Como experimentar com a bissexualidade sem ser babaca

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A bissexualidade está bombando agora. Segundo certos estudos, menos de metade dos adolescentes hoje nos EUA dizem ser hétero, e um terço deles se identifica como bi. Mas isso não significa necessariamente que está mais fácil ser bissexual. Para muitas mulheres, estigma, esteriótipos e representações equivocadas na mídia fazem se assumir bi (mesmo para você mesma) difícil de navegar.

Se você não é uma celebridade, se está num namoro sério, ou é uma adulta que todo mundo supõe que já devia ter isso decidido agora, a ideia de abraçar sentimentos bissexuais pode ser meio assustadora. É difícil saber por onde começar, como começar e o que tudo isso significa (se é que significa alguma coisa). Um estudo publicado pelo Prevention Science descobriu que pessoas que se identificam como bi muitas vezes encaram discriminação das comunidades hétero, gay e lésbica, e o isolamento resultante as colocam sob risco maior de ansiedade e depressão.

Marcar um ménage com uma estranha no Tinder pode parecer a única opção – e tudo bem se você curtir a ideia — mas não é o único jeito de testar essas coisas. Ser bissexual pode ser um pouco mais complexo que beijar uma garota e gostar, e nunca é tarde demais para explorar quem você é, do que gosta e o que fazer com isso.

Finalmente reconhecer sua autêntica sexualidade pode ser excitante, afirmativo e até transformador para quem que passou seus anos de formação se sentindo estranha por ser bi. “Eu achava que era a única pessoa do mundo que se sentia assim. Amigas não entendiam e me zoavam por gostar de mulher, e eu sabia que era a esquisita do rolê”, disse Genevieve LeJeune, fundadora da festa bi Skirt Club, para a VICE. “Reprimi esses sentimentos por muito tempo, mas quando comecei a conhecer outras mulheres como eu, meu Deus, o alívio foi imenso. Eu não era mais a esquisitona.”

A ideia de sair ou só pegar outra mulher (ou mesmo até pensar em outra garota) pode parecer algo novo, estranho e divertido do mesmo jeito que os crushs da adolescência, mas também pode ser intimidador se você nunca fez isso antes. “Quando se é jovem, o comportamento sexual de praticamente todo mundo é baseado principalmente em experimentação”, disse Heather Corinna, fundadora do site de educação sexual e de relacionamentos Scarleteen.

Quando seus anos de adolescência e faculdade — os períodos mais socialmente aceitáveis para exploração sexual já ficaram para trás, as coisas podem se complicar um pouco, e até serem mais constrangedoras. No começo, LeJeune disse que paquerar outras mulheres “era impossível. Não dá pra chegar numa garota no bar e dizer 'Com licença, você é bissexual? Meu nome é Genevieve'. Não vai dar muito certo”.

O namorado de LeJeune na época “era muito aberto a eu ser bi e descobrir minha bissexualidade”, ela disse, mas no final das contas estava mais interessado em fazer um ménage com LeJeune e outra mulher do que em ajudá-la a explorar sua sexualidade.

Não tem nada de errado em fazer um ménage com um parceiro hétero e outra mulher, mas como Corinna explicou: “ménages e bissexualidade nem sempre andam juntos, especialmente ménages com o namorado de alguém. Na maioria das vezes, todos os envolvidos são heterossexuais”.

LeJeune acrescentou que “acabei fazendo isso e não me senti muito confortável”. Ela fundou a Skirt Club porque queria “conhecer mulheres como eu” sem um público masculino presente.

As mulheres que frequentam a Skirt Club, segundo LeJeune, sentem “a mesma coisa. Quase todo mundo tem entre 20 e 30 anos. Talvez a pessoa seja completamente hétero, mas quer descobrir se tem tendências, ou talvez se identifique como hétero, mas de vez em quando fica com mulheres. Mas ela pensa em si como hétero, então é assim que ela se identifica”.

Às vezes as festas incluem estudantes de 20 e poucos anos da Geração Z que “estão pouco se fodendo para qualquer preconceito”, ou mães recentemente divorciadas que sentem que essa é a hora de experimentar. “Essas são as mais selvagens. É muito divertido de assistir”, disse LeJeune.

Sou uma mulher bissexual assumida e praticante, e quando fui para a festa mais recente da Skirt Club em LA, vi que LeJeune tinha razão. Conheci mulheres que estavam noivas e sentiam que essa era sua última chance de transar com outras mulheres. Também conheci uma garota que veio de Las Vegas com o único propósito de lamber uma xoxota pela primeira vez.

“A maioria das membros é discreta”, disse LeJeune. “Muitas mulheres usam um pseudônimo.” Elas pagam o ingresso, compram lingerie, se depilam, e assim que as luzes diminuem, começam a se pegar com um abandono que eu nunca tinha imaginado. Uma mulher veio me beijar e quase arrancou meu lábio.

A Skirt Club provavelmente não era a festa certa para mim. Não fiquei muito empolgada com a ideia de ter minha vagina chupada por uma garota hétero que nunca transou com outra mulher. Também não me depilo, e imagino que nenhuma das frequentadoras compraria o que eu estava vendendo. Passei a maior parte da noite sozinha.

