O apocalipse brasileiro chegou?

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Os grupos de zap da família não mentem: o Brasil está em pânico com a paralisação nacional de caminhoneiros autônomos e empresas de transporte, que desde segunda-feira (21) vem dilapidando a já inexistente legitimidade do governo federal. Se nos dois primeiros dias o papo era só, “Ah, olha só que bagunça esses caras estão fazendo”, na quarta-feira (23) os efeitos da greve começaram a aparecer no noticiário.

Primeiro foram os aeroportos que começaram a cancelar voos — em Brasília, só há combustível para operar até às 17h de quinta. 120 unidades de frigoríferos estão paradas, com 175 mil trabalhadores com atividades suspensas. Montadoras de veículos como Ford, GM e Volkswagen pararam parcial ou totalmente as atividades por falta de peças. O Porto de Santos está às moscas. A falta de combustíveis fez o preço da gasolina disparar: R$ 8,99 o litro no Recife, e até R$ 10 em Brasília. O transporte urbano de ônibus opera com frotas reduzidas nas principais capitais, incluindo Natal, Vitória e até Campinas, no interior de São Paulo. A Polícia Militar de São Paulo diminuiu as patrulhas nas ruas para economizar combustível. A rede de supermercados Carrefour limitou as compras a apenas cinco unidades de cada produto por cliente. Em Minas Gerais 500 mil litros de leite foram descartados. A falta de ração pode matar animais de corte – especialmente frangos e porcos — de fome.

Mas e aí, vai acabar o mundo? Existem motivos para se esperar um apocalipse brasileiro, mandar subir os créditos, vestir o cosplay de Mad Max?

Pelo andar da carruagem, certamente não. A situação que levou o país a esse misto de greve com uma variação de locaute pode ser debelada em breve, e diz muito mais a respeito da incompetência da gestão Temer e o fracasso da nova política de preços da Petrobras do que a respeito de uma falência generalizada do país – podemos estar perto do abismo, mas não tanto assim. O maior impasse no momento é intragovernamental. A Petrobras anunciou a redução de 10% do preço do diesel nas refinarias por 15 dias, mas os caminhoneiros querem uma política de preços que permita que o reajuste aconteça a cada 90 dias, e não diariamente, como vem sendo desde que Pedro Parente (o impopular “ministro do apagão” de FHC) assumiu a presidência da estatal. Parente se recusa a deixar o governo interferir nesse nível no gerenciamento da empresa, diz que bate o pé e que não vai mudar a política de preços, e mesmo assim as ações da Petrobras caíram 14% na Bolsa de Valores nesta quinta.

O presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) chegou a votar por zerar o PIS/ Confins, um dos impostos que incidem sobre o combustível, mas a Receita Federal chiou, dizendo que Maia não fez os cálculos direito e que o rombo nas contas do governo vai ficar bem maior do que ele imaginava. Maia admitiu o erro, mas subiu o truco e falou pro governo cortar o imposto sozinho. A Abcam, uma das entidades que lidera a paralisação, considera o isenção do PIS/ Cofins essencial para pôr fim à greve-locaute. Porém nem as entidades que representam os caminhoneiros e empresários se entendem, e já começaram a rachar na reunião (ainda em curso) com o governo nesta quinta. Nesta sexta o Senado deve votar a isenção, mas o Planalto ainda reluta em perder os R$ 14 bilhões de impostos. Por enquanto ninguém fala de mexer no ICMS, imposto estadual que incide mais fortemente que qualquer outro tributo sobre os combustíveis — com uma série de estados brasileiros em séria crise fiscal, seria a receita para um desastre real, e maior.

A tendência é que a paralisação arrefeça nos próximos dias, especialmente se o governo conseguir se articular para atender parte das exigências dos caminhoneiros e empresários — afinal, ficar parado também é prejuízo para eles, e pode leva-los a perder a recém-conquistada simpatia popular.

É certo que o impacto econômico da paralisação pode permanecer num médio prazo, mas deve se normalizar. Procurada, a Secretaria de Segurança Urbana do município de São Paulo indicou que não há risco iminente de desabastecimento na maior metrópole do país, por exemplo — mas ao mesmo tempo já entrou na Justiça para tentar garantir o transporte de óleo diesel para ambulâncias e para o transporte público da cidade, e também já mandou avisar que deve adotar medidas de contingência: na sexta (25), apenas 50% da frota de ônibus municipais deve sair das garagens e a coleta de lixo foi suspensa na capital paulista.

Parece que o apocalipse brasileiro pode até estar vindo, mas vem em câmera lenta. Dependendo a quem se perguntar, é possível ouvir dizer que ele já começou: para alguns em 2013, outros no 7x1, e para tantos mais, em 2016.

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