VRChat é uma sala de bate-papo de realidade virtual lotada de memes

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Matéria originalmente publicada na música do disco de rap do rato da Disney bombando nos meus fones, decido que VRChat é uma ideia brilhante. Passei dez minutos vagando pela paisagem infernal dos piores momentos do Mickey. Memes toscos do personagem alinhados nas paredes. O ritmo do rap mudando aleatoriamente. Era um ataque aos meus sentidos de todos os ângulos, diferente de tudo que eu tinha experimentado antes.

Era horrível, mas meio que gostei. E esse é um bom resumo do que é o VRChat.

Leia mais: popularizado por YouTubers como PewDiePie . O Poligon começando com os gráficos péssimos . É fácil abrir o menu e viajar por dezenas de ilhas, cafés, clubes de comédia, masmorras e florestas criadas por usuários.

Passei por um portal que me levou para uma ilha cheia de Knuckles correndo entre minhas pernas, estalando a língua e me perguntando se eu sabia o caminho. Dali, tomei um portal para outra sala cheia de avatares grátis baseados em memes. Foi lá que adotei a persona que usei pelo resto da jornada — uma imagem 2D do meme de Kylo Ren usando uma calça enorme.

De lá viajei para uma recriação de um cruzamento de uma grande cidade japonesa típica. Os outros avatares lá se juntaram ao meu redor, tirando sarro do meu físico e me pedindo vários favores sexuais. Me virei e vi um estranho avatar quadrado com o pinto de fora e uma frase nazista escrita no peito.

Cercado por caras bizarros, saí do cruzamento e entrei numa recriação exata do Stone Flower Shrine de Nier Automata. Um avatar do Alphonse do animê Fullmetal Alchemist estava sentado lá em silêncio, olhando as flores. De lá pulei para a sala mencionada acima, do labirinto do Mickey Mouse, depois para um restaurante do Chuck E. Cheese onde avatares não-jogáveis dançavam na frente de uma tela passando vídeos do Chuck E. Cheese.


Uma hora depois, eu estava sentado num cinema com vários Ronald McDonalds e um tanque assistindo a versão de George Romero de Madrugada dos Mortos. O tanque não parava de falar em russo, então mandei ele calar a boca para poder assistir ao filme. Foi aí que eu soube que precisava sair. Eu tinha perdido horas da minha vida imerso num estranho mundo em realidade virtual, e eu nem estava usando os óculos VR. A experiência é viciante.

“O VRChat parece estar decolando graças a três fatores que contribuem para uma tempestade viral perfeita”, me disse Wagner Jamus Au, autor de The Making of Second Life e do blog de VR social New World Notes, por e-mail.

“Ele permite aos usuários dar upload no seu próprio avatar através do Unity [uma ferramenta de criação de games popular e acessível], e tem um mecanismo de física básico”, disse. “Ele pode ser acessado sem usar um óculos VR, permitindo que mais jogadores se juntem à diversão. Usuários do YouTube e Twitch descobriram o potencial para anarquia liberada do app e piraram com vários vídeos do VRChat que viralizaram.”

Wagner apontou que é mais difícil desenvolver conteúdo para outras plataformas sociais de VR, que não têm mecanismos de física, e geralmente exigem os óculos. “Muitos deles colocaram a carroça na frente dos bois”, ele disse. “Estabelecendo cuidadosamente uma infraestrutura econômica com pouquíssima gente lá para usar.”

Ele apontou o jogo Sansar, do desenvolvedor do Second Life Linden Lab, como um exemplo de outro aplicativo de realidade virtual social. Ele desenvolve seguimentos de alta qualidade de filmes e softwares educativos corporativos, como a recriação de cenários do filme Jogador Nº1. Também tem o High Fidelity, um programa de realidade virtual focado em imagens de alta qualidade e tecnologia blockchain.

“A maioria dos jogadores não dá a mínima para isso”, disse Wagner. “Eles só querem mergulhar nesse mundo imediatamente, começar a brincar com o sistema, causar e desfrutar do caos, e se divertir uns com os outros.”

Caos é uma das melhores partes do VRChat, mas nem todo mundo está se divertindo. A abertura da plataforma permitiu um tipo peculiar de racismo nascido na internet e a misoginia floresce. Mulheres na plataforma relataram experimentar um nível de abuso infelizmente típico de videogames online e plataformas de redes sociais. A desenvolvedora de jogos VR Katie Chironis postou um vídeo de dois minutos no Twitter mostrando como ela foi cercada e assediadas por usuários depois de falar em voz alta numa área lotada do VRChat.

“As pessoas sabem 'em teoria' que abuso acontece com mais frequência com mulheres e pessoas não-brancas, mas aqui está um bom exemplo”, Chironis escreveu no Twitter. O VRChat trabalhou com ela depois do tuíte, e agora acrescentou a opção de bloquear automaticamente todo mundo que não é amigo do usuário. Não é uma medida que vai cortar pela raiz o abuso online, mas pelo menos o VRChat reconhece que isso é um problema e está fazendo algo sobre a questão.

Andar pelos vários McDonald’s, Cafe Leblanc de Persona 5 e Dalaran de World of Warcraft foi sensacional. Ter que me desviar de babacas vestidos de Knuckles me pedindo para levá-los até sua rainha e lançando portais para “Uganda” não foi. Como as salas de bate-papo do meio dos anos 90, o VRChat exemplifica uma época selvagem e caótica da internet, um tempo do qual as pessoas sentem saudade. No momento, as experiências em realidades virtuais sociais são o velho oeste da internet, um desses bizarros espaços sem lei onde ninguém sabe exatamente o que está acontecendo. Isso não vai durar muito, mas será divertido e escroto enquanto durar.

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