Um papo com Bob Wakelin, o criador das capas mais icônicas dos anos 80

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Matéria originalmente publicada no Motherboard US.

No último dia 20 de janeiro, Bob Wakelin faleceu. Eu tive a oportunidade de conversar com o artista sobre a sua vida e o seu legado. Publicamos essa entrevista pela primeira vez em português para que as futuras gerações conheçam mais sobre o trabalho do cara por trás das capas de games mais queridas e esquisitas dos anos 80.

Muito antes das extremas experiências de terror dos videogames modernos, nossas doses de choque e impacto vinham principalmente da arte incrível e às vezes horrível das caixas dos videogames dos anos 80. Seja por admiração ou aversão, você tem que agradecer ao artista britânico Bob Wakelin por todas essas memórias.

Alguns admiram essa arte por nostalgia, outros ficam perplexos com como o material promocional dos jogos era na época, mas o fato é que as capas de jogos old school vêm hipnotizando jogadores desde que as empresas começaram a contratar artistas para resumir o gameplay em uma ilustração de capa.

No começo dos anos 80, Wakelin foi contratado pela Ocean Software, a empresa que finalmente descobriu como fazer adaptações descentes de filmes para jogos. Ele acabou trabalhando com dezenas de jogos produzidos em massa através dos altos e baixos daquela era dos videogames.

Ficamos curiosos com a vida do ilustrador trinta anos atrás, então falamos com Wakelin sobre drogas na indústria, capas toscas, jogadores calejados e o que está errado nos videogames hoje.

Motherboard: Primeiro, qual sua capa favorita dos anos 80 e qual a que você mais odeia?Wakelin: Varia dependendo do meu humor. Muitas das minhas artes favoritas foram feitas para jogos toscos como Highlander. Se um videogame era um lixo eles me pediam para pegar pesado na ilustração... quero apontar que eu nem sempre sabia que um jogo ia ser uma merda!

Acho que minha capa favorita é a do Operation Wolf. Ela tem um amigo meu como o herói e a gente se divertiu muito na sessão de fotos pra ela. Gosto do jeito como a imagem aborda diretamente o espectador apontando uma arma na sua cara. Tem algumas capas que eu detesto, mas Parasol Stars sempre me dá um calafrio quando penso nas horas que passei desenhando esse puto fofinho e seus amigos – além disso, foi um saco conseguir um layout que funcionasse. Gift From The Gods também é péssimo.

Você mencionou que no começo fazia cerca de três capas por semana para a Ocean. Como era trabalhar na indústria nos anos 80? Como era possível lançar tantos jogos um atrás do outro?
No começo eu trabalhava com outro cara com quem dividia as tarefas, o que nos permitia produzir mais – aí a vida de nóia dele começou a atrapalhar e tivemos que nos separar. No começo dos anos 80 a coisa não era tanto uma indústria, então era um trabalho como qualquer outro. Era uma época bem caótica onde eles te pediam para trabalhar no projeto, te deixavam sozinho para desenhar e depois você entregava a ilustração quando estava pronta. Uma coisa quase inédita hoje.

Sempre fiquei curioso com os hábitos de drogas dos desenvolvedores de games nos anos 80. Vocês usavam alguma coisa para lidar com o trabalho ou só para se divertirem durante o processo? Qual era sua droga preferida na época?
Eu fumava cannabis de dia e bebia cerveja à noite. Eu morava no centro da cidade e muitos dos meus amigos eram ex-punks desempregados e pessoas que gostavam de levar um estilo de vida, por falta de um termo melhor, “alternativo”. Meu estúdio era um bom lugar pra eles ficarem enquanto eu trabalhava. A gente ouvia música, bebia café e fumava muita maconha.

Era uma coisa puramente social – de certa maneira, minha vida era uma grande reunião social, já que eu ia para o bar com outros amigos depois que terminava o trabalho do dia. Não tenho a menor ideia do que os desenvolvedores usavam, já que eu não conhecia muitos deles naquele ponto.

Que tipo de feedback você tinha do seu trabalho na época?
O único feedback que eu recebia era dos donos e do diretor de arte da Ocean Software, que geralmente era entusiasmado e positivo. Claro, os garotos comprando os jogos gostavam do que estavam vendo, mas eu era mais velho e não havia uma rede de fãs, então eu não tinha feedback do público – não que eu desse a mínima, desde de que a Ocean gostasse e me pagasse em dia. Eu não conhecia nenhum outro artista que fizesse capas de videogame na época porque morava no meu próprio mundinho em Toxteth, Liverpool.

As pessoas gostam de glorificar o estilo de arte das capas dos anos 80, mas você parecenão concordar com elas. Por que você despreza tanto o trabalho feito na época?
Não desprezo, só estava pouco me fodendo porque não era minha esfera de interesses. De uma ou outra coisa eu gostava, mas essas imagens significaram muito mais para a criançada e eu não era criança. Meus interesses eram música barulhenta, chapar, ler livros e quadrinhos, beber e transar, não arte de capa de jogos feita por outras pessoas.

Você ainda se surpreende que as pessoas gostem dos seus primeiros trabalhos?Inicialmente isso me surpreendeu, mas agora entendo. Uma molecada se apegou às imagens que representavam seus jogos favoritos, cresceu e ainda lembra da alegria que sentia quando colocava às mãos naquela pequena caixa. Tenho a mesma sensação com capas de quadrinhos antigos. As imagens têm quase um gosto e um cheiro além do impacto visual.

Quais são suas melhores lembranças de trabalhar para a indústria de videogames nos anos 80?
A melhor parte era entregar a arte e receber apreciação pelo que eu tinha feito. E depois sair para almoçar num lugar legal e tomar várias cervejas com o diretor de arte, um cara de quem eu gostava muito. (Dito isso, gosto de qualquer pessoa que me leve para comer e beber de graça.)

Como você vê os jogos lançados na época e os que são publicados hoje?
Eu só gostava de jogar videogames nas máquinas que eles tinham nos pubs. Não sou um gamer, então meu comentário não importa muito. Mas como alguém de fora olhando para isso, a indústria dos videogames parece ter seguido a indústria do cinema mainstream: tudo parece perfeitamente acabado, com pouco espaço para alguma coisa realmente louca ou simplesmente estranha.

Os desenvolvedores originais vinham de todo tipo de vida e tinham interesses muito diferentes, o que informava os tipos de jogos e as ideias loucas que vinham com eles. Essa geração cresceu com jogos, jogos e mais jogos, e os produtos parecem cada vez mais seguros e sem graça.

Muitas das capas que você criou fazem referências diretas a filmes de ação. Por que você acha que havia uma obsessão com o gênero na indústria de videogames dos anos 80?Filmes de ação eram os únicos que conseguiam estourar nas bilheterias nos anos 80 e muitos jogos pareciam refletir esses interesses cinematográficos, assim como minhas capas.

Qual arte original sua você acha que mais representa o zeitgeist dos videogames nos anos 80?
Provavelmente Wizball. É minha ilustração mais popular, mesmo eu não achando que seja tão boa. Mas quem sou eu para discutir com gamers vividos, né?

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