A safadeza madura do novo disco do Carne Doce

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O Carne Doce apareceu tem mais ou menos cinco anos, como um projeto de um casal expondo seu amor em forma de música. O primeiro álbum, que leva o nome do projeto, foi feito apenas pelo casal apaixonado e foi surpreendentemente bem recebido. Quando falo em surpresa, não falo de mim, falo do casal que com o retorno teve que montar uma banda para idealizar o projeto no palco. Depois disso, um EP e mais um álbum Princesa (2016), que foi uma das unanimidades naquelas listas de final de ano que sempre aparecem em diversos sites de música e jornalismo brasileiro.

Podemos dizer que Carne Doce é um romance de sucesso. Daqueles que deu e segue dando certo. É o tipo de projeto que te faz acreditar no amor, no sentido mais piegas e brega da palavra. Provavelmente por conta da Carne Doce, tem casal largando o que tá fazendo pra trabalhar junto, falindo um ano depois, se separando e disputando quem fica com o dog. Isto porque nem todo mundo consegue atingir o que essa galera atingiu em apenas cinco anos. E é chegada a hora do próximo passo.

Tônus, novo álbum da banda, tem 10 faixas, patrocínio da Natura Musical e foi gravado no melhor estúdio de Goiânia, de onde saíram vários clássicos do sertanejo atual. E pelo barulho que os dois primeiros singles do novo trabalho do Carne Doce fizeram, tudo indica que Tônus vai ser um sucesso como foi seu antecessor. Depois de ouvir o trampo todo, para mim, Tônus é um álbum que fala sobre maturidade e tem como tema central o sexo da forma mais banalizada (ou safada, como diz a Salma Jô) e tranquila de se abordar. De uma forma que somente pessoas maduras em um relacionamento muito bem definido poderiam fazer.

Resolvi então bater um papo com o Macloys e a Salma sobre este novo momento. Falamos da perda de vergonha da Salma, dos caminhos seguidos no novo trabalho, objetivos e mais alguma coisa que esqueci, mas vocês conferem abaixo.

Noisey: Na última entrevista pra Noisey, Salma falou que tem remorso de algumas letras do Princesa. Neste novo, a temática parece ser menos feminista. Vocês estão tendo alguma ajuda profissional para lidar com futuros remorsos?
Salma Jô: Hahaha, eu deveria fazer, sim, mas não estou fazendo nada. Acho que não escolhi bem a palavra "remorso". O que eu estava comunicando era realmente uma certa incompetência minha em lidar com algo tão básico e óbvio no nosso ofício, que é o descontrole sobre o sentido das próprias obras depois que publicadas. E também um ressentimento comigo mesma de não ter feito letras melhores, mais bem desenvolvidas nos sentidos que eu queria expressar.

Acho que as novas letras estão menos políticas, mas elas ainda expressam uma coisa que já é da minha assinatura, que é exercício e o desejo do poder nas relações pessoais. Tem muitas letras sobre o ponto de vista feminino, como em Princesa. Mas a nossa temática nunca foi feminista no sentido militante da filosofia. Talvez "Falo" e "Artemísia" podem ser usadas para ilustrar um debate, mas elas não são um debate, elas defendem emoções (mesmo que sejam absurdas e indefensáveis), não uma tese. Fazer justiça não é exatamente algo que me inspira artisticamente. Falar sobre as injustiças que cometemos e queremos cometer me interessa muito mais.

Tem uma temática que, agora agrupando as novas músicas, eu percebo se destacar, que é um ressentimento, sentimento de insuficiência, e eu acho que isso é um reflexo dessa insatisfação minha comigo mesma como artista.

A rapidez com que vocês passaram de um projeto de um casal para uma das bandas mais importantes da cena indie pesou neste possível remorso?
Salma: Na verdade nós pensamos no formato de banda (e só nesse formato) logo quando idealizamos nossa primeira apresentação ao vivo. Não tem remorso nisso. Os meninos também são ótimos companheiros, e são pessoas fáceis, agradáveis — acho que sou a integrante mais chata e difícil.

Mas nessa rapidez (que enquanto a gente vivia nem pareceu assim tão rápido) com que crescemos e ganhamos certa importância, os problemas — as questões morais e estéticas que surgiram daí — não foram respondidos sempre na mesma velocidade... Acho que daí surgem umas questões mal-resolvidas.

