200 anos com Marx

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Avisos prévios

Este texto tem uma intenção concreta: a de dialogar com os lutadores e as lutadoras sociais, não necessariamente vinculados aos debates acadêmicos sobre a importância da obra de Karl Marx em nosso cotidiano. O debate será bem vindo em todos os campos, dado que estamos também no âmbito acadêmico, mas felizmente atuamos para além.

É com o popular e os movimentos sociais que queremos refletir sobre porque sim Marx, frente aos diversos nãos que devemos dar na luta contra o capital em nossos territórios. A premissa principal deste trabalho é de que a obra de Marx está ao alcance do povo, mas para isso é necessário ter centralidade na formação e nos desafiarmos a uma imersão nos diversos níveis de abstração propostos para entender o real com vistas a transformá-lo.

A complexidade da obra de Marx é diretamente proporcional às múltiplas determinações que compõem nosso dia a dia, ontem e hoje. Logo, quanto mais complexo o meio em que vivemos, mais difícil compreendê-lo com meras observações. É necessário ir tirando cada uma das camadas que compõem as vendas de nossos olhos e entrando, pouco a pouco, em um universo fantástico de desvendamento dos fundamentos que estão ocultos na camada mais superficial da mirada.

Marx, seu legado e as dificuldades de nosso tempo

Em 1818, nascia na Alemanha um bebê que se tornaria, desde muito jovem, uma das principais referências intelectuais e políticas sobre o sentido da educação como ato político e da política como ato de superação. Karl Marx. Viveu apenas 65 anos e morreu em 1883. Mas, o que nos deixou, de obra e de caminhada de luta, foi suficiente para que, ainda quando vivamos mais tempo que ele, bem provável que com menos consciência de classe, não sejamos capazes de nos acercar a totalidade de sua obra, tamanha nossa desordem no campo da teoria e da ação.

Fruto do seu tempo e das aprendizagens que teve ao longo de sua história de vida, Marx nos deu, na pedagogia do exemplo, uma maravilhosa possibilidade de aprender a abrir caminhos, visualizar brechas e sobre elas inserir novos processos coletivos irradiadores de amorosas revoltas de classe. Sim, porque se a revolução não for um ato de amor ao povo, de que revolução se trata?

Como ato de amor e ato político, a revolução, entendida como processo, narra histórias ocultas, invisíveis, estereotipadas distorcidas pela história dominante, hegemônica do capital. O que Marx nos deixou nos ensina que vale a pena sonhar enquanto se luta por uma sociedade verdadeiramente justa, democrática e livre. Fato é que, dentro da ordem dos últimos duzentos anos, se contarmos do nascimento de Marx em diante, no mundo em geral, e na América Latina em particular, produziu-se de modo formal e não formal muitas mentiras travestidas de verdade.

A complexa e ampla obra de Marx nos ajuda a entender como funciona a sociedade que nos escraviza, a partir de fundamentos, categorias e explicações que possibilitam entender para denunciar as mazelas concretas que não somos capazes de ver imediatamente, ainda quando a sintamos. Isso se deve ao fato de que a partir de uma projeção mentirosa sobre a liberdade mercantil, as amarras não são vistas imediatamente pelos nossos olhos e sentidos, dada a primazia do fetiche da mercadoria. Mas essa mesma forma fetichizada anuncia a possibilidade sempre aberta na história, da revanche dos condenados da terra.

À medida que a história prosseguiu, do espaço-tempo do Marx para o nosso (latino-americano), fomos empobrecendo em nossa reflexão crítica, da revanche, da “práxis” militante. É a partir dessa constatação que devemos entender a complexidade da obra desse incrível intelectual orgânico que revolucionou diversos sentidos de compreensão transformadora em seu tempo, tendo como parâmetro nós, a classe trabalhadora de todo o mundo.

Nossa fragilidade intelectiva nos faz temer ao nos acercarmos do que não sabemos. Afinal, fomos educados na arrogância mentirosa da hegemonia mercantil, que tem como característica o saber mais como sinônimo do saber pouco, a partir da fragmentação e especialização tão absurdas que não conseguimos nos aproximar da totalidade, tamanha a condução mal intencionada a especificidade minimalista sobre os fatos.

