'Um Príncipe em Nova York' era a história de imigrantes que minha família precisava

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O filme começa com uma visão majestosa de um reino africano: colinas, árvores e montanhas verdejantes, e um lindo castelo no fundo. Pode parecer uma cena de Pantera Negra, mas é a abertura de Um Príncipe em Nova York, o filme seminal do Eddie Murphy que faz 30 anos em 2018.

A comédia de 1988 conta a história do príncipe coroado de uma nação africana fictícia, que quer encontrar o amor verdadeiro apesar da insistência do pai para que ele case com a noiva escolhida para ele desde seu nascimento. De algum jeito, o príncipe Akeem (Eddie Murphy) convence o severo rei Jaffe (James Earl Jones) a deixá-lo viajar pros EUA para “espalhar sua semente real” antes de entrar no casamento arranjado.

Então Akeem vai pros EUA, rumando direto pro Queens, Nova York, onde acredita que vai encontrar sua própria rainha. É um conto fofo e divertido, e um dos melhores filmes do Eddie Murphy. Para mim, uma imigrante, o filme sempre significou muito mais que isso.

Como Akeem, minha família veio pros EUA buscando uma vida melhor. Era 1994, alguns anos depois do lançamento de Um Príncipe em Nova York. Apesar de termos chegado em Miami vindos da Rússia, mudamos para a costa oeste da Flórida alguns anos depois. Meus pais russos-cubanos queriam desesperadamente aprender inglês para se integrar na cultura americana, o que estava se mostrando difícil em Miami, onde muita gente fala espanhol.

Não lembro a primeira vez que assistimos o filme juntos, sentados num sofá usado na nossa casa pequena e com legendas porque meus pais ainda estavam aprendendo inglês, mas lembro das risadas. Logo, Um Príncipe em Nova York se tornou nosso filme preferido.

Como imigrante, a coisa com a qual eu mais me identificava com Akeem era sua determinação. Apesar de ser um príncipe e ter mais dinheiro do que minha família poderia imaginar, ele tentava se apresentar como um americano comum. Logo depois de sua mudança, ele consegue um emprego no McDowell's, uma cópia do McDonald’s comandado pelo pai de seu interesse romântico.

Apesar de nunca ter trabalhado antes — ele nem sabe como limpar um chão, o que ele logo descobre numa cena hilária envolvendo um esfregão — Akeem trabalha com alegria. Várias vezes durante o filme, o vemos abordar novas tarefas sempre com um sorriso no rosto.

A atitude dele me lembra meus pais quando chegamos aos EUA. Eu tinha oito anos e meu irmão só tinha dois, e meus pais imediatamente foram trabalhar para nos dar uma vida melhor. Apesar de serem formados em engenharia, nenhum conseguiu trabalho na área. Em vez disso, minha mãe fazia faxina e meu pai fazia trabalhos braçais. Com o tempo, meu pai trabalhou como eletricista, pedreiro e entregador de pizza, enquanto minha mãe trabalhava numa empresa de embalagem de alimentos. Ela também entregou pizza em certo ponto.

Pode não parecer uma situação ótima, mas as coisas eram bem piores na Rússia. Lá também, apesar do diploma, eles nunca conseguiam achar empregos em engenharia. Em vez disso, na Rússia minha mãe trabalhava como costureira e meu pai teve vários empregos, incluindo trabalhar numa barraquinha que vendia de tudo em Moscou, e contrabandeando produtos como videocassetes de Singapura. Moramos brevemente em Cuba entre 88 e 89, e a situação não melhorou. Mas nos EUA, o trabalho deles podia render uma vida melhor para seus filhos. Havia otimismo, um senso de que podíamos subir na vida. E lembro daqueles primeiros anos sempre que assisto Um Príncipe em Nova York.

O filme tem seus críticos, sim, especialmente pela maneira como mostra esteriótipos de africanos. Mas sempre achei que Murphy subvertia as suposições feitas sobre seu personagem. Afinal de contas, ele era um príncipe, não um cara que nunca estudou e caçava leões como os americanos que ele encontra supõem. Chegando nos EUA, também tive que lidar com esteriótipos equivocados. Fui chamada de “dupla comunista” por colegas de escola que não sabiam o que pensar da minha origem russa/cubana. Por causa do meu nome, Irina Gonzalez, às vezes me chamavam Speedy Gonzalez [Ligeirinho] também. Mas Um Príncipe em Nova York me mandava uma mensagem mais clara do que a que eu estava recebendo na escola: Os esteriótipos sobre outros países e aqueles que vêm deles geralmente são injustos, sem base e faz quem pensa assim parecer ignorante.

Isso também serviu para reforçar o que vi em primeira mão na minha família. Para a maioria dos imigrantes, a jornada pra cá não é fácil. Quando chegamos, meus pais tinham só US$5 mil para nós quatro. Eles conseguiram um empréstimo de US$ 10 mil com um parente que já morava aqui, mas trabalharam quatro anos para pagar.

Eles nunca reclamavam, e nunca pararam de sorrir. Como o príncipe Akeem, eles abordavam cada novo trabalho com entusiasmo. Era isso o exigido de qualquer pessoa chegando neste país no final das contas: trabalhar pesado para construir uma nova vida, e as dificuldades de Akeem exemplificava isso.

Claro, ele tinha um final feliz diferente. Seu segredo é descoberto e o caos começa, mas ele fica com sua garota no final. E em vez de ficar nos EUA, Akeem se casa com Lisa McDowell em seu país natal, Zamunda. Mais tarde, quando eles partem para sua nova vida real de carruagem, Lisa pergunta se Akeem estava disposto a abrir mão de tudo isso por amor. Ele diz que sim, e que eles podem deixar todo o luxo para trás se ela quiser, mas ela só responde “Não”.

Esse final é particularmente tocante para mim como imigrante, porque fala sobre a saudade da nossa terra natal que muitos de nós sentem. Se as coisas não fossem tão difíceis pros meus pais na Rússia ou em Cuba, não teríamos vindo pros EUA. Se meus pais pudessem ter prosperado lá e melhorado de vida, eles não teriam tomado a decisão difícil de viajar para milhares de quilômetros de distância de seus parentes e amigos.

Mas é isso que imigrantes fazem. Podemos não ter uma origem real, mas viemos para cá com o mesmo desejo do príncipe Akeem: conseguir uma vida melhor.

Pensando agora nos 30 anos de Um Príncipe em Nova York, e nos 24 anos da minha família nos EUA, sinto orgulho de ser imigrante.

Apesar de o desejo dele ser encontrar o amor verdadeiro, o Sonho Americano da minha família também se realizou. Meus pais são comerciantes de sucesso agora e, com ajuda deles, pude fazer uma boa universidade e trabalhar na carreira que escolhi.

Através do incansável sorriso de Akeem, pude entender a luta dos meus pais. O filme se tornou o preferido da minha família porque é uma história engraçada e romântica. Mas ele sempre vai ter um lugar especial no meu coração, pelo jeito como me lembra quão duro os imigrantes precisam dar quando chegam aos EUA.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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