Rola algum arrependimento pessoal? Me refiro ao relacionamento de vocês mesmo, já que é uma exposição muito grande.
Salma: Não, rola uma responsabilidade a mais um com o outro acho, o que é positivo, é estimulante, saudável até. Se eu em algum momento desanimo ou duvido da minha competência, eu logo penso que o Macloys está nessa também por mim, que eu o incentivei a acreditar nisso, construí isso com ele. Mas isso de trabalhar viajando, encontrando outros artistas, do vigor e da excitação dos shows, tem um tesão e uma juventude nisso tudo (junto com a canseira), esse tesão se reflete no nosso tesão um no outro também.

O release fala em um disco introspectivo. O que significa introspectivo neste disco?
Salma: Haha, hum, eu já disse muito que o meu primeiro desejo ao compor é me agradar, mas talvez nesse disco esse me agradar é mais difuso, ele é menos uma autorização minha de mim mesma, e mais uma exploração psicológica. Quanto aos meninos acho que esse disco é o que provavelmente eles estiveram mais a vontade e donos de si, conscientes e respeitosos um com outro. Ao todo o disco está mais introspectivo e mais maduro, porque estamos olhando menos para fora, mais para dentro, mas com menos intenção arrogante, no sentido de provar-se aos outros, mas de apenas ser.

Gravar num estúdio popular por hits sertanejos é uma escolha política de afirmação goiana?
Salma: Foi uma escolha prática. É o melhor estúdio de Goiânia e é em Goiânia, nossa casa. Pensamos que esse conforto de estarmos em casa valeria o investimento, e assim foi.

Ouvi Tônus completo e meu sentimento é de que é um disco muito "carne doce", no sentido de pele, tato, corpo e sentimento. É carnal, tem vários gostos, inclusive no paladar. O que vocês acham dessa afirmação?
Salma: Eu gostei dessa afirmação, porque, sim, o disco tem um olhar pra dentro, pra si, pro subjetivo. Vários gostos, isso eu gostei mesmo, porque é um disco de poucas cores, mas muitas nuances.

Este disco também me parece o mais calmo da banda. Como tá a recepção das músicas nos shows?
Macloys Aquino: É menos afobado, talvez porque estejamos menos ansiosos ou menos desesperados. No Carne Doce (2014) sentimos que precisávamos gritar pra ser ouvidos. "Ei, existimos!". Em Tônus não temos tanto essa necessidade. Ainda não sentimos a recepção, tocamos apenas três das novas ao vivo. Nessas, ainda tem um estranhamento.

Achei as letras deste disco mais maduras que as dos anteriores. Até "Tônus" parece um olhar maduro sobre a juventude e a gravidade.
Macloys: A Salma fez 31 anos (perguntei se podia revelar), eu tenho 38. Estamos obviamente nos distanciando da juventude e ficando mais íntimos da gravidade.

Lembro da Salma dizer pra mim que fora do palco era um poço de timidez. E "Nova Nova", um dos singles do novo disco, saiu com um clipe bem sem vergonha. Como foi trabalhar toda essa timidez pra rebolar a bunda na cara de todo mundo no video?
Macloys:
É uma bunda estilizada, ou quase, é a Salma, mas não dá pra identificá-la. E quem filmou fui eu, então... Ainda que tenha sido necessária alguma ousadia, ela não viu prejuízo em fazer esse papel. Bebíamos enquanto produzíamos as fotos e vídeos, foi só divertido.

A sonoridade deste álbum é a mais limpa entre todos os discos da Carne Doce. Tendo a por na conta do estúdio de hits, mas queria que vocês falassem do conceito estético.
Macloys:
Não tem a ver com o estúdio, foram escolhas, tanto na composição quanto na produção. O João, que produziu, gosta de trabalhar vazios na música, pra que cada um, em seu instrumento, preencha da melhor maneira possível. Mas isso talvez tenha a ver com o fato de estarmos nos escutando mais. É como um diálogo, é preciso saber ouvir para falar.

Vocês deixaram as bandas para fundarem uma banda junto. Sei que os outros músicos da banda tocam com outros artistas, queria saber se no casal não existe necessidade artística que extrapola a Carne Doce.
Salma: Acho que o Mac está bem satisfeito com o som que a gente faz. Da minha parte, às vezes eu imagino como seria fazer algo ainda mais pop, mas não penso nada elaborado, não tenho nada escrito, e sou um tanto analfabeta musicalmente para pensar instrumentalmente. Ainda tenho muito que me desenvolver e experimentar na Carne Doce, e a banda já tem muito a minha cara.