Forjados a saber menos: nossos títulos nos afastam do conhecer pleno

É desse saber acerca de nossas limitações para compreender o todo que deve vir a reflexão sobre as contribuições de Marx e de seus interlocutores ainda hoje. Sua obra nos leva para uma viagem cuja partida é o chão que a gente pisa, mas o caminhar por outros mundos nos permite voltar refazendo nosso próprio chão, no movimento revolucionário das bases que nos prendem. Chão = terra: território das lutas, das vidas, das memórias e histórias de outras pisadas, outros corpos em tempos anteriores.

Nosso não saber literatura, não saber a história mais ampla, não saber arte, nos entrava no pensar e também no agir. E vamos, a partir das travas da educação formal e societárias, e dos aparelhos ideológicos protagonizados pelo capital, nos tornando seres engessados para o belo, para o novo. Ou seja, quanto mais o tempo histórico avança e a tecnologia assume protagonismo nas nossas vidas, menos somos capazes de ver que, no simples, enraíza-se o complexo, cujo concreto nos exige abstrair para entendê-lo mais de perto.

Esse é o problema da não compreensão de Marx: ensinaram-nos a estudar errado, a odiar a escola, ao escolher entre isto ou aquilo. Selecionamos alguns autores, o que nos leva a aniquilar outros, em nome de uma equivocada ciência crítica, com ares de pura, até mesmo, no interior do pensamento crítico. Essa disputa entre um ou outro, entre o mais importante, a partir da estereotipação de outros como menos, tende a gerar um imobilismo, a ancorar a teoria em uma posição fora da prática concreta, o que gera muitos problemas no avanço da luta de classes.

Ensinam-nos a ser menos a partir do que estudamos formalmente e a nos contentar com esse vazio do dever ser sobre o poder ser. A realidade exige uma “práxis” que, quando existe no conhecimento formal, é invisibilizada, e na política cotidiana, é criminalizada.

É dessa amarra acadêmica e política que emanam as múltiplas incompreensões sobre Marx. Na forma restringida e equivocada da direita, Marx foi apenas mais um lunático revolucionário sem sentido algum na era e hegemonia do capital. Na ótica da esquerda dogmática ele foi tão tudo, que seus próprios defensores o colocam em uma moldura cristalizada sobre quem sabe, e quem não sabe.

Há, assim, um entroncamento da direita perversa e da esquerda dogmática sobre a irrelevância-supremacia de Marx: a capacidade de isolarem o sujeito da sua “práxis” do seu papel protagonista na luta de classes em diferentes ambientes em seu tempo, ainda presente hoje na nossa cotidianidade.

O humano, suas histórias vividas em seu tempo-espaço

Marx, como intelectual orgânico, não era um ser absoluto, sem equívocos. Nem seu brilhantismo estava em não equivocar-se. Muito pelo contrário: era um ser de muitas contradições, capaz de rever suas limitações coletivamente, porque produzia com muitos outros. Um ser capaz de pedir ajuda, de contar com seus camaradas, com sua companheira de vida, além de ser sério com seus interlocutores e, essencialmente, de jamais ceder na explicitação da verdade para a classe. Por mais difícil que seja, dizer a verdade é sempre um princípio militante, revolucionário. Seus equívocos, portanto, quando ocorreram, foram frutos de um tempo cheio de limitações no acadêmico e na compreensão do tempo-espaço dos gritos, dada a dificuldade real de acesso aos documentos.

É como humano, fruto da nossa inconclusividade, dos nossos medos, que nossas contínuas imperfeições precisam ser coletivamente lapidadas. Isso vale para ontem, e mais ainda para hoje.

Sempre é importante reforçar que seus limites também se assentam sobre as condições concretas de vida de seu tempo, de suas histórias e processos educativos. Isso é compreensível a partir dos elementos que constituem sua própria ideia de superação, pois, com base nos equívocos que comete, tende, coletivamente, a superá-los. Essa condição de autocrítica enquanto luta, o expõe como alguém extraordinariamente humano na sua capacidade de ler o mundo e a si mesmo com o objetivo de transformá-lo e transformar-se.

