Carlos Dafé fala sobre o seu primeiro disco, obra-prima do soul brasileiro

Photo of Carlos Dafé fala sobre o seu primeiro disco, obra-prima do soul brasileiro
Facebook
VKontakte
share_fav

No Disquecidos, relembramos os OUTROS álbuns clássicos da música brasileira. Nesta edição, o cantor, músico e compositor carioca Carlos Dafé, no auge de seus 70 anos, relembra as piras e as inspirações sobre o seu dançante disco de estreia solo que completou 40 anos em 2017.

Carlos Dafé toma seu café com adoçante na casa de sua produtora na Zona Oeste de São Paulo enquanto olha para si mesmo na capa de “Pra Que Vou Recordar”, obra que completou 40 anos em março de 2017. É inevitável reparar na generosidade do tempo com aquele senhor de 70 anos. Pequeno, bem vestido e ágil na memória e nas palavras, ele recebeu a reportagem do Noisey para falar sobre seu primeiro disco solo, aquele que fincou-se como clássico do soul brasileiro e que hoje é cobiçado, por algumas centenas de reais, por colecionadores e DJs de vinil.

Foto: Felipe Larozza

Se você nunca ouviu falar do Dafé, abre uma aba do Google e dê uma pesquisada de leve. Ele tocou com Seu Jorge gravou e ninguém se manifestou, até tem que procurar a família dele.

Como surgiu “Pra que vou recordar o que chorei”?

Inclusive esse tema, “Pra que vou recordar”, foi sobre uma bailarina que se matou no Hotel Nacional, no Rio de Janeiro. Me chamaram num canto para eu dar conselho a outra bailarina que queria se matar também, tudo por questão de amor. Eu tava beirando a 30 anos, falei que não tinha experiência, mas falaram para mim. ‘Tem sim, cara. Quando tu canta aí na frente, elas cantam aqui atrás. E outra coisa, tu esqueceu que quando tua mulher tava grávida da sua filha elas te traziam presentinhos pra tu levar. Os pedidos que elas faziam.

Fui para casa no outro dia de manhã, lá plantando no meu jardim e veio uma melodia, na sequência eu peguei um lápis, um caderno e cobri a melodia, cantei no camarim e cantei ela cinco vezes naquela noite.

Um dia um cara me parou no aeroporto aqui em São Paulo, indo para o Rio, e um rapaz me falou assim: ‘pô, parabéns. Você salvou a minha mulher com tua música “Pra que vou recordar”. Eu sou o marido da Miriam, aquela lá do Hotel Nacional. Nós temos dois casais de gêmeos.

Seu presente tá aí,né?

Pô.

Por que você abreviou o nome para o disco?

Não fui eu não. Eu não sei o que aconteceu. O título originalmente era “Pra que vou recordar o que chorei”, mas acho que isso aqui foi ideia do Mazola. Ele não gostava dessa música. De repente ele chorou muito e fez isso.

Em “Zé Marmita” tem uma subida sua no começo que acaba com tudo. É você e um piano e depois vira um samba jazz muito foda. Como rolou isso?

Tem um papo político aí. Era uma época em que o povo brasileiro tava ali futebol, samba e Carnaval e o couro comendo. Aí eu fiz "Deixa de fita, seja sincero / Ô Zé Marmita, abra seu peito" e coloquei "cantando na avenida você nem vê que amanheceu"... Aí o Sérgio Cabral, o pai, colunista do jornal O Globo, de esquerda, botou no jornal que eu tava tirando o sonho do sambista. Não, eu só tava acordando o sambista.

E quem é o Vandenberg que assina a canção com você?

É meu parceiro dos festivais, meu parceiro das perseguições políticas. Era ele e o Antônio José do Espírito Santo.

A gente vai chegando no final do disco com “Bichos e Crianças” que é uma disco foda. Como rolou esse som?

Isso sou eu e minha mulher levando a nossa filhinha, com dois anos de idade, no zoológico na Quinta da Boa Vista para ver os bichinhos, aquele negócio todo e tal. Verônica se deliciando e o que sacamos? Um barato. A gente começou a falar que a mamãe girafa também levava a girafinha para ver a gente. "Olha lá aquele negão". Aí saímos de lá numa tempestade com água no joelho salvando a nossa filha. Chegamos em casa, tomamos banho quente, chá e eu vou para o piano, ela começa a cantar comigo.

Aí ela virou sua parceira na faixa?

Isso, Marilda Barcelos.

É sua esposa até hoje? Há quanto tempo vocês estão casados?

Ih, já perdi a conta.

Quantos filhos vocês têm?

Dois, a Verônica e o Dafézinho.

Aí temos “Metrô”, que é uma das porradas mais legais da Black Rio está no seu disco.

É uma música que eu toco pouco, mas é pedida pra caramba.

Ela tem trechos bem psicodélicos, da guitarra, tudo.

E aquela metaleira maluca, que foi coisa do Oberdan. Ele me mostrou a parada e eu criei em volta.

É, já tinha uma parada urbana nesse som.

Sim, porque estava sendo construído o metrô no Rio, mas eu criei o cenário envolto na pirâmide que o Oberdan me apresentou. Eu tenho dificuldade de tocar no show, porque eu não posso violentar a obra do jeito que ela tá. Se for tocar tenho que tocar na íntegra.

Quantas cópias o disco vendeu na época?

Eles nunca revelaram para nós.

Esse era um grande problema das gravadoras, né?

Sim, nunca deram um disco de ouro para nós nem para a Banda Black Rio sendo que em todo lugar que a gente vá até hoje as pessoas conhecem a nossa obra.

Você tem um chute de quanto vendeu?

Pode pôr aí umas 200 mil cópias.

Você escreveu todas as letras e toca no disco inteiro. Como você fez para participar ativamente em tudo?

Eu sempre participei de tudo, é um filho.

E qual foi a inspiração para a capa?

Isso foi porque a moda era disco.

Você lembra o dia em que rolou a foto?

O dia não, mas foi em Santa Teresa. Foto do Sebastião Barbosa.

Foto: Felipe Larozza

Nos agradecimentos, além das pessoas que já mencionamos, tem uma mulher chamada Regina. Quem é ela?

Ela era da parte administrativa da Warner, ela era secretária lá. Ela ajudou muito.

E qual a importância dela, do Guti, Alcione, Don Filó e da Equipe Soul Grand Prix para a realização desta obra?

Foi 10. Eles foram de suma importância.

Quanto tempo você ficou em estúdio produzindo?

Nós ficamos cerca de dois meses gravando. A Warner tinha o maior zêlo, eles tinham a maior preocupação.

E saiu do jeito que você esperava?

Saiu. Saiu até melhor.

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no e Twitter.
Siga a VICE Brasil no , Twitter e Instagram.

ver Vice Brasil
#soul
#disquecidos
#música