Um show de interpretação em Libras

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Na noite de sábado, 21 de abril, dois holofotes iluminavam as atrações do show com lotação máxima no Auditório do Ibirapuera: Noite de Climão , de Letrux. No palco, ao lado da banda, Elaine e Fabiano abrilhantaram e compuseram o show, do começo ao fim, por meio dos sinais. Enquanto a dupla se preparava pro show, fomos descobrir a história deles, a sua parceria fora do trabalho, e o seu comprometimento com a Libras.

Os intérpretes se preparam pro show vendo clipes e apresentações de Letícia Novaes, cantora da noite. Foto: Kel Lima/VICE.

O contato de cada um com a língua de sinais veio de formas diferentes. Para Elaine, os primeiros sinais vieram de um namorado surdo de uma prima. A partir de um convite para um curso de interpretação, Elaine se apaixonou pelo resultado e decidiu enfrentar uma saga acadêmica na área, começando com todos os cursos possíveis, do básico ao avançado, e depois, teve formação de intérprete e até pós-graduação. "Não saí mais da área", contou.

"[Tem] aquele surdo que mora mais no gueto, [mas também tem] aquele surdo mais elitizado, e os sinais variam." - Fabiano

Já Fabiano cresceu sem contato direto com surdos. Uma vizinha e colega de escola teve a missão de levá-lo a um curso de Libras lá pros anos 2000. Ele pensava que era um curso de mímica. Fabiano assistiu às aulas e também se enamorou pela língua. "Quando você começa o curso, acaba se envolvendo com a comunidade surda", comentou. "Eu ficava no Shopping Tatuapé e eles se encontram lá. Aquele monte de surdos na praça de alimentação, eu achava incrível. Você aprende libras num lugar e quando vai andando nas comunidades, vai percebendo que são diferentes. Aquele surdo que mora mais no gueto, aquele surdo mais elitizado e os sinais variam", explicou.

Letrux recitando um poema de Hilda Hilst. Foto: Kel Lima/VICE.

Os dois intérpretes seguiram a profissão inicialmente no ambiente acadêmico e depois avançaram pro mundo do teatro e dos shows. Fabiano conta que a língua de sinais varia muito com a área de atuação. A forma como se usa os sinais na área jurídica, política ou até mesmo na sala de aula, é bem diferente se compararmos com a interpretação pro palco. Os sinais mudam até mesmo do teatro pra música. "A gente acabou indo para essa área, porque a gente ama muito", disse o intérprete.

"Tem a questão do ritmo, a sensibilidade do que aquela letra quer dizer." - Elaine

Fabiano, que já acompanhou o rapper Black Alien em turnê e também em algumas apresentações na mídia, relembra quando a Libras o comoveu e o seu caminho para aprender a língua de sinais ficou mais claro. Convidado a ir numa formatura por uma aluna surda do curso de pedagogia, Fabiano aproveitou o momento e interpretou a música que estava tocando durante a cerimônia pra aluna. Ao descer do palco, emocionada, ela revelou que era a primeira vez que ela escutava uma música, e tinha sido através de mãos. O intérprete se lembra bem da sensação: "Isso para mim foi muito forte e entendi que música também é para surdo".

Foto: Kel Lima/VICE.
Foto: Kel Lima/VICE.

Elaine e Fabiano também lembram que o trampo do intérprete de show e teatro não se resume apenas em fazer os sinais da Libras. A delicada adaptação da letra da música pra língua de sinais. A experiência da dupla permite captar a questão do ritmo, a sensibilidade do que a letra quer dizer e traduzir em sinais. "O teatro também exige muito a sensibilidade do intérprete porque não pode passar sem a expressão, sem o tom do que é aquilo que quer passar, senão fica frio e não atinge do mesmo jeito que a língua falada. Tem essas nuances de uma interpretação pra outra", explicou Elaine.

Foto: Kel Lima/VICE.

"Eu acredito que música é poesia, então a gente pega a poesia e coloca no corpo", confessou Fabiano. É no ritmo, na expressão e doses de emoção que eles adicionam a apresentação. "Nos shows têm performance, balé, banda, o figurino. É um espetáculo mesmo, porque a música é uma vivência. Traz isso para o corpo, mão, osso e leva para que o surdo sinta essa emoção e entenda essa poesia, o que ela está falando e transmitindo."

"O surdo no meio de outros surdos não se sente com nenhum tipo de deficiência, ele está confortável no espaço dele." - Elaine

Esse cuidado do quê transmitir está relacionado a audiência também. Elaine aponta que com o público infantil há um zelo para que a mensagem se adeque ao mundo e conhecimento das crianças. "A coreografia do infantil a gente tenta adaptar no meio da letra para que a criança possa acompanhar. Se o artista está fazendo um gesto, a gente pode usar o sinal do gesto para intercalar as duas coisas sem perder o ritmo do show, para que a criança se sinta integrada".

Os intérpretes compreendem que para os surdos, show ainda não é um lugar comum. Diferente a um ouvinte, um surdo não cresce com as referências e vivências na música. A nossa cultura ensina a alfabetização, associações de linguagem, situações e momentos que sempre envolvem músicas e o surdos não recebem a mesma formação, o mesmo repertório. Elaine complementa dizendo que "musica não é só sonoridade".

Foto: Kel Lima/VICE.

"A gente está formando ainda esse público. São pouquíssimos os surdos que vão pros shows e hoje a gente vê esse público indo devagar", contou Fabiano. "Os jovens estão mais abertas para isso. [...] As crianças já entenderam o nosso trabalho, os adultos que ainda estão tentando entender. Para criança é tudo tão mais fácil, a gente percebe isso", adicionou Elaine.

O duo apaixonados pelo o que fazem, buscam aprimorar a interpretação em shows, bebendo muito da água do teatros, e desejam que mais espaços disponibilizem a interpretação de Libras, onde os surdos possam ter mais opções de escolha e criem o próprio repertório.

Campos destaca que o lance é comunicação. "Eles precisam ter acesso a comunicação", adiciona. Quanto mais acesso, mais se torna habitual. "O surdo no meio de outros surdos não se sente com nenhum tipo de deficiência, ele está confortável no espaço dele", disse Elaine.

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