O que hoje temos de compreensão das lutas históricas, e das histórias para além da história oficial contada, nos exige ter, também, Marx como referência, se classe trabalhadora fôssemos e como classe nos identificássemos. Digo também porque acredito concretamente que a engenhosidade política, cultural, teórica de Marx se soma a outras tantas que a própria perspectiva crítica desconhece. E, ao desconhecer, comete equívocos absurdos diante das necessidades concretas de nosso tempo.

Reivindicar Marx não pode ser igual a negar outros grandes nomes de homens e mulheres que na práxis construíram processos de emancipação coletiva, ainda quando foram derrotadas na luta de classes. E o inverso também é verdadeiro. Reivindicar outros nomes, tendo para isto a necessidade de negar as contribuições em diversas áreas de Marx, é como explicitar que do esquartejamento intelectual é possível criar algo novo.

Com Marx ao nosso lado, não perdemos, ganhamos. Sem Marx, creio, já começamos com menos, quando precisamos de mais. Caso ele não seja o ponto de partida, que se torne uma possibilidade de caminhada; caso seja aparentemente o ponto de chegada, que seja revisto pelos caminhos construtivos de encontros entre vários lutadores de vários territórios. Mas ao tê-lo como bom elucidador sobre nosso caminhar, é necessário que esteja junto, comigo, contigo, conosco, na prática cotidiana de revelar o mundo com vistas a transformá-lo a partir do que verdadeiramente podemos viver sem sermos escravos clássicos ou modernos.

Meu, seu, nosso Marx

O Marx que me interessa está vivo e em movimento aqui, ali, lá. Porque sim, no empobrecimento intelectivo atual, suas palavras, por mais que se apresentem como difíceis, narram a vida cotidiana da gente como classe. Aqui, ali e lá, o método, a teoria do valor, a filosofia da práxis e os diversos diálogos travados com seus rivais de dentro da esquerda, sempre perigosos, e de fora dela com a direita, nos presenteiam com uma teoria expressamente ancorada na realidade.

Os níveis de abstração e as mediações se tornam ambos necessários, quanto mais complexa a cotidianidade se torna, mediada por uma violenta desigualdade estrutural na atual fase de sociedade do consumo, e de intensificação da exploração da força de trabalho. A atualidade é herdeira desse passado nefasto que Marx, assim como outras grandes referências, nos ajudam a desbravar teórica e politicamente.

A partir das contribuições de Marx compreendemos como é vital o rigor e aprofundamento sobre o que, em um primeiro momento, não conseguimos perceber: o movimento de totalidade e da particularidade no processo de desenvolvimento desigual e combinado que o capital produz sobre nossas vidas ao longo dos diversos momentos históricos.

O Marx que nos interessa é o lutador, intelectual, sujeito de classe. Ele não cabe em poucos dominadores e deturpadores de suas ideias que expressam a narrativa cotidiana da exploração, da opressão, e evidentemente, sua superação. Tampouco cabe em uma leitura tão específica que o separa, fragmenta, como o Marx da filosofia, o Marx da Economia, O Marx da Sociologia, o Marx da Literatura. São tantos Marx recuperados a partir de cada área que temos dificuldades de entender que se trata de um único sujeito cuja formação e capacidade de ver-ler o mundo eram extraordinárias, tendo como base uma vida inteira vinculada à compreensão do mundo para sua superação.

A teoria e a ação política anunciadas em meio à denúncia da exploração, do ser menos, cabe no nosso drama da exploração cotidiana. E não tem por que ser diferente, pois sabemos do que Marx trata quando fala de exploração, opressão, na cotidianidade invasora do capital sobre nossas vidas. Rouba o tempo e forja mentiras formais como verdades absolutas.

Para termos Marx presente conosco é necessário romper limites, refazer caminhos e expor nossas reais dificuldades. Pois há uma diferença abissal entre o que dizem ser limites de Marx, e os reais limites de seus divulgadores, ainda quando são muito bons. Em tempos de dificuldades concretas de falta de tempo, dado o tamanho do saqueio, do roubo, na forma de liberdade mercantil, aproximar-se da obra de Marx demanda lutar em muitas esferas contra: a fragmentação, o isolamento, a teoria sem ação, a reflexão sem política, a alienação que vem de lá – da direita – se enraíza em parte da esquerda.

