Oprah Winfrey: dos Globos de Ouro para a Casa Branca?

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Loa Angeles — O zum-zum começou nos bastidores, um labirinto de salões, quartos e suítes no hotel Beverly Hilton, onde eu estava desde o meio dia, pilotando a cobertura ao vivo dos Globos de Ouro 2018 para o site oficial. Oprah Winfrey ainda estava no meio de seu discurso de agradecimento pelo prêmio Cecil B. deMille por conjunto de obra e liderança profissional, quando as palmas começaram a ecoar pelos corredores, imediatamente acompanhadas de gritos “Oprah para presidente!” . Eram mensageiros, fotógrafos, editores, garçons, estagiários, técnicos de som e imagem, assistentes de produção, mulheres e homens, acompanhando a cerimônia nos telões espalhados pelos corredores e suítes transformadas em escritórios. Imediatamente depois, todos nós percebemos que os aplausos e o bordão “Oprah para presidente!” não estavam mais restritos aos bastidores, mas vinham agora do International Ballroom, que ouvíamos em dobro, pelo ar e pelo som das TVs.

Se tivesse sido combinado, não seria tão poderoso.

A grande maré de reconhecimento e apoio ao movimento contra o abuso e a exploração sexual dentro da indústria de entretenimento, que vinha num crescendo desde antes da devassa em torno das acusações contra o ex-poderoso produtor Harvey Weinstein, em outubro — quando reportagem do New York Times trouxe o tema à tona — tinha acabado de ganhar um inesperado elemento catalizador no que deveria ter sido mais uma grande festa de entrega de prêmios como esta cidade está tão acostumada.

Firmemente instalados no primeiro ou segundo domingo de cada ano, os Globos são conhecidos como a maior festa da indústria, o primeiro grande encontro de profissionais de todos os ramos da TV e do cinema num ambiente descontraído, luxuoso, regado a coquetéis, champanhe e boa comida.

Mais informal que os Oscars, os Globos sempre foram mais congraçamento que disputa, embora sempre estivessem de certa forma, expressando as preocupações e temas do meio. Sua primeira solenidade, em 1944, foi um almoço simples nos estúdios da Fox, e a ideia era promover um ambiente de solidariedade com os combatentes da Segunda Guerra Mundial e se manifestar contra a xenofobia que percorria a sociedade norte-americana. Dos assassinatos de Kennedy e Martin Luther King ao ataque do 11 de setembro, todos os grandes traumas dos Estados Unidos acharam um modo de se fazer presentes nos Globos, ainda que de um modo mais informal do que, por exemplo, Marlon Brando mandando Sacheen Littlefeather em seu lugar para receber um Oscar, em protesto contra o genocídio indígena.

Em 2017, as discussões sobre a falta de diversidade racial na indústria e a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais foram amplamente refletidas nas indicações, prêmios e discursos dos vencedores – muito especialmente no de outra recipiente do Cecil B. deMille, Meryl Streep.

Quando começaram os preparativos para os 75º Globos de Ouro, seis meses atrás, a conversa sobre inclusão e a necessidade de expor e coibir os abusos sexuais contra mulheres e menores de idade ainda era um tema interno da indústria. Importante, mas interno. “Muito cedo notamos que o evento poderia ser a primeira plataforma a dar voz ao movimento das mulheres em prol de mudanças por um comportamento ético e por inclusão”, diz Meher Tatna, presidente da Associação dos Jornalistas Estrangeiros em Hollywood, que outorga os Globos de Ouro. “Sentimos que havia a necessidade de expressar o desejo por mudanças importantes”.

A seleção do recipiente do Cecil B. deMille — uma escolha da diretoria da Associação — foi feita dentro desse contexto. “Oprah nos pareceu a pessoa mais afinada com estes temas importantes”, diz Tatna. “Ela é poderosa, conhecida mundialmente, e tem essa capacidade natural de se conectar profundamente com todo mundo, inclusive pessoas que não conhece pessoalmente. Não tinha como NÃO escolhermos Oprah”.

Quando outubro e o affair Weinstein abriu a caixa de Pandora aos olhos do mundo todo, os Globos 2018 já estavam em plena pré-produção, e o tema da inclusão e do respeito individual tomaram a frente das conversas. Não houve um esforço concentrado para abraçar oficialmente o tema, mas líderes dos movimentos #metoo e #Timesup manifestaram interesse e foram bem acolhidos, Seth Meyers começou a trabalhar com os roteiristas num discurso de abertura que deixasse claro o seu ponto de vista, e o convite a Oprah foi feito formalmente.

Quando finalmente janeiro chegou, o consenso em torno da necessidade de sanear alguns dos males mais antigos e profundos da indústria não era mais uma questão de pequenos debates, mas de um grande movimento. Usar eventos de alcance mundial como plataforma para divulgar uma questão são uma prática clássica do entretenimento – e, desta vez, entre os trajes pretos em mulheres e homens, “Oprah para presidente” e um ano de frustração com uma Casa Branca irreconhecível os Globos foram a caixa de ressonância ideal.

“Não sei se vai acontecer, mas espero que os outros eventos de prêmios sigam nosso exemplo”, diz Tatna. “Como uma mulher liderando uma organização de jornalistas na qual 60% é de mulheres, pretendo continuar apoiando o movimento de um modo concreto.”

Meher Tatna, presidente da Associação dos Jornalistas Estrangeiros em Hollywood: “Oprah Winfrey candidata iria energizar a cena política dos Estados Unidos como nunca vimos antes” (Frazer Harrison/ Getty Images)

Em breve, Tatna diz, a Associação vai anunciar uma iniciativa de apoio a movimentos de inclusão e paridade profissional.

Oprah para presidente, no entanto, é uma questão mais complexa. Há tempos Winfrey vem, quietamente, explorando a possibilidade do lançamento de uma candidatura. A vitória de Trump animou as conversas com o Partido Democrata, e representantes de Winfrey dizem que ela está “muito intrigada, de um modo positivo” com a possibilidade de ir adiante com o projeto, “principalmente depois da noite dos Globos”. Tatna é a favor. “Acho que isso iria energizar a cena política dos Estados Unidos como nunca vimos antes. Precisamos dela. Precisamos muito”.

Quanto ao possível faux pas de usar um traje vermelho e ouro na noite em que a cor preta era de rigor para expressar o apoio à causa, Tatna tem ótimos motivos. Sua roupa, feita à mão em sua cidade natal, Mumbai, foi encomendada dois meses atrás, antes da proposta dos trajes pretos. “E além disso, quis respeitar minha cultura”, ela acrescenta. “Na Índia jamais se usa preto em momentos de celebração. E esta era uma ocasião de grande celebração – não apenas do melhor do cinema e TV de 2017, mas dos 75 anos dos Globos de Ouro”.


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