Não acho que sou mais bissexual que ninguém, ou que sou tão boa assim de cama, ou que mulheres héteros não possam transar entre si se quiserem. Mas sei do que gosto e do que não gosto, e não gosto de me sentir uma novidade queer para alguém.

Como LeJeune apontou, a Skirt Club não diz ser um espaço para explorações de política de identidade ou estranheza. “A identidade de gênero não é algo em que realmente nos envolvemos. Abrimos uma comunidade para qualquer uma que queira explorar fazer sexo com uma mulher e não dizemos que você precisa ser bissexual. Nunca dissemos isso”, disse ela. “Todo mundo tem permissão para fazer sexo do jeito que quiser, com seu próprio corpo. É meio ridículo sugerir o contrário."

Mas como Corinna apontou, ficar com alguém “como se fosse um experimento teórico” pode ser alienante para a outra pessoa, que pode sentir que sua bissexualidade é mais que só uma preferência sexual. “Só porque alguém está percebendo que é ou que pode ser bissexual, não significa que ela esteja imune a ter internalizado todos os tropos e mitos sobre isso”, disse Corinna.

Quando a bissexualidade é uma novidade excitante para alguém, ela acrescentou, “a pessoa pode estar inclinada a abordar isso do mesmo jeito que fazia quando mais jovem. Mas ela tem muito mais sabedoria de vida do que antes. Além disso, espera-se que todo mundo tenha, sei lá, mais consideração com a outra pessoa”. Mesmo que o sexo seja só uma experimentação divertida, “você sabe que as pessoas são vulneráveis no sexo e na sexualidade, e sabe que quando as pessoas estão experimentando com o corpo uma da outra, elas também estão experimentando com sentimentos”, acrescentou Corinna.

Antes de mergulhar de cabeça na sua primeira vez com outra mulher, Corinna sugere conferir comunidades na internet como Autostraddle ou Scarleteen, e até ler alguns livros relacionados com sexo. Leia livros de autores bi e queer, mesmo se só planeja fazer sexo casual, ou se não tem certeza se é realmente bi. Isso te torna uma parceira sexual mais bem preparada, e você tem mais chances de se divertir.

Corinna também recomenda fazer amigos queer. “Há muitas armadilhas, e é muito fácil errar, se você não tem um tipo de comunidade queer para te ajudar.” Fazer amigos e se juntar a uma comunidade também facilita conhecer outras pessoas bi ou queer que podem querer transar com você e até continuarem suas amigas depois. Conheça outras mulheres bis, combine alguns encontros, e se você é nova no jogo, tudo bem contar. Pergunte a sua parceira em potencial do que ela gosta, e seja direta sobre seus próprios limites. Encontros sexuais sempre são melhores com comunicação honesta sobre o que está acontecendo exatamente e o que está prestes a acontecer.

Sexo pode ser só sexo, e experimentar com a bissexualidade não exige necessariamente uma reavaliação total da sua identidade. Se assumir bi ou queer pode não ser seguro para todo mundo, ou a pessoa pode não querer se aliar aos movimentos LGBTQ mainstream. Tudo bem só ser bi, quer isso signifique ou não que você já transou com uma parceira que se identifica com o mesmo sexo ou gênero.

“Há pessoas bi+ que veem o movimento LGBT mainstream como whitewashed e sem uma agenda que aborda as condições materiais de ser pobre ou de classe trabalhadora, negro ou pardo”, disse Herukhuti Williams, escritor, educador sexual e sociólogo. “Elas amam quem querem amar, entram em relacionamentos com as pessoas que escolheram. Elas experimentam sua sexualidade em toda sua complexidade e beleza, mas não acreditam na sexualidade como fonte principal da afinidade que têm por outras pessoas.”

Ainda assim, como Corinna apontou, encontrar uma comunidade pode ser útil e empoderador para muitas pessoas bicuriosas. “Minha comunidade é muito significativa para mim”, acrescentou Corinna. “As amizades que tenho nela são uma parte importante na minha vida. Em certo grau, é como se fosse minha família.”

Não tem jeito certo ou errado de ser bissexual, e aprender algo novo sobre o tipo de sexo que você gosta pode ser assustador. Mas uma exploração sexual consciente também pode ser divertida e libertadora. “Vejo a curiosidade bi como um despertar para a ideia de que uma pessoa não precisa aceitar as limitações impostas através do heterosexismo e homonormatividade”, disse Williams. “As pessoas podem explorar e examinar até que grau são atraídas erótica, sensual, romântica e/ou sexualmente por vários gêneros.”

Aceitar o espectro da sexualidade em vez de limitar a nós mesmos e outros a categorias como gay, hétero e bi é libertador, ele acrescenta. “Os rótulos como substantivos são menos úteis do que adjetivos e advérbios que descrevem pessoas, lugares, coisas e ações […] Eles permitem reconhecer as maneiras diversas e complicadas como nos movemos pelo mundo como seres humanos.”

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