Priorizar estudar de forma coletiva, focar na formação política, ter como ponto de referência concreta a história-trajetória-cotidianidade de luta da classe trabalhadora é o fundamento da práxis marxiana. Partir do real tal qual ele se apresenta com vistas a transformá-lo, após reconhecer as concretas amarras que nos prendem a esse sistema de exploração-opressão, torna-se vital, como um importante fundamento dos escritos de Marx.

O processo de alienação, a partir das ideias dominantes da classe dominante de cada época, projetado a partir da produção material e simbólica de valores mercantis expressamente fantasiosos na história da opressão-exploração, tais como liberdade, fraternidade, igualdade, democracia, deve ser revelado sempre. Assim, torna-se um imperativo hoje, a partir do que Marx, ontem, expressava junto a seus pares, sobre o papel protagonista dos trabalhadores e das trabalhadoras no quefazer político revolucionário, com base nas denúncias e nas ações transformadoras que efetivou.

Popularizar a obra de Marx não é igual a tornar mais fácil o que ele escreveu do que viveu e vivemos. Em tempos como o nosso, uma das tarefas fundamentais é a retomada da formação política nos territórios. Precisamos apostar na capacidade concreta que temos como classe de entender o que vivemos a partir da maldita relação concreta do roubo do tempo-trabalho, na forma-conteúdo da extração de mais-valia. Processo este que exige um rigor analítico para a compreensão dos diversos movimentos e processos de abstração que nos conduzam a entender aquilo que está intencionalmente oculto nas violentas práticas da dominação do capital sobre nossa força de trabalho.

Marx é meu, é seu, é nosso. É de muitos e muitas que sequer ouviram falar seu nome, leram algumas de suas páginas, ou o conhecem de ouvir. Enquanto nós, trabalhadores do mundo, em diferentes lugares, formas-conteúdos de exploração seguirmos dominados, explorados, oprimidos, subjugados, Marx segue vivo, em movimento, e nos ajuda e muito. De seu exemplo, vem a “práxis” revolucionária, vem a necessidade companheira de contar com muitos nós, dado que passou fome, foi exilado, foi perseguido e, essencialmente, destruído pelos inimigos de dentro e de fora da ordem que criticava.

Resgatar Marx a partir do que vivemos torna-se fundamental para os que queremos realmente fundamentar outro sentido para o viver que não o mercantil. Seja na batalha das ideias, ou na batalha cotidiana da sobrevivência diária, Marx nos acompanha porque foi como nós um sujeito explorado-oprimido capaz de romper com algumas das amarras que o prendiam.

Classe, raça-etnia-gênero-territórios

No Marx que sinto vivo, em movimento, cabe o debate de raça, de gênero, de regiões e, sim, de classe. Como classe, em diversos territórios, vivemos as particularidades de uma totalidade expressamente violenta, violadora, esquizofrênica em sua histórica relação contra nossos corpos, nossas vozes, nossa práxis. Mas para que apreendamos em Marx todos esses debates, é necessário revermos rotas separatistas, que, mesmo no interior de nossa classe, ergueram entre nós muros e ultrajantes mentiras reveladas como verdades por grupos sectários.

Meu Marx é humano e cabe onde tem povo, onde tem luta, onde se abrem horizontes de construção para o novo. Sim, Marx era um educador popular de seu tempo. E não deixará de ser por conta de sua incrível condição intelectual. Atuará em outros campos e contribuirá para a compreensão de muita gente sobre como funciona a sociedade, a partir das brigas que compra.

A verdade sobre o caráter popular de Marx não está nas categorias que somos capazes ou não de entender. Mas na sua trajetória de vida, na sua escolha de luta e, essencialmente, na sua produção histórica que rompeu tempos, abriu horizontes, revelou caminhos. Meu Marx cabe na sua luta, cabe na nossa esperança, merece nosso respeito, tributo e admiração.

Dessa aprendizagem coletiva sobre diversos processos de lutas ocorridos em vários territórios ao longo dos últimos duzentos anos, é necessário nos afastarmos de dois grupos perigosos: 1) dos tiranos do capital que, com sua má fé, criminalizam nossas lutas, torturam nossos sujeitos e preconizam a violência com o discurso da paz; e 2) dos pervertidos produtores dogmáticos da esquerda que, ao se sentirem proprietários privados do pensamento de Marx, afastam-no da classe trabalhadora tratada por eles como ignorante, alienada e incapaz. Estes dois grupos operam para nos imobilizar. O primeiro pela luta do capital contra o trabalho. O segundo, ainda que não admita, pelos mesmos motivos, metido no interior de nossa classe.

