Em busca de uma vida melhor nos gelados confins da Rússia

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Abençoada com uma abundância de metais preciosos enterrados sob um deserto de neve, mas tão destituída de luz solar que as noites de inverno nunca terminam, Norilsk, a pouco mais de 320 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico, é um lugar de extremos brutais. É a cidade industrial mais fria e poluída da Rússia, e a mais rica – pelo menos em termos do valor de seus vastos depósitos de paládio, mineral raro usado em telefones celulares que custa mais de US$1 mil/onça (28,3 gramas).

Também é escura. A partir de agora, o sol para de subir, deixando Norilsk envolta na noite eterna do inverno polar. Este ano, a escuridão começou em 29 de novembro.

Construída sobre os ossos de trabalhadores presos e escravizados, ela começou como um posto avançado do Gulag de Stálin, um lugar tão difícil que, de acordo com uma estimativa, dos 650 mil prisioneiros que foram para lá entre 1935 e 1956, cerca de 250 mil morreram de frio, fome ou excesso de trabalho. Porém, mais de 80 anos depois de Norilsk ter se tornado parte do Arquipélago Gulag, ninguém sabe exatamente quantas pessoas trabalharam lá em servidão penal ou quantos morreram.

O sistema de Norilsk, conhecido como Norillag, foi fechado em 1956, quando Nikita Khrushchev começou a desmantelar os excessos do stalinismo. O legado do controle repressivo, porém, continua nas fortes restrições de acesso à cidade. Os estrangeiros são impedidos de visitá-la sem uma autorização do Serviço de Segurança Federal da Rússia, sucessor pós-soviético da KGB.

“Norilsk é uma cidade única, foi posta aqui à força. É como uma sobrevivente. Se não fosse por ela, haveria outro princípio da vida no Ártico; você vem, trabalha, congela… e vai embora”, disse Alexander Kharitonov, proprietário de uma gráfica na cidade.

Minério fundido é derramado em uma área de armazenamento em uma usina cobre em Norilsk, na Rússia (Sergey Ponomarev/ The New York Times)

Os moradores ficaram para transformar o que, até a década de 1930, era um deserto ártico habitado apenas por povos indígenas dispersos em uma cidade industrial, pontilhada por chaminés fumarentas por entre blocos de apartamentos da era soviética e ruínas da antiga prisão.

A população caiu drasticamente após o colapso da União Soviética, em 1991, que gerou uma grande crise econômica, mas voltou a aumentar com as fortunas da Rússia. Cerca de 175 mil pessoas moram em Norilsk hoje.

Para além da cidade, que fica a quase três mil quilômetros a nordeste de Moscou, há o norte da Sibéria, região selvagem ampla e praticamente desabitada.

“Todo o resto é uma amplidão desabitada de natureza selvagem. Foi aqui que os últimos mamutes morreram. Quando preparavam as fundações dos edifícios, encontraram ossos desses animais”, disse Vladimir Larin, cientista que vive em Norilsk.

Os ossos dos prisioneiros também teimam em reaparecer, quando o inverno finalmente acaba em junho e a neve derretida traz à superfície os restos sombrios do passado da cidade, o qual, pelo menos oficialmente, permanece em grande parte escondido.

Alguns moradores são descendentes dos antigos trabalhadores escravizados que aqui ficaram simplesmente porque era muito difícil deixar um lugar tão remoto, onde os habitantes se referem ao resto da Rússia como “o continente”. Não existem estradas ou ferrovias conectando Norilsk a outras partes da Rússia fora do Ártico; a única maneira de entrar ou sair é de avião ou de barco, pelo oceano.

Muitos moradores, no entanto, vieram voluntariamente, atraídos pela promessa de salários relativamente elevados e trabalho constante na indústria metalúrgica da cidade, um complexo de minas e fundições pertencente à Norilsk Nickel. Ela é uma antiga estatal, hoje privatizada, e a maior produtora mundial de paládio, além de grande fornecedora de níquel, cobre e outros metais.

Trabalhador de uma usina de cobre em Norilsk, Rússia (Sergey Ponomarev / The New York Times)

Também é uma das maiores produtoras mundiais de poluição, transformando uma área equivalente ao dobro de Rhode Island em uma zona morta de troncos de árvore sem vida, lama e neve. A certa altura, a empresa emitiu mais dióxido de enxofre por ano do que toda a França. Desde então, algumas medidas para reduzir a produção de resíduos tóxicos vêm sendo tomadas, mas, no ano passado, a empresa foi acusada de transformar o Rio Daldykan, que corre pela fábrica, em uma corredeira de gosma vermelha. Os locais o chamam de “rio de sangue.”

