Não sou mulher

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Não sou mulher. Vivo em um país latino-americano e sou do gênero feminino. Mas ganho mais dinheiro que muitos homens que conheço; se tivesse de fazer um aborto –embora no meu país, a Argentina, a interrupção da gravidez seja ilegal–, teria podido pagar a um bom médico e não correria o risco de acabar morta ou estéril por causa de uma infecção; nunca me jogaram ácido na cara; não me arrancaram os olhos; não me queimaram viva; não fui estuprada nem por estranhos nem por meu companheiro; jamais fui espancada por um homem; nunca tive que me encarregar de cuidar sozinha dos doentes da minha família; não sou a única na minha casa que cozinha ou faz as compras; a “pressão social” para eu me reproduzir não me afetou (a ponto de não tê-la sentido). Vivi em, de, por e para a liberdade, a autossuficiência e a insurreição, e paguei por isso os preços que qualquer pessoa paga, macho, fêmea, travesti, transgênero, etcetera, de qualquer orientação sexual. Já disse: não sou mulher.

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