A vida e a obra de Marx: entre pontes e muros

A vida e a obra de Marx estão entre pontes e muros. Ou somos capazes de refundar o papel da teoria na ação concreta da luta de classes, ou seguiremos tirando o sujeito do lugar que pertence. A construção de pontes nos exige romper muros que historicamente nos isolaram. Cabe a nós, marxistas de diversas áreas, o comprometimento de explicitar a coerência, vivacidade e rebeldia de seus escritos nas lutas de nossos tempos.

Marx vive na ação reflexiva de muitos homens, mulheres, explorados e oprimidos de diversas formas em todas as partes do mundo, mas capazes de gritar Não! E de se colocarem com seus corpos, suas vozes, seus gritos e suas diferentes formas de contestar a ordem dominante como nossos pares na luta contra o capital e suas trajetórias históricas de violações. Seja o grito dito na forma simples, ou na forma complexa, é um grito que nos representa e cabe em tudo o que Marx produziu nos seus 65 anos de vida. Vive também na teoria crítica comprometida com as necessidades históricas de nosso tempo como classe trabalhadora. Se há luta na universidade, o pensamento, o método e a perspectiva política de Marx traduzem as incoerências de nossa realidade.

Como o pensamento é linguagem, a teoria e a ação são irmãs siamesas, Marx não diferente disso, mantém sua teoria essencialmente ligada à ação política de seu tempo. Ou seja, Marx, a partir de seus ensinamentos dialogados com nosso momento histórico, está presente nas ocupações de terras, de fábricas, de prédios ou terrenos abandonados, nas lutas por demarcações de terras, nos históricos quilombos presentes em todos os continentes repletos de lutas de resistências.

Sua “práxis” também está presente nas greves, nos cárceres, em todos os lugares onde se aglomera o povo com seus gritos silenciados, ou não, contra as chibatadas sofridas ao longo de suas histórias sobre seus dorsos e seus sentires. Marx está presente nos espaços formais e nos não formais. Em toda morte violenta e injustiça cometida contra nós em qualquer parte do mundo, Marx também está presente, senão sua obra se cristalizaria em seu tempo e perderia o movimento que lhe é pertinente.

Onde há luta, há Marx em vida e obra. Porque viva é a referência de seu exemplo militante manifestada em sua trajetória. Viva é a prática de superação que foge das letras de seus livros e encarna nos corpos dos trabalhadores no tom da luta de classes. Marx vive, mesmo quando não saibamos de sua existência, porque seu verbo se fez ação e sua ação tornou-se eco em diversos cantos do mundo. É nesse Marx político, militante, que sua teoria se assenta e nos contagia. A esse Marx, presente nas lutas de ontem e de hoje, rendemos tributos, festejamos em vida sua história a partir da nossa própria resistência.

Para que Marx permaneça vivo em nosso tempo, a partir do legado que nos deixou, é necessário combatermos diariamente a violência dos que o criminalizam, a arrogância dos que o tomam como propriedade privada e a carência dos que sem o estudar são, de forma incoerente, contrários a ele, sem mesmo o reconhecer como sujeito da classe. Assim, para mantermos vivo seu pensamento na forma da ação, precisamos promover um diálogo sério, honesto, a partir do que nos tocou viver, daquilo que Marx teorizou sobre a complexidade do movimento capital-trabalho, tendo como referência as contradições e mazelas do nosso tempo histórico.

Nesse reconhecimento, que deve ser humilde, solidário e expressivamente engajado, devemos explicitar o que Marx tem de mais extraordinário: a sua capacidade de produzir sendo um de nós, trabalhadores do mundo em diversos tempos e espaços. Mesmo que para isso precisemos ressignificar nosso caminhar a fim de nos (re)unir em uma grande frente internacional.

*Roberta Traspadini é professora do Departamento de Ciências Sociais da Ufes e coordenadora do Observatório da Educação Popular e dos Movimentos Sociais na América Latina, Ufes-Unila.

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