Falando em referências, de onde a Salma tira as delas pras letras e o tipo de escrita que ela usa
Salma: Da fala, muitas vezes, e por isso tantos erros e um jeito mais despachado. Da música pop em geral, dos clássicos da MPB, da cultura pop, do Twitter, da revista piauí (numa reportagem sobre os irmãos Friboi, por exemplo, um deles reclamava sobre gente que era poeta demais, que era "só espuma"). Tem também um olhar sobre o poder que me agrada muito, e que sempre uso nas letras, que vem do Foucault, que eu li na faculdade e que agora estou aprofundando ainda mais com outras leituras.

Eu queria saber se vocês seguem algum cronograma ou plano, se vocês projetam um futuro. Qual o objetivo da Carne Doce?
Salma: Acho que no nosso cenário é padrão o ritmo de lançar um disco a cada dois anos, e não é uma necessidade inventada, nós precisávamos desse disco agora para manter a nossa agenda de shows, que é o que paga as contas. A gente ainda não consegue fazer planos a longo prazo e isso é uma falta nossa que precisamos corrigir com urgência. Nossa meta para o futuro é continuar trabalhando, ter mais parceiros, ter gente para ajudar na empresa.

"Besta" fala sobre a relação do músico independente, do apoio a cena. E vocês são de um estado dominado por um estilo ou cena musical no qual vocês não estão inseridos, não é a música pop. Queria que vocês desenvolvessem um pouco mais as ideias da música.
Salma: Bem, o sertanejo já não é mais um fenômeno goiano, está em todo o país suplantando todos os estilos, não só o nosso, e pedir por favor às pessoas que mudem seu comportamento me parece que não vai fazer nenhuma diferença. É só um grito de desespero, é preguiçoso e inútil. As pessoas já são pouco solidárias com gente que realmente precisa, porque elas seriam com gente que é voluntariamente artista? Me parece um contrassenso com o nosso desafio que é justamente emocionar, comover, atrair de forma genuína e não por favores, por condescendência, por caridade. É esse o mote de "Besta", é esse risco constante de falhar em emocionar que a gente aceita voluntariamente, porque a gente é besta. O nosso público é muito pequeno, prefere assistir à internet. O que a gente faz é muito de nicho, as casas são poucas, a logística é muito cara e os ganhos poucos, esse é o ponto de partida pra quem monta uma banda. Não dá pra pedir aos outros que deixem a situação um pouco mais confortável para nós, dá para talvez nos mobilizarmos politicamente, pressionarmos as instituições por um uso e uma distribuição melhor das políticas públicas, cobrar curadorias mais variadas etc. Essa trabalheira e essa responsabilidade toda, que eu entendo, mas que também não estou a fim de fazer.

A temática do sexo e a sensualidade está presente no disco desde a primeira faixa “Comida Amarga”. "Amor distrai (Durin)" é 100% sobre o tema, que reaparece ao longo do álbum. Esta é a temática do trabalho ou é coisa de momento? Ou como em Princesa existe uma necessidade de impor o tema de forma mais liberal?
Salma: Acho que desde o primeiro EP tenho esse desejo de falar dos desejos de uma forma mais descarada ("Dos Namorados", "Passivo"). Falando do desejo é possível falar de desvios, e do poder, como falei antes, dessa nossa fluência nesses jogos, dos nossos caprichos. É um tema divertido e clichê, mas o indie em geral está mais pudico e talvez tem medo de se vulgarizar. Eu tentei ser fiel a um sentimento mais safado mesmo.

A última faixa do álbum se chama "Golpista" e fala, entre outras coisas, de omissão e tédio de tanta informação e briga de lado a lado. É quase que como um roteiro que termina num momento tenso. Por que terminar o álbum desta maneira?
Salma: Poxa, não sei. Não é um sinal do futuro, foi mais pela ordem das faixas no disco. Nós cogitamos não chamá-la de "Golpista", com receio de que as pessoas já a ouviriam contaminadas por alguma expectativa, mas esse foi o apelido dela desde sempre e ficou.

Noisey: Esse ano a Carne Doce faz cinco anos. Vai ter alguma espécie de comemoração ou já existe a necessidade de revisitar aquele primeiro disco?
Salma: Nossa, nem tinha pensado nessa perspectiva, realmente temos essa desculpa pra explorar e quem sabe ainda ganhar uns trocados! Como somos lentos. Mas não, não vamos comemorar, acho que é pouco tempo ainda pra fazer estardalhaço. Nós ainda tocamos músicas do primeiro disco ("Passivo" e "Benzin"). O desafio agora é começar a mostrar as novas músicas, e selecionar quais das antigas vão continuar compondo o set. O foco é o lançamento do novo disco.

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