A empresa distribui seus produtos pelo porto de Dudinka, no Yenisei, o maior dos três grandes rios siberianos que correm rumo norte, para o Oceano Ártico.

PESSOAS EM UMA RUA DE DUDINKA: cidade é um importante porto para transporte de paládio, níquel, cobre e outros materiais (Sergey Ponomarev/The New York Times)

Dudinka, além de ser a principal via de ligação entre Norilsk e o mundo exterior, também mostra um pouco do passado da região. O museu de história natural local exibe tendas usadas pelos quatro principais povos indígenas da área. O maior deles hoje é o dos dolgans, nômades que viviam da caça e do pastoreio de renas, mas que foram obrigados a viver em fazendas coletivas durante a era soviética.

Hoje existem cerca de sete mil dolgans, muitos dos quais desistiram das crenças xamânicas de seus antepassados em favor do cristianismo. Pequenos grupos nativos incluem os entsi, dos quais restam apenas cerca de 227 na região, conhecida como Taimyr.

A crença tradicional no xamanismo foi sendo progressivamente minada pela Igreja Ortodoxa Russa, que envia sacerdotes para a área desde o século XIX e que, em 2000, construiu uma nova igreja em um promontório com vista para o porto de Dudinka.

“Nossas crianças estudam sua língua nativa como se fosse um idioma estrangeiro. Muitos povos locais foram perseguidos por causa do xamanismo. Um xamã sonhou que o Deus russo iria derrotar o Deus xamã e que só ele controlaria Taimyr”, disse Svetlana Moibovna, membro do grupo indígena nganasan.

Apesar do clima inclemente, da poluição sufocante e da ausência de luz do sol do final de novembro até janeiro, muitos moradores se orgulham de Norilsk.

baixa temperatura não permite que se caminhe nem mesmo distâncias curtas (Sergey Ponomarev/ The New York Times)

No inverno passado, as temperaturas caíram para -62º C, e o princípio do inverno deste ano também está sendo implacável, com temperaturas em novembro já chegando em torno de -20º C.

Esse frio ajudou no aparecimento do setor de táxis, porque a baixa temperatura não permite que se caminhe nem mesmo distâncias curtas. Os carros cobram um preço fixo de 100 rublos (cerca de US$1,70) para ir a qualquer lugar da cidade. Também há ônibus, mas quando está muito frio para esperar por eles, os passageiros se amontoam em lojas nas proximidades do ponto até o ônibus chegar.

Porém, até mesmo o frio rigoroso é, para alguns, uma fonte de prazer: as águas geladas do Lago Dolgoye atraem os nadadores que se deleitam com a estimulante experiência de mergulhar no gelo. “Após do mergulho, fico com a sensação de que estou de férias há uma semana”, contou Natalia Karpushkina, de 42 anos. O lago congela apenas parcialmente por causa de tubulações de água quente de uma usina nas proximidades.

A cidade também tem uma grande piscina interna para aqueles menos interessados em nadar na água gelada.

A maior parte do trabalho e do lazer ocorre do lado de dentro, especialmente no inverno de escuridão perpétua. Essa vida fechada tornou-se consideravelmente menos monótona recentemente graças a um acontecimento há muito aguardado: depois de décadas de serviços prestados à economia digital, fornecendo materiais necessários para fazer celulares e computadores, Norilsk tem agora seu primeiro serviço de internet confiável.

Mas, mesmo sem a internet, havia aqui uma tentativa de reproduzir as comodidades de uma cidade normal de Rússia: a faculdade de artes de Norilsk oferece aulas de balé; a Norilsk Greenhouse, uma empresa local, cultiva pepinos em abrigos aquecidos, enquanto o Bar Zaboi conta com música ao vivo e cerveja local.

O gerente do bar, de 30 anos, Anton Palukhin, que saiu do Cazaquistão para se estabelecer em Norilsk com os pais quando tinha cinco anos, disse que tem problemas com o clima e que, sempre que viaja para regiões mais quentes da Rússia em férias, sofre por ter que retornar ao Ártico.

“Eu realmente não quero voltar e estou disposto a abrir mão de qualquer coisa para não ter que entrar no avião”, disse ele. Mesmo assim, continua voltando.

Recém-casados são saudados por membros da família. Muitos moradores foram atraídos a Norilsk por causa da promessa de salários elevados e trabalho constante na indústria metalúrgica da cidade (Sergey Ponomarev / The New York Times)

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