço para nós. Eu amei Nanette, e adorei que ela tenha PROBLEMATIZADO o standup, mas não curti que a Hannah teve que anunciar que estava deixando o standup para faze-lo. Você não pode revolucionar uma arte cagando nela, a não ser que seja o fim dos anos 80 e você esteja recebendo uma grana do governo pra fazer o seu show.

O novo livro de Guy Branum, My Life as a Goddess, estará disponível agora no final do mês.

Foto cortesia de Jenny Yang

Jenny Yang

Eu estava assistindo esse especial em um vôo e estava chorando ridiculamente no meu assento do avião. Fiquei muito comovida. Não só porque ela estava falando de algo que eu não sabia, mas porque ela estava expressando muito bem como eu sempre me senti. Antes de fazer standup, eu fazia poesia. Pra mim, fazer poesia era uma linha direta entre o que eu sentia e o que queria expressar. Quando eu comecei a fazer standup, eu sabia que me tornaria uma verdadeira comediante se eu tivesse a mesma experiência no standup que eu tive recitando poesias. Uma conexão direta entre meu coração e minha história, e o que era apresentado no palco. Seu ponto sobre o humor autodepreciativo ser uma importante peça do standup é super real. É a primeira coisa que você aprende. Regras do parquinho. Você tem que ter certeza que você entende como você é, como é sua aparência, e como usar isso. Se você é qualquer coisa fora do padrão, a primeira lição é que você deve fazer piadas de si mesmo primeiro para que as pessoas sintam que podem confiar em você, e você mostre que tem autoconsciência.

Eu estou no processo de repensar meu ponto de vista. Não estou 100% contente com a persona que eu apresento no meu show atual. O ponto chave disso tem sido pensar sobre minha necessidade de apresentar um humor autodepreciativo pra convencer as pessoas de que sou aceitável. Estou agora lutando com essa ideia de que eu tenho que deixar as pessoas saberem que eu posso fazer piadas de mim mesma antes de fazer piadas de outras pessoas ou outras coisas que sejam relevantes pra mim.

Quando ela disse que estava saindo do standup, não levei pro lado literal. Interpretei como algo figurativo. É o que parece. Parece que você precisa sair desse tipo de standup pra que consiga ser totalmente capaz de mostrar quem você é, quando você quiser fazer piadas sobre as coisas mais reais e difíceis de uma maneira que conte sua história e ainda entretenha. Há um limite para o standup como arte, se pensarmos apenas em termos de estrutura e piada. E se você não representar uma história mainstream, essa necessidade de fazer piadas de si mesmo como standup pode se tornar duplamente opressiva.

Foto courtesia de Riley Silverman

Riley Silverman

Como alguém que passou a primeira metade de sua carreira no armário antes de se assumir como uma mulher, eu definitivamente senti um vão no humor autodepreciativo como performer. Foi algo que eu fiz muito antes da transição, em partes porque era tão miserável e em partes porque funcionava. Mas depois que eu saí do armário, eu senti que tinha uma necessidade maior de mostrar quem eu realmente era no palco. Senti que sempre que eu demonstrava que tinha alguma vergonha de mim mesma, o público entrava na onda me devolvia a energia de que talvez tivesse algo de errado comigo. Mas quando eu estava confiante ao ponto de fazer uma comédia arrogante, a platéia super entrava na vibe comigo também.

Eu não acho que isso significa que o humor autodepreciativo está totalmente fora de cogitação, e eu definitivamente sinto que geralmente uma das coisas que vale a pena fazer piada sobre mim mesma, faz parte das coisas que as pessoas de fora da minha experiência específica de repente se surpreendem com tanto que se identificam, e isso preenche lacunas de maneiras que eu amo, e é parte do porquê eu adoro a comédia. Mas assim como Gadsby eu também já fui fisicamente agredida por ser quem eu sou, e assim como ela também lutei por um tempo até encontrar um jeito de falar sobre isso no palco. Tanto pra tornar válido como comédia quanto pra me manter fiel ao que realmente aconteceu na minha vida. Acho que onde eu e ela divergimos é que recentemente ela constatou que talvez a comédia não seja a melhor expressão artística para lidar com traumas legítimos, e eu ainda estou lidando com isso, como uma falha do meu talento cômico, que eu ainda não encontrei um jeito de fazer isso funcionar.

Foto cortesia de Caitlin Gill

Caitlin Gill

Eu gostei muito de Nanette. Me pareceu um campo de baseball todo conectado a algo extremamente teatral, o que é interessante. É poderoso, vulnerável, brilhantemente construído, e divertido.

É um prazer ver pessoas que não curtiam, se derretendo. Isso claramente penetra fundo em você, independente se você gostou ou não. A opinião de Gadsby sobre o humor autodepreciativo é perfeita, e sua definição do standup como uma balança entre tensão e alívio foi perfeitamente articulada. Meu próprio estilo e abordagem da comédia mostra que eu tenho teorias diferentes. Ela destila “piada” à sua definição mais simples: uma questão com uma resposta surpresa. Minha definição é um pouco diferente. Na verdade é o seguinte: duas ideias contraditórias que parecem ser verdade. Basicamente são duas maneiras de dizer dissonância cognitiva.

Esse é o tipo de pensamento específico que veio na minha mente enquanto assistia. Eu não discordava de Gadsby, eu pensei em como meus pensamentos e piadas são diferentes. O especial me fez pensar muito sobre como e por quê eu faço comédia. Eu faço com amor porque eu amo. Ele pode ser vulnerável, mas é um ótimo show pra assistir se você precisa de um lembrete do quão poderosa a vulnerabilidade pode ser.

Eu sou muito grata por cada peça que é escrita para um público que não seja composto por caras entre 18 e 49 anos. Eu sou grata pela perspectiva de uma mulher não escrita ou aprovada por caras. Como fã de comédia, eu tenho muito mais tendência a me conectar com alguém como Gadsby do que com a longa lista de clones chatos com uma puta popularidade, então eu dou gargalhadas vendo pessoas socarem seus teclados sobre o assunto.

Outra coisa: Desde que o movimento Me Too tem percorrido pela comédia, eu senti essa pressão para “consertar” o palco para os homens assustados. Para escrever piadas que vão deixar as coisas tranquilas, ou fazê-los se sentirem melhor, ou fazer a platéia se sentir melhor sobre o assunto, e isso é exaustivo pra caralho. Eu não percebi o quanto eu precisava de um set longo, forte e sem culpa.

Danielle Radford

Eu sou uma comediante contadora de histórias. Existe uma extensa linhagem de comediantes contadores de histórias. Eu não entendo por quê esse especial deixou a galera tão irritada.

Nanette me fez sentir coisas. Tudo bem se não fez o mesmo com você. A comédia é subjetiva. Alguns comediantes fazem piadas sobre as inseguranças mais profundas de outros comediantes para multidões, e eles saem pra tomar um café da manhã e isso é comédia. Alguns falam sobre suas vidas familiares e suas falhas e isso é comédia. Tem espaço pra TUDO isso. A comédia é um guarda-chuva gigante. Aproveite e se divirta com o que você se identifica mais. Não se estresse com o resto porque isso não te afeta, seu estranho.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

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