Como o cinema está ganhando alguns rounds na batalha contra o streaming

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Vingadores: Guerra Infinita da Marvel é um titã em forma de filme. Todas as partes são tão sensacionais quanto o vilão roxo Thanos. Já sendo o longa de maior sucesso do estúdio no mundo, ele está a caminho de se tornar o primeiro filme de verão (e só o terceiro filme da história) a render US$ 2 bilhões em bilheteria. E, diferentemente de filmes como Jurassic World – que fez muito dinheiro e evaporou rápido em termos culturais e de crítica –, a resposta cultural ao megafilme da Marvel tem sido sísmica.

Cite, se puder, uma fala do filme de US$ 2,7 bilhões de bilheteria Avatar. Exatamente. Não dá. Mas mesmo antes de muitos espectadores irem ao cinema, o meme “I don't feel so good” de Vingadores já tinha entrado na consciência coletiva e discussões sobre “aquele final” e o futuro da franquia têm dominado o discurso popular. Resumindo: você tinha que assistir a Guerra Infinita porque todo mundo estava assistindo e precisava ir ao cinema para assistir. Mais que apenas um filme, Vingadores: Guerra Infinita se tornou um evento para o cinema.

Isso é algo cada vez mais difícil de conseguir numa era de streaming. Olhando além do hype que vem sendo uma das principais razões do sucesso da Marvel, o universo da marca cresceu de maneira estável e forte, enquanto outros desmoronaram logo na concepção (estou falando de você, A Torre Negra). E a habilidade dos Estúdios Marvel de criar a sensação de que cada filme deles é O filme do ano – um simples trailer de Vingadores é recebido com uma resposta mais voraz do que a maioria dos filmes – também não atrapalha. Sua máquina de marketing é tão robusta que seus filmes conseguem sobreviver num ambiente de janelas de atenção cada vez menores, sobrecarga de informação e saturação de franquias. Eles até conseguiram ressuscitar Thor: O Mundo Sombrio.

A Marvel também mantém o status de seus filmes como coisa grande enquanto enche a Netflix com seus heróis de rua. A briga Netflix/Cannes foi só a última batalha do tipo, com tiros disparados dos dois lados: Steven Spielberg dizendo que os títulos da Netflix são só “filmes para TV” foi a primeira pedrada, com o anúncio de que o tão esperado The Irishman de Martin Scorsese chegaria primeiro na plataforma de streaming como contra-ataque.

Alguns argumentam que a Netflix traz filmes menores e mais obscuros para um público que eles nunca tiveram antes; outros contestam dizendo que a plataforma reduziu Okja e Aniquilação a telas muito menores do que mereciam. E assim o “toma lá, dá cá” continua. Há muito politização por trás do serviço onde você vive assistindo às reprises de Grey's Anatomy.

A economia e facilidade dos serviços de streaming estão rapidamente os transformando no jeito preferido de assistir conteúdo, e a indústria do entretenimento ainda está no processo de se adaptar a essa mudança: como competir com algo que você pode assistir enquanto olha no celular ou comendo nuggets? Fundamentalmente, streaming é uma experiência muito diferente de colocar toda sua atenção numa grande tela por duas horas: você pode deitar no seu sofá, passar pelo Instagram, falar com seus amigos ou pausar quando quiser. Mas na urgência de assistir Vingadores – e outros grandes sucessos de 2018 como Um Lugar Silencioso –, o cinema como experiência pode ter conseguido recuperar algum território.

Um Lugar Silencioso depende especialmente da boa vontade do público porque usa o silêncio para criar tensão. O som de uma sala cheia de pessoas em silêncio é enervante, e o filme de John Krasinski se alimenta dessa sensação. Esse era um privilégio intocado da experiência de cinema – terror e comédia se beneficiam de maneiras diferentes de serem assistidos no cinema, porque jogam com reações, que são amplificadas por assistir em grupo. (Uma das melhores experiências que tive no cinema foi assistindo Atividade Paranormal 2, que é um filme ruim, mas quase caguei nas calças com os sustos no meio de uma sala cheia de outros espectadores tensos. Uma experiência coletiva singular com que a Netflix nunca poderia competir.)

Essa é uma via de mão dupla: o feitiço se quebra imediatamente se a plateia não colabora, e as redes sociais estão cheias de relatos enraivecidos de sessões de Um Lugar Silencioso estragadas por espectadores pentelhos e pedidos de conselhos de onde ver o filme sem interrupções. Mas como um filme pensado para ser visto no cinema, ele depende de um público que saiba colaborar.

Pensando nisso, ir ao cinema é uma experiência intrinsecamente estranha. Você entra numa sala cheia de gente – geralmente junto com amigos, parentes, parceiros ou em primeiros encontros – e as luzes se apagam. Você espera que o filme seja bom o suficiente para todos, para que todo mundo desapareça na escuridão e você também possa mergulhar no filme. É uma experiência bizarra, meio paradoxal meio sagrada, cujo lugar na sociedade está rapidamente mudando com os desafios de novas tecnologias e novos hábitos de consumo.

Mas uma nova era do cinema como evento pode mudar isso. Vingadores e Um Lugar Silencioso são apenas dois exemplos de filmes que projetam sua própria “etiqueta de cinema” na experiência de consumo, e isso só pode ser uma coisa boa.

Quantas vezes você parou para conferir as redes sociais enquanto lia isto? Não quero parecer o pai de ninguém, mas passamos nossas vidas cercados de telas que são explosões viciantes de gratificação instantânea, e não é difícil ver isso tendo um efeito corrosivo na nossa janela de atenção. Talvez o papel dos cinemas hoje deva ser como templos cinematográficos, onde podemos desligar brevemente todas as nossas merdas eletrônicas e aproveitar o filme.

De certa maneira, assistir um cara gigante roxo chamado Thanos ameaçando matar metade da população da Terra pode ser bem zen.

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