A violência da qual os imigrantes estão fugindo foi estimulada pelos EUA

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Enquanto tribunais, forças da lei e a administração Trump continuam tentando descobrir o que fazer com o fluxo de migrantes cruzando a fronteira no sul ilegalmente ou procurando asilo, as raízes do problema atual muitas vezes são esquecidas. Os migrantes desesperados frequentemente vêm do “Triângulo Norte” da América Central — El Salvador, Guatemala e Honduras — e estão fugindo das altas taxas de homicídio e violência nesses países. Mas essa estabilidade não começou num vácuo. Muitos historiadores e especialistas em política apontam que vários problemas da América Central foram criados ou, pelo menos, ajudados pela interferência dos EUA nesses países décadas atrás. Em outras palavras, a política externa do passado moldou profundamente a crise de imigração do presente.

“Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas nos anos 1980”, disse Elizabeth Oglesby, professora de estudos latino-americanos da Universidade do Arizona. “As pessoas estavam fugindo de violência, massacres e perseguição política que os EUA financiou diretamente ou, no mínimo, encobriu e perdoou.” A violência hoje nesses países, ela disse, é um legado direto do envolvimento dos EUA.

Oglesby falou comigo da Guatemala, que mesmo hoje sente os efeitos cumulativos das ações dos EUA de mais de 50 anos atrás. Nos anos 1950, a Guatemala tentou acabar com práticas de trabalho exploradoras e dar terras para os indígenas maias no interior do país. A ação, segundo documentos secretos da CIA agora liberados ao público, ameaçava interesses americanos, como os da United Fruit Company, que controlava uma boa porção das terras na Guatemala. Mas em vez de citar fatores econômicos, muitos nos EUA gritaram “comunismo”, dizendo que as reformas trabalhistas eram uma ameaça à democracia. O senador do Wisconsin Alexander Wiley, presidente do Comitê de Relações Exteriores na época, disse que acreditava que um “polvo comunista” tinha usado seus tentáculos para controlar eventos na Guatemala. Em 1954, a CIA ajudou a organizar um golpe militar para derrubar o governo democraticamente eleito da Guatemala, e continuou a treinar militares guatemaltecos até os anos 70.

“A guerra na Guatemala na verdade foi um genocídio”, disse Oglesby, acrescentando que cerca de 200 mil pessoas foram mortas na guerra civil de 36 anos subsequente, que foi de 1960 até 1996. “A história é importante porque foi muito além do anticomunismo – o propósito era destruir a visão das pessoas do futuro. Isso teve um impacto terrível no país, com centenas de milhares de pessoas deslocadas.”

Na Nicarágua, El Salvador e Honduras as histórias são similares. Quando, no final dos anos 70, o grupo de resistência nicaraguense chamado Sandinistas derrubou a ditadura do país, que estava no poder há mais de 40 anos, os EUA se opôs à revolução, apoiou a ditadura e mais tarde apoiou o grupo rebelde conhecido como Contras. Em El Salvador, os EUA deu bilhões ao governo para lutar contra a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional socialista (FMLN), e usou Honduras como base de exercícios militares.

“Sob o guarda-chuva da Guerra Fria, os EUA amplificou sua presença na região, especialmente em El Salvador, para derrotar as guerrilhas do FMLN”, disse Xochitl Sanchez, do Central American Resource Center (CARECEN) em Los Angeles. “Os EUA é cúmplice em criar a violência de gangues, a pobreza, as pessoas deslocadas e a migração de El Salvador.” O CARECEN foi fundado em 1983, enquanto centro-americanos fugiam em massa para os EUA.

Contras rezando em 1989. Foto por Scott Wallace/Getty.

Acrescentando a essa instabilidade de várias guerras civis apoiadas pelos EUA na região, a chamada “guerra às drogas” de Richard Nixon, que começou em 1971, empurrou cartéis da Colômbia para a cada vez mais instável e pobre América Central. “As rotas de tráfico começaram a mudar, e isso coincidiu com crises econômicas na região e redes criminosas que assumiram o tráfico deslocado da Colômbia”, disse Oglesby. Ela enfatizou que embora o MS-13 renda a maioria das manchetes hoje (e cuja origem é em Los Angeles, não na América Central), “um problema muito mais profundo para a América Central é o crime organizado ligado ao governo, que vem diretamente da experiência de contrainsurgência dos anos 1980”.

Na época, alguns refugiados receberam asilo nos EUA com base em sua suposta inclinação política. “Na política da Guerra Fria, a administração Reagan ficou muito feliz em declarar a Nicarágua insegura”, disse Charles Kamasaki, consultor sênios do UNIDOS US, a maior organização latina de direitos civis nos EUA. “Em contraste, algo entre 99% dos requerentes de asilo salvadorenhos tiveram seus pedidos negados por razões inversas. Estávamos apoiando as juntas de direita – não podíamos dizer de uma perspectiva de política internacional que as condições lá eram inseguras, e portanto recusamos virtualmente todos os casos de asilo político.”

Um maior controle na fronteira, segundo Oglesby, tornou vir para os EUA significativamente mais perigoso e caro para os centro-americanos, mas isso não diminuiu a imigração. “A militarização da nossa fronteira na verdade está levando a um aumento de migração”, ela disse. Nos anos 90 não era caro viajar para o norte com um contrabandista local. “Agora a viagem custa $10 mil ou $12 mil para alguém da América Central — redes criminosas controlam as rotas através do México. Então quando as pessoas vão, elas ficam, porque não podem mais voltar. O único jeito das famílias se reunirem é os familiares também tentarem a jornada.”

Depois do anúncio da administração Trump de que abuso doméstico e violência de gangues não é mais base para pedidos de asilo, Oglesby teme que mais pessoas vão cruzar o deserto em vez de se entregar legalmente na fronteira. “O que significa mais mortes no deserto”, ela disse. “As pessoas também ficarão mais inclinadas a cruzar usando redes criminosas. Acho que criminalizar o processo de asilo vai só fortalecer o crime organizado que controla as rotas.”

Defensores de imigração e direitos civis me disseram que é impossível considerar a política de imigração doméstica sem examinar as raízes de política internacional da crise atual. “Os EUA tem uma responsabilidade moral e social com essa população de imigrantes, já que foi cúmplice na criação das condições que obrigaram a migração desses países”, disse Sanchez.

Embora o UNIDOS US não tome posições oficiais sobre relações exteriores, Kamasaki me disse que na visão dele, os EUA tem responsabilidade por seu papel nas circunstâncias que fizeram as pessoas deixarem seus países. “Para quem achou que deveríamos intervir na América Central, seja lutando contra o comunismo ou mantendo boas condições para os negócios, para que os consumidores americanos pudessem continuar comendo bananas baratas ou tomando café da Nicarágua, eu diria que a responsabilidade é uma via de mão dupla. Se você desfrutou dos benefícios, isso traz algumas obrigações.”

“Sempre me perguntam 'Por que os centro-americanos não ficam em seus países e tentam melhorá-los?'”, me disse Oglesby. “Quero que as pessoas entendam: os centro-americanos estão tentando fazer isso há décadas, e os EUA se colocou do lado errado dessas lutas, e agora está colhendo as consequências.”

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