O que acontece numa pancadaria medieval

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O complexo que envolve o estádio do Pacaembu, na cidade de São Paulo, foi o palco de dezenas de batalhas que terminaram numa pancadaria generalizada. Ao final, muitas pessoas ficaram “mortas” no chão do ginásio. A “carnificina” foi acompanhada e aplaudida, neste domingo (15), por cerca de duas mil pessoas, que pagaram para ver 50 guerreiros de armaduras duelando com espadas, lanças, machados, massas e escudos.

O dia amanheceu nublado e frio, um clima perfeito para a primeira edição da Copa São Paulo de Combates Medievais organizada pelo HMB-Brasil (Historical Medieval Battle), já que as vestes são pesadas. Durante toda a tarde, e parte da noite, atletas amadores de todo o país digladiaram com o intuito de conquistar pontos para o ranking brasileiro – que ainda engatinha em comparação a outros países. Além dos atletas, grande parte do público também estava vestido a caráter, contribuindo para o contraste de clima medieval e seu moderno entorno.

Foto: Larissa Zaidan/ VICE


A VICE chegou ao local às 13h, pouco antes do início do torneio, e conversou com algumas pessoas que contribuem para a existência da atividade que, apesar de não parecer, é um esporte – que exige, além do treino físico, muita pesquisa histórica.

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Pontuando para o ranking

Monalisa Costa, uma das organizadoras do evento, explica que para conseguir um grau de bronze no ranking, o guerreiro precisa de 50 pontos – o mínimo exigido para que o atleta participe do torneio mundial. Para ser um lutador de prata, são necessários 500 pontos e, de ouro, mil. Nenhum atleta brasileiro atingiu ainda o grau de prata. A pontuação mais alta registrada pelo HMB-Brasil, até o momento, é a de Fábio Toniolo, da Sociedade da Espada de Prata, com 267,5 pontos.

Foto: Larissa Zaidan/VICE


Um atleta só pode se inscrever em duas modalidades por torneio. Para cada inscrição efetuada, ele ganha cinco pontos. Se por ventura o novato perder seus dois embates, são descontados dele 2,5 pontos por derrota, deixando o aprendiz de cavaleiro com cinco pontos, por exemplo. Porém, se começar vencendo, ganha cinco pontos por batalha em que for o melhor. “Para chegar aos 50 pontos, considerando que o participante vence e perde, são necessários muitos duelos”, disse Monalisa.

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Esta contagem é considerada nos duelos realizados por dois atletas, no mano a mano, cada qual usando uma arma. Os pontos são contados quando golpes acertam em cheio os combatentes na cabeça, tórax e na vanguarda de braços e pernas.

Outro tipo de disputa é o “bohurt”, feito a partir de, no mínimo, três guerreiros de cada lado, podendo chegar até 21 representantes por equipe, ao mesmo tempo. A ideia do bohurt é derrubar o adversário do outro time. Estando no chão, o atleta “morto” não pode interferir na batalha que continua ao seu redor. Mas para quem está em pé, vale soco, chute, voadora com os dois pés no peito e tudo o que a imaginação pode proporcionar para este momento.

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

Caso sua arma caia no chão, precisa pegar uma reserva com sua equipe de apoio, nas laterais do “campo de batalha”. Estando sem arma, o participante fica impedido de bater nos oponentes, mas pode ser alvo de quem está armado – se tornando um alvo muito fácil. “É a modalidade que o público mais gosta, pois, apesar de não machucar, é a mais violenta”, afirmou Monalisa.

Para que as pontuações sejam aceitas oficialmente, todas as batalhas são filmadas e depois encaminhadas para “capitães”, em Brasília (DF), e para um setor de historicidade, que avalia se a armadura usada pelo atleta, de fato, é histórica (feita com inspiração em modelos existentes entre os séculos 13 e 17). Após isso, a avaliação feita no Brasil é enviada para a HMB internacional. A organizadora da Copa acrescentou que, atualmente, 30 atletas contam com armaduras históricas e treinam semanalmente em todo o país, sendo todos reconhecidos internacionalmente.

Foto: Larissa Zaidan/ VICE

A escolha das armaduras

As armaduras vestidas pelos guerreiros de cada grupo não são selecionadas aleatoriamente e precisam estar em harmonia com o conjunto. O clã precisa se paramentar com referências de um mesmo país e também de um mesmo período histórico. E para que um atleta tenha sua armadura aceita, outro combate é realizado fora dos campos de batalha.

Os serviços de consultoria de Flávio Pinho, 20 anos, representante de historicidade do HMB no Brasil, são oferecidos. Também estudante de história, ele explicou ser fundamental que as armaduras estejam adaptadas para o esporte, respeitando também o período que inspirou a forja delas. “Todas as peças têm uma adaptação, por uma questão de segurança, mas precisam de uma base histórica. Eu e o resto do pessoal damos toda a assessoria necessária para iniciantes, pois é um tipo de pesquisa que leva tempo para se acostumar. Minha função é ver se os equipamentos dos combatentes passam na avaliação da base histórica ”.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

O consultor revelou ainda que as regras de historicidade no Brasil são mais rígidas do que na gringa, pois a ideia, segundo Pinho, é que fiquemos um passo à frente nesta questão. “Este é um esporte em que o seu equipamento importa muito”, cravou.

Tempo e custos de uma armadura

A grana disponível para investir em uma armadura é que vai determinar o tempo em que ela ficará pronta. “Se você conta com o dinheiro para pagar à vista, consegue sua armadura entre um e três meses. O que, normalmente, não é o caso. Geralmente as pessoas demoram de seis meses a um ano para montar uma armadura completa”, explicou Pinho, acrescentando que uma boa armadura custa a partir de R$ 5 mil. A que ele usa nos torneios, inspirada no final do século 15, saiu por R$ 9 mil. As referências usadas para a feitura de uma armadura são, geralmente, pinturas de época.

Foto: Larissa Zaidan/ VICE


A resiliência de Montanha

João Paulo, o “Montanha”, 23 anos, é um dos atletas brasileiros que estarão no mundial da Itália, em maio deste ano. A VICE o abordou no momento em que vestia seu traje de luta – com referências inglesas do século 15 – ajudado por seu fiel escudeiro Gustavo Souza. Ele é o atual quinto guerreiro no ranking brasileiro, com 125 pontos.

Após 20 minutos, Montanha ficou paramentado e pronto para o combate. Ele duelou usando um machado e venceu Carlos Cuevas, indo para a final contra “Virtuoso”, de quem perdeu. Montanha saiu ferido da arena, sendo levado para uma viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A reportagem o acompanhou e verificou que seu punho esquerdo foi enfaixado. “Isso aqui não é nada”, garantiu o atleta. Porém, parceiros de batalha tentaram convencer o guerreiro a não mais participar das batalhas do dia, com medo de que ele ficasse inutilizado para o mundial italiano.

Foto: Larissa Zaidan/VICE


Única mina no rolê

A estudante de TI Mirian De França Santos, 22 anos, entrou no mundo medieval por causa de um projeto de extensão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde estuda. Ela viu a galera lutando e se interessou. Falou com a organização e lhe explicaram as regras. Mirian, então, treina há três anos e usa uma massa no bohurt, aliado à arma técnica de jiu-jitsu para derrubar os adversários. “Meu foco é um bohurt, mas tenho uma paixãozinha pela espada e escudo”, revelou.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Quando começou a treinar, a mãe dela não entendeu muito bem o que a filha fazia. “Falei que luto usando armadura e ficou por isso (risos).” A armadura de Mirian remete à Itália do século 15 e foi feita em três meses. Todos os equipamentos feitos na UFSC pertencem ao grupo de estudos. Isso ajuda para que tenham um “acervo” de armaduras, que podem ser usadas pelos novatos – enriquecendo a experiência deles no mundo medieval desde o início.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Quando ela precisa lutar, vai para a Argentina, pois não há garotas brasileiras para duelar no bohurt. “Eu queria muito lutar no Brasil”, afirmou com nítida decepção. “Que venham as garotas para lutar no Brasil”, desafiou. Enquanto nenhuma equipe feminina é formada nas bandas daqui a atleta integrou a seleção argentina no mundial da Espanha, no ano passado. “Mas eu usei um cachecol escrito Brasil para saberem que no meio das argentinas tinha uma brasileira”.

Já que estava sem rivais para duelar no domingo, Mirian ajudou sua equipe como escudeira – auxiliando na vestimenta de armaduras e também no apoio aos guerreiros durante os combates, travados até a noite no Pacaembu, com choro e lágrimas, mas